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17/03/2017

Semente, pontapé inicial para uma boa produtividade

Especialista acredita que a agricultura é como um sistema integrado em que a inovação e a tecnologia estão relacionadas à sustentabilidade da cadeia produtiva

Semente, pontapé inicial para uma boa produtividade

Filho de produtor rural, o engenheiro agrônomo e coordenador do programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Sementes da Universidade Federal de Pelotas, Paulo Dejalma Zimmer, mostra como é possível relacionar qualidade da semente com produtividade.

Ele defende que a qualidade nem sempre está ligada à certificação. Segundo Zimmer, o sucesso está diretamente relacionado com o bom estabelecimento da lavoura. Para isso, três pontos são fundamentais: utilizar a melhor genética possível, acumular plantas produtivas por área e obter a melhor resposta de cada planta.

“A utilização de sementes de alta qualidade é altamente estratégica para o produtor por interferir na construção da lavoura e, por conseguinte, na produtividade”, res-salta, nesta entrevista exclusiva.


Quais os riscos e os problemas do uso de sementes não certificadas?

"Inicialmente precisamos entender que certificação é processo, o que significa que a semente cumpriu normas específicas na produção. Normas que dão conta de entregar o produto dentro de um padrão mínimo de qualidade aferido por análises laboratoriais. Aí precisamos demarcar outro ponto muito importante. A qualidade de um lote de sementes é modulada pela tecnologia de produção, pelo ambiente de produção, beneficiamento e armazenamento, pelo conhecimento aplicado e o mais importante de tudo, pelo engajamento das equipes. Para ter sucesso, o produtor rural necessariamente precisa estabelecer bem sua lavoura. Para isso, três pontos são fundamentais, o que eu chamo de checklist da produtividade: utilizar a melhor genética possível – e estamos muito bem-servidos com relação a isso; acumular plantas produtivas por área – sempre precisamos olhar para o vigor dos lotes; e obter a melhor resposta de cada planta – com a época de semeadura, ambiente, distribuição das plantas, população, programa nutricional e programa de proteção. Não há insumo capaz de cumprir todos os pontos deste checklist quanto a semente de altíssima qualidade. A utilização dessas sementes é altamente estratégica para o produtor rural por interferir na construção da lavoura e, por conseguinte, na produtividade.
Pesquisas realizadas em universidades e validadas por produtores rurais e produtores de sementes dão conta de que o vigor da semente aumenta a produtividade em lavouras de diversas culturas."

Como podemos conceituar uma semente de boa qualidade?

"Uma semente de alta qualidade auxilia no funcionamento do equipamento de semeadura (plantadeira) e se converterá no menor tempo possível em uma planta vigorosa, mesmo sob algum estresse ambiental.
A qualidade da semente é dividida em quatro atributos: físico, fisiológico, genético e sanitário.

todos interferem no tipo de lavoura que será construída. Entende-se por lavoura  bem-construída aquela que  é formada pelo número certo de plantas por  hectare, posicionados de forma correta  em relação aos  vizinhos (distribuição)  em cada 10 centímetros de  linha de  semeadura; aquela que  não apresente plantas dominadas, doentes e, também, que não apresente outras variedades. Portanto, é por meio da qualidade da semente que será possível compor um cultivo com plantas superiores fisiologicamente (vigor da semente), no local certo (qualidade física), do mesmo ciclo e estatura (qualidade genética) e sem riscos sanitários para o cultivo e para a propriedade (qualidade sanitária). "

Há uma estimativa em relação ao volume de sementes certificadas e também as não certificadas no mercado? Quanto?

"Sim. O mercado potencial de sementes de soja no Brasil girou em torno de 42 milhões de sacas de 40 quilos na última safra. Desse total, a taxa de Uso de Sementes comerciais (TUS) foi de aproximadamente 60%, ou seja, aproximadamente 25 milhões de sacas de 40 quilos formaram o mercado formal de sementes  certificadas.  Este  mercado financia  as  empresas  de  melhoramento genético no Brasil - germoplasma. Por outro lado, aproximadamente 13 milhões de hectares de soja foram estabelecidos com sementes não comerciais - com sérias dúvidas em relação à germinação e ao vigor, densidade de semeadura, sanidade e genética. Este mercado não financia as empresas de melhoramento genético, portanto, não contribuem para o desenvolvimento de novas variedades."

Esse número aumentou ou diminuiu nos últimos 10 anos? Quais as perspectivas?

"Nos anos recentes, há uma leve tendência de diminuição do uso de sementes certificadas. Mas para compreendermos melhor este cenário, teríamos que analisar a TUS por estado. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a TUS foi muito baixa em 2004 e 2005, subiu até aproximadamente 40% e voltou a cair novamente nos últimos 2 anos. É preciso dizer que a TUS é altamente influenciada pela Lei de Sementes e seus anexos e também pela lei de Proteção de Cultivares. O lançamento de eventos biotecnológicos e a morosidade do Poder Público em legislar também influenciaram  negativamente em determinados anos."

E a semente salva? É ou não um caminho para os produtores? Por quê?

"Acredito que não é uma saída segura e sustentável. As margens estão cada vez mais apertadas e o produtor não pode se dar ao luxo de arriscar nenhuma safra.
Além disso, há sérios problemas com mão de obra no campo, as máquinas e equipamentos estão cada vez maiores e há uma séria tendência à terceirização no campo. neste sentido, me parece bastante estratégico que o produtor terceirize ao máximo o que for possível. Entendo que a produção desse insumo, tão nobre e estratégico, devesse ser delegada aos sementeiros mais competentes e engajados. Isso permitiria que os escassos recursos humanos ainda disponíveis nas propriedades pudessem focar em processos que somente o produtor rural poderá realizar, como a revisão, regulagem e operação precisa dos equipamentos de semeadura e pulverizações."

Como podemos conceituar a semente pirata?

"Semente pirata é um material de multiplicação sem origem conhecida, desprovido de garantias e à margem do processo de  certificação.  Normalmente entra no mercado através de um produtor que salvou seu grão e decidiu aumentar suas receitas vendendo para outro produtor ou para um atravessador. Mas também é muito comum que um atravessador, vislumbrando a oportunidade de vender algum material, busque deliberadamente a compra de grãos para vendê-los como semente."

E como está o mercado de sementeiros? Como essas empresas podem garantir a qualidade do que é vendido?

"O mercado sementeiro se modernizou muito nos últimos anos. Houve um investimento expressivo em tecnologia de produção e beneficiamento de sementes, além de um extraordinário investimento em conhecimento e controle robusto de qualidade. Muitas equipes foram e continuam sendo treinadas.
Entretanto, não  houve atenção igual à geração de demanda. Neste sentido, cabe ressaltar que o mercado é formado por um conjunto muito grande de sementeiros, nem todos com a mesma visão de qualidade. Mas fico  tranquilo  em  afirmar  que há uma tendência muito forte do mercado ser dominado por sementeiros mais preocupados com a qualidade da semente.

Muitas sementeiras já comercializam suas sementes com padrões muito mais elevados de germinação e vigor da semente, acima daqueles estabelecidos pelo MAPA. Quem ganha com isso é o produtor rural."

Como o produtor deve escolher a melhor semente para a sua lavoura? Quais critérios ele deve levar em consideração?

"Primeiramente ele deverá fazer essa escolha dentre as cultivares posicionadas para a sua condição de cultivo - ambiente, época e tecnologia. A partir do grupo de cultivares eleitos, ele deve optar pela qualidade da semente. Costumo dizer que a melhor cultivar é a semente de altíssima qualidade. A lógica que deve nortear a escolha é que toda semente colocada no solo torne-se uma planta de alto desempenho, bem-distribuída na linha de semeadura, capaz de extrair mais do ambiente, do programa nutricional e do programa de proteção. Isso depende de todos os atributos da qualidade da semente apresentados anteriormente - genético, sanitário, físico e fisiológico, mas também do processo de semeadura que envolve condições do solo, velocidade, regulagem, operação etc."


Quais práticas agrícolas são importantes adotar para o melhor rendimento para o produtor?

"Escolha da genética, época de semeadura, distribuição das plantas, desempenho individual de cada planta e desempenho da população. Além disso, o produtor deverá dispor de um programa nutricional e de um programa de proteção que contemplem boas práticas no manejo de solos e produtos fitossanitários."


Por que a semente é um dos custos mais altos para o produtor?

"Por que é tão caro?  Não entendo que a semente “custe tão caro”. De fato, ela vale muito. É necessário dissecar o custo da semente para que possamos compreender melhor a formação do seu valor. O preço da semente é formado pelo custo da matéria-prima - 10 a 12% superior ao grão, da tecnologia de beneficiamento, da tecnologia de armazenamento e logística, dos royalties que pagam as variedades atuais e financiam as variedades do futuro, da taxa tecnológica, no caso de eventos biotecnológicos e do tratamento de sementes. Além disso, a semente carrega um conjunto muito grande de genes capazes de fazer a planta funcionar em distintos ambientes e manejos, carrega ainda uma  capacidade  fisiológica  e física capazes de proporcionar grandes desempenhos. Isso vale muito, é um grande seguro."

 

Dentro da composição da semente, quanto custa o trait e quanto custa o germoplasma?

"Neste caso, para que haja uma melhor compreensão destes valores é importante que a análise seja feita em função da tecnologia disponível em cada cultivar. Vamos considerar uma variedade Intacta RR2PRO que será cultivada no norte do estado do Rio Grande do Sul e pago com vencimento em 30/05/16.

Serão utilizadas 12 sementes por metro de linha com espaçamento de 50 centímetros entre linhas e PMS de 155 gramas. Ou seja, serão utilizados 37,2 quilos de sementes por hectare.  Neste caso o valor total desembolsado será de R$ 260,00/hectares (R$ 7,00/kg x 37,2).  Neste cenário, o valor da taxa tecnológica recolhida será de R$ 124,79. Para o germoplasma (royalties) serão destinados aproximadamente R$ 25,00, restando aproximadamente R$ 118,47 para o sementeiro. Deste valor, serão descontados os custos de logística, comercialização, matéria-prima, depreciação, tratamento e impostos. Devemos fazer algumas considerações muito importantes à respeito destes números: destinamos muito pouco do valor do insumo sementes ao melhoramento genético voltado ao desenvolvimento de novas variedades - apenas R$ 25,00 / hectare cultivado, conforme o exemplo anterior e apenas nas áreas estabelecidas com sementes comerciais, ou seja, 60%do mercado brasileiro e apenas 30% do mercado do Rio Grande do Sul.  Há uma crença de que o valor pago pelo agricultor para a semente fica todo com o sementeiro. Os números apresentados aqui ilustram muito bem que o sementeiro apenas repassa o valor ao produtor."

Em tempos de aumento de custo de produção, como o produtor pode reduzir o gasto com a semente?

"Utilizando apenas o volume de sementes necessário para implantar a população desejada. Com isso economizará com semente, com tratamento e diminuirá os riscos. Além disso, considerando o  efeito do vigor na produtividade, suas chances de aumentar a produtividade são reais, impactando muito na taxa de retorno sobre o investimento realizado."





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