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26/05/2016

Uma luz no fim do túnel

Setor sucroalcooleiro entra em nova fase com perspectivas de bons preços para o açúcar e etanol

Uma luz no fim do túnel

Após cinco anos de grandes dificuldades, representantes e especialistas do setor sucroalcooleiro acreditam em uma fase positiva com bons preços para o açúcar e o etanol. A volta da Cide (Contribuição de Intervenção no domínio Econômico), o aumento da mistura do etanol anidro à gasolina, a redução do ICMS tanto da gasolina como do etanol em alguns Estados são algumas das ações recentes que animam os produtores para uma possível luz no fim do túnel. No entanto, ainda é cedo para falar em retomada.

“A safra 2015/16, que teve início em abril do ano passado, foi melhor que as anteriores para os produtores  de  cana”,  avalia  Manoel Ortolan, presidente da Orplana  (Organização  de  Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil) e da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de são Paulo). Para ele, o setor está superando os problemas e entra em uma nova fase positiva, marcada por bons preços do açúcar e do etanol e por expectativa de crescimento. “Apesar das dificuldades políticas e econômicas enfrentadas pelo país, os fornecedores estão mais esperançosos”, afirma.

No entanto, ele pondera que é preciso lembrar que, para o investidor é fundamental a confiança no governo e a segurança das regras do mercado,  fatos  que  não  existem hoje. “de qualquer forma, o quadro econômico e político está de tal modo conturbado que certamente o país não voltará a crescer em curto prazo”, observa.

Além da volta da Cide, a redução do ICMS nos Estados produtores de cana-de-açúcar contribuiu para direcionar o mix das usinas para maior produção de etanol ao invés do açúcar. “Aliado a isso, depois de cinco anos, o déficit na produção de açúcar em relação ao consumo mundial volta a valorizar seu preço”, avalia Alexandre Andrade Lima, presidente da união Nordestina dos Produtores de Cana (Unida), da Associação dos fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP) e da cooperativa de fornecedores de cana que reativou a usina Cruangi (Coaf/Cruangi).

Segundo  Lima,  a  autoestima dos fornecedores de cana em relação ao setor aumentou bastante, sobretudo em função da reativação de duas usinas através de cooperativas dos produtores nos últimos dois anos em duas regiões de Pernambuco – Mata sul e Norte. Estas usinas balizam as bonificações para a  cana  dos  fornecedores,  o  que promove e gera uma concorrência entre as demais usinas para a aquisição da cana, qualificando assim um melhor tratamento das outras usinas com os canavieiros. “É oportuno destacar que, com a reativação das usinas pelas cooperativas dos fornecedores de cana, alguns já estão plantando até mais canas para esta nova safra”, observa.

“Na minha visão as expectativas são boas, desde que o setor possa se recuperar financeiramente. Isto porque existem cerca de 100 usinas que fecharam e quase 90 em recuperação judicial”, avalia Paulo Leal, presidente da federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana). Segundo ele, é necessário que as indústrias e os fornecedores se unam com uma solicitação conjunta de um PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao  Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) para o setor. “Ou seja, a recuperação financeira se dará ao longo dos próximos 10 anos”, afirma.

Sob a visão do mercado, a tendência de melhora é para a safra 2016/17. de acordo com Andy Duff, Gerente da equipe de Pesquisa em Agroeconomia do Rabobank Brasil, em relação ao  açúcar, a expectativa de um déficit de cerca de cinco milhões de toneladas no balanço global este ano quebrou a tendência de queda dos preços mundiais.

Ao mesmo tempo, a forte desvalorização do Real em relação ao dólar ao longo de 2015 significa que o preço mundial em dólar, convertido em reais, tornou-se muito atrativo para a indústria brasileira. A respeito de etanol, como o preço da gasolina subiu bastante no ano passado, 2016 começou com um preço-teto para o etanol hidratado maior do que no ano passado. “A expectativa de uma safra em excesso de 600 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, com clima menos chuvoso do que 2015/16 e, por isso, um leve aumento da qualidade da cana, ajudarão em controle de custos”, afirma.

Desafios
Para  a  efetiva  retomada  de crescimento do setor, é necessário destacar alguns aspectos, avaliam  os  produtores. Para Manoel Ortolan, nos últimos anos o setor atravessou dificuldades econômicas por conta do endividamento das usinas e, principalmente, pela falta de competitividade do etanol hidratado frente à gasolina nas bombas. “Destaco  a  necessidade de adoção de políticas públicas de longo prazo para o setor. A indústria da cana gera diversos ganhos econômicos, sociais e ambientais para o País. Para promover o aumento desses benefícios, o setor precisa de regras claras quanto ao papel do etanol na matriz energética brasileira, bem como da energia elétrica. Somente  assim  investimentos darão início a um novo ciclo de crescimento”, afirma.

O presidente da Orplana e Canaoeste avalia ainda que algumas medidas de longo prazo como o reajuste na alíquota da CIDE, que incide sobre a gasolina, a redução dos juros e o aumento de recursos disponibilizados por algumas linhas de financiamento do Banco Nacional de desenvolvimento social e Econômico (BNDES), destinadas à expansão da produtividade nos canaviais e programas de estocagem de etanol, também devem ajudar bastante o setor. “No entanto, o maior desafio é fazer o governo enxergar essas necessidades”, ressalta.

De acordo com Alexandre lima, da unida, o maior desafio é que o setor amplie a produtividade e mantenha o preço do etanol competitivo em relação à gasolina. Isto favorece com que boa  parte  da produção do mix das usinas seja direcionada para o etanol, não ampliando a produção de açúcar e assim não ofertando mais açúcar no mercado mundial. “Vale salientar que, como o país é o maior produtor mundial de açúcar, se este mix mudar, os preços tendem a cair outra vez”, avalia.

Para o setor em geral, analisa Duff, do Rabobank, atingir um novo recorde de colheita e moagem exigirá operar com alta eficiência ao longo de uma safra estendida. “Outro desafio geral, especialmente para quem andou apertado até agora, será a manutenção de uma taxa  de  plantio  adequada,  para não arriscar comprometer a produtividade do canavial no futuro”, diz.

Para Paulo leal, da Feplana, os desafios são as novas tecnologias que virão como o etanol de segunda geração e as biorrefinarias, que darão um novo rumo aos negócios.

Mercado em alta
A previsão de preços para o açúcar e etanol é animadora para os  produtores. Segundo Ortolan, os produtores trabalham com um cenário que sinaliza pelo menos 2 a 3 safras de preços melhores. A redução dos estoques mundiais do açúcar e o aumento na demanda de etanol ajudarão na recuperação das usinas e produtores. “temos que trabalhar firme na redução dos custos e cuidar bem das nossas lavouras”, diz.

O Rabobank avalia a atuação dos preços tanto no mercado internacional, como nacional. Conforme Duff, o cenário mundial de açúcar aponta para uma expectativa de preço  de  açúcar  bruto  este  ano em uma faixa entre 12 USc/lp e 15 USc/lp, assumindo que o dólar não mude significativamente de patamar. O preço doméstico do açúcar, que atualmente está com um prêmio em relação ao preço mundial, deve voltar a refletir o preço de paridade de exportação uma vez que a safra comece. “Sobre o etanol, esperamos que a evolução mostre a sua sazonalidade tradicional, com desconto maior em relação à gasolina quando a safra está em pleno vapor, e subindo para o “preço-teto” (ou seja, ao redor de 70% do preço da gasolina na bomba), ou até um pouco acima, na entressafra. Por enquanto, não esperamos nenhuma mudança no preço da gasolina em 2016”, observa.

Para  os  produtores  em  Pernambuco, a preocupação é com o preço dos combustíveis. De acordo com Alexandre lima, a apreensão é justamente com a gasolina, porque os preços do petróleo no mercado internacional  estão  baixos.  Se  o governo baixar o preço no Brasil, provocará uma concorrência com o etanol, o que reduzirá seu consumo e, consequentemente, seu preço e a atual composição do mix das usinas em relação à produção de etanol e açúcar, com efeitos negativos consecutivos para seus preços. “Todavia, apesar dos baixos preços do petróleo, não acreditamos que o governo baixe o preço da gasolina no país por razões atreladas a necessidades de aumentar o caixa da Petrobras  e o custo alto nas ações do pré-sal. Além disso, um fator positivo deriva do valor do dólar. A expectativa da manutenção do dólar nos patamares de R$ 4,00 dará uma segurança nos preços do açúcar e do etanol para exportação e no mercado interno”, avalia

Paulo Leal, da Feplana, considera que o mercado internacional do açúcar é cíclico e, portanto, em pouco tempo voltará a ter novos excedentes. Ou seja, é necessário estar atento aos estoques da commodity. Em relação ao preço do açúcar, as ofertas não são muitas tanto no mercado interno como externo, o que traz uma tendência positiva de preço, já que o consumo mundial tem crescido na ordem de 2% ao ano. “Índia e Tailândia continuarão exportando, mas a China será a grande importadora. Em relação ao etanol, com a queda do ICMS em alguns Estados o consumo será aumentado, o que deverá manter a preços atrativos para os consumidores”, diz

Clima x Safra
O clima para a produção de grãos (soja e milho) não foi tão conivente com boas produtividades como foi com a cana-de-açúcar. Ortolan, da Canaoeste, acredita que embora existam outros fatores que influenciem o rendimento dos canaviais como a idade, o manejo e o plantel varietal, é possível afirmar que o clima foi o grande responsável por uma retomada da produtividade da cana nesta safra. O ano foi bem mais chuvoso. todo o período de formação e crescimento do canavial teve chuvas abundantes que propiciaram maior crescimento e vigor  dos  canaviais. Segundo  ele, a tendência ainda se mantém para esse início de 2016, uma vez que estamos sob a influência do El Niño, que deve provocar chuvas intensas pelo menos até o início da próxima safra. “Em contrapartida, anos chuvosos  prejudicam  os  açúcares  totais recuperáveis (ATR), visto que o acúmulo de água tende a diminuir a concentração de açúcares na planta. Teremos uma recuperação de preços pela produtividade, porém, menos ATR em nossas canas”, observa.

No entanto, em Pernambuco, o cenário é outro. Conforme Alexandre Lima, a região amarga uma queda de produção nesta safra. Enquanto na safra  anterior  (2014/2015)  foram produzidos 15 milhões de toneladas de cana, nesta (2015/2016), que está no final, a previsão é produzir em torno de 11 milhões. Esse resultado equivale a uma queda de 26%.
“Este elevado déficit tem origem em diversos fatores combinados, com destaque à seca oriunda do forte fenômeno El Niño. E também as questões ligadas à falta dos tratos culturais mais adequados nos canaviais, bem como a falta de pagamentos aos fornecedores de cana por algumas usinas no Estado - condição esta que tem desestimulado bastante os agricultores a continuar investindo no setor”, pondera. Já o cenário para próxima safra é bem melhor, avalia Lima. A razão do otimismo é o preço pago pela commodity. “Além disso, com o enfraquecimento do El Niño, já temos o início de ano chuvoso aqui em parte do Nordeste do Brasil”, afirma.


Fonte: Revista KLFF - 12ª edição





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