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08/11/2017

Soja: Avanços na classificação de grãos

Associações de classe auxiliam produtores e empresas orientam sobre serviços para reduzir diferenças na avaliação da commodity

Soja: Avanços na classificação de grãos

A classificação de grãos de soja, ponto sensível entre produtores e trades, ganhou um reforço importante em direção ao melhor entendimento sobre o pagamento e descontos efetuados. A Aprosoja-MT contratou classificadores de grãos por região no Estado para atuar junto às propriedades rurais. O objetivo é reduzir ao mínimo possível a divergência de resultados ao entregar a soja e milho no armazém ou trade. Os profissionais, que acompanham o carregamento e a entrega, são regulamentados e homologados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Além da contratação dos profissionais, a entidade distribuirá cartilhas para orientar os produtores rurais e realizará workshops sobre o tema.

Segundo Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja-MT, um dos pontos principais de discórdia até o momento são as diferentes interpretações sobre a qualidade dos grãos (se estão ardidos ou avariados)avaliados pelos classificadores das trades quando os produtores entregam a soja. “São interpretações subjetivas, que trazem dúvidas e questionamentos. Diferente, por exemplo, do teor de proteína, que não permite distorções porque é definido por máquinas calibradas pelo INMETRO. Não há dúvidas”, afirma. “Estamos tentando fazer uma modificação no processo de classificação brasileira de grãos, especificamente em soja. Levamos algumas propostas de alteração ao MAPA junto à câmara setorial para que realmente o produtor possa ser remunerado por essa soja com a qualidade visual inferior”, diz.

Outro problema, aponta Endrigo Dalcin, é o desconto da umidade sobre a impureza. “Não concordamos com essa dedução porque os limites de tolerância são 14% para umidade, 8% para grãos avariados e 1% de impureza”, diz. Para isso, a Aprosoja-MT atua junto ao MAPA em relação à Instrução Normativa (IN)número 11, que rege os processos e procedimentos da classificação de grãos.

Segundo Pedro Matos, presidente do comitê técnico da ANE C(Associação Nacional dos Exportadores de Cereais), a classificação impacta toda a cadeia produtiva. “O papel das tradings é cumprir todas as regras para exportação. Temos que atender a regulamentação internacional e enquadrar a soja nesse padrão exigido. Nós somos obrigados, por força de contrato, a entregar a qualidade determinada. Não há e nunca houve má fé por parte das tradings”, afirma.

O Brasil tem a China como principal cliente para a exportação da soja, explica Matos, e somente ela representa entre 70 e 80% do volume vendido. “É um mercado mais exigente e que precisamos atender com todo o rigor necessário. Se entregarmos produtos fora dos critérios e das especificações, colocamos em risco essa relação comercial”, explica Matos. Portanto, afirma ele, toda a cadeia deve ficar atenta para os critérios estabelecidos pela IN 11 e IN 15. “O problema mais recente que tivemos com a qualidade da soja foi a ocorrência de sementes da planta daninha Fedegoso (Senna occidentalis) em cargas de soja. Neste caso é preciso muita atenção para nãosair da lavoura com essas sementes tóxicas”, observa.

Em relação à subjetividade da classificação, Matos afirma que a ANEC distribui cartilhas fotográficas, promove encontros com associações de produtores, sindicatos rurais, outras entidades de classe e com o MAPA para que o processo de classificação fique o menos subjetivo possível. “É um processo para ser naturalmente técnico, por isso, atuamos com profissionais habilitados para sua execução”. O diretor da ANEC avalia que as cartilhas fotográficas podem ser uma fonte de consulta para que produtores tenham maior clareza sobre a classificação.

Mais um ponto de discórdia, afirma Endrigo Dalcin, é o não pagamento dos grãos ardidos ou avariados, que não interfere no teor de proteína. “Essa soja fermentada está sendo classificada toda como ardida e descontada do produtor. Sem nenhum preço, as tradings não têm pago nada por essa soja, mas sabemos que mantém ainda um teor de óleo e proteína. Não perde sua qualidade. Então,o produtor precisa receber por esse grão. Ser descontado tudo bem, mas não achamos justo o não pagamento”, afirma.

O diretor técnico da ANEC afirma que as tradings enquadram todos os grãos recebidos dentro das especificações para exportação. “As empresas não estão levando vantagens.Quando falamos em blend é porque fazemos a seleção e enquadramos os grãos que não estão dentro das regras. Nós temos um custo alto para fazer essa adequação, além do gasto com o trânsito para embarcara soja em condições de navegar por40 dias e chegar dentro das condições exigidas”, explica Matos. Segundo ele, a classificação de grãos fermentados tem sido objeto de questionamento, mas se “tem havido alguma dúvida, então investimos nas cartilhas e encontros para buscar um acordo no processo, em especial em relação aos grãos fermentados”, acrescenta.

Discórdias à parte, os produtores podem encontrar alternativas para minimizar o impacto da classificação e ter maior controle sobre a avaliação da commodity. “A nossa orientação é investir na armazenagem do grão. Não é possível, muitas vezes, melhorara qualidade física dos grãos, mas sim separar a soja boa e misturar dentro do nível para que o desconto seja o menor possível. Quem faz isso sabe as vantagens, consegue se diferenciar e ainda tem o menor impacto na rentabilidade”, afirma Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja-MT.

Para Matos, diretor técnico da ANEC, o produtor precisa ficar atento e saber que as tradings estão voltadas para o cumprimento de contratos baseados nas instruções normativas do MAPA e também nos de exportação. “Se ele entrega produto com 20% de umidade, não há dúvida que sofrerá o desconto na base de 14%”, observa. Segundo ele, o sojicultor deve ter cuidado no ato da colheita e entregar a soja atendendo ao máximo possível de especificações. “Por isso, é imprescindível que ele conheça a técnica da classificação, saiba todas as regras e fique atento para não entregar os grãos com sementes tóxicas, por exemplo. Acredito que a continuidade de encontros com produtores, a emissão de cartilhas e o apoio de classificadores contratados pela Aprosoja possam trazer mais clareza para o processo”, afirma.

CLASSIFICAÇÃO

Ao receber a classificação, o produtor deve conhecer os critérios estabelecidos pelas instruções normativas para os produtos que estão comercializando, bem como ter dentro de sua fazenda profissional capacitado para efetuar a classificação. De preferência, contar com classificadores oficiais, credenciados pelo MAPA, conforme explica Rubens Luciano, Business Manager de Agricultura da Intertek.

“Caso os produtores não vejam como parte integrante de seu processo a área de armazenagem e classificação dentro das fazendas, ou mesmo não reconheçam a necessidade dessa área na hora de entregar o produto para as empresas, podem correr riscos significativos. É nessa fase que o produto pode ter suas características alteradas, por uma armazenagem malfeita ou uma classificação errônea efetuada por um profissional desqualificado ou mal treinado”, afirma Rubens Luciano.

Para ele, os produtores devem ter cuidado com a contratação de fornecedores com competência em armazenagem e entrega do produto, assim como tem no manejo da lavoura. “A proteção para o produtor é ele ter segurança na empresa ou profissional que está contratando para classificação vegetal, bem como confiança em todo o processo de logística que está utilizando, ter à mão dispositivos para acompanhar a classificação de modo que se sinta seguro e ter sempre uma empresa para fazer dupla checagem na classificação do produto que está sendo embarcado em sua fazenda”, observa Rubens.

Se houver questionamento ou diferenças na entrega do produto, a opção é a contratação de empresas classificadoras para verificar se a soja foi considerada e se está dentro das normas vigentes. De acordo com Rita Prado Fróes, diretora comercial da Genesis Group, as empresas de classificação devem seguir corretamente as normas de amostragem e classificação mantendo isenção entre as partes. O trabalho consiste em inspecionaras condições do produto, amostrar e classificar segundo as regras estabelecidas, reportando o resultado encontrado.

“As empresas sérias de classificação seguem as normas estabelecidas pelo MAPA, utilizam pessoal treinado e equipamentos de amostragem, medição de umidade, peneiras e balanças devidamente calibradas, além de manterem dia o credenciamento. Como terceira parte, mantêm a isenção sobre os resultados de classificação, reportando os índices efetivamente encontrados”, afirma Rita. Ela ressalta ainda que pressões sobre alteração de resultados por quaisquer das partes são práticas combatidas e quando ocorrem devem ser levadas ao conhecimento da direção da empresa de classificação. “As empresas não são coniventes com fraudes ou quaisquer práticas ilícitas”, assegura. Para Rubens Luciano, da Intertek, a importância da classificação vegetal vai muito além da composição entre produtores/empresas/governo ou entrega a trades ou nos pontos de transbordo. “Existe uma responsabilidade intrínseca das empresas de classificação vegetal que atuam nacional e internacionalmente, que se responsabilizam por esta classificação desde o momento da saída do produto da fazenda até o País de destino”, avalia.

Segundo ele, essas organizações atuam como agentes fiscalizadores da qualidade e sanidade vegetal por meio da normativa IN 15, respondendo diretamente ao MAPA, buscando sempre trazer ao Brasil um padrão de qualidade para exportação de grãos. “As empresas de classificação vegetal (inspeção/supervisão) atualmente agregam valor à cadeia de grãos, apoiando produtores e o próprio Brasil a serem referências globais no segmento”, afirma.





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