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23/04/2018

Pecuária abraça jovens empreendedores

Com menos de 30 anos, eles já se destacam no setor ao apostar no mercado gourmet de carnes e no aprimoramento genético de aves

Pecuária abraça jovens empreendedores

Jovens talentos empreendedores encontram na pecuária uma forma inovadora e ousada de ganhar seu espaço no agronegócio. Cortes nobres de cordeiros, carnes especiais e a aposta em aprimoramento genético de galos Índio Gigante são alguns exemplos de quem enxergou um nicho de mercado para imprimir a sua marca. À margem das crises no setor, esses novos empresários conquistaram rentabilidade ao encarar o desafio de atuar em segmentos nada tradicionais.

Há cerca de três anos, os irmãos Haroldo e Diogo Poliselli, que desde crianças acompanhavam o pai na atividade de criação de equinos e gado bovino, descobriram a raça brasileira do galo Índio Gigante. A ave, que nasceu do cruzamento das raças Shamo e Malaio com galinha caipira (sem raça definida), tem a cabeça de porte médio a grande, pele amarela e asas encaixadas, além de peito vistoso. Suas coxas são musculosas para sustentar o corpo e os mais valorizados são os galos com crista ervilha e barbela única (prega de pele pendente sob o pescoço).

 “Investimos R$ 60 mil, contabilizando todos os custos fixos e variáveis, e em três meses conseguimos um lucro de R$ 20 mil com o negócio. A criação com boa genética é muito valorizada e é um sistema que pode ser associado a outras produções”, diz Haroldo Poliselli, de 23 anos. O irmão Diogo, 21 anos, é seu sócio no criatório Diamante Índio Gigante, em Jaguariúna/SP.

Ele explica que, no início, a ideia era a criação para a produção de carne de frango caipira, porque a raça Índio Gigante apresenta uma carne mais amarela, melhor sabor e textura. No entanto, ao pesquisar mais sobre a raça, descobriu que poderia ser uma oportunidade de investir no mercado de elite de aves com características genéticas que evoluem de uma geração para outra. Decisão tomada, os irmãos investiram na aquisição de 10 matrizes e dois reprodutores, que tiveram o rastreamento genético da linhagem com provas de ganho de peso e curva de crescimento.

Do ovo à galinha, todos os processos são rastreados e a paternidade dos animais é comprovada por DNA. O projeto envolve parceria com a USP/Pirassununga, responsável pelo levantamento das DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) de cada animal - estatísticas que ajudam a estimar quanto os filhos poderão ser melhores que seus pais.  O trabalho culmina em aves expoentes em larga escala, genética que os irmãos fazem questão em democratizar com outros criadores.  “Por ano, três ou talvez quatro criadores em todo o Brasil conseguem tirar galos com mais de 117 centímetros de altura. Nos últimos dois anos, conseguimos mais 30”, afirma Haroldo Poliselli.

O resultado de todo esse investimento é que, a cada ano, a geração costuma ser melhor. Em 2016, além do recordista Canário, a propriedade dos irmãos Poliselli - Diamante Índio Gigante - revelou outros gigantes como Bordado (119 centímetros), Pente Fino (117 centímetros), a franga Viola (106 centímetros recordista de 2016) e o Monster da Diamante (118 centímetros), pai do Voodoo. “Nossa preocupação com o tamanho deve-se ao fato de que, cada centímetro atingido pelo animal, acima de um metro, chega a valorizá-lo em mais de R$ 1.000,00”, diz Poliselli. 

Um criador pernambucano que entrou para o negócio com a raça ao adquirir um casal ofertado no primeiro arremate da Diamante Índio Gigante, realizado no ano passado, conseguiu tirar um galo de 120 centímetros, o maior em todo o Nordeste. A propriedade realizou em setembro deste ano o segundo leilão com a oferta de 30 irmãos de Voodoo e Mamba (netos de Pajé da Diamante), com a presença de criadores de todo o Brasil. O evento movimentou R$ 334.880,00, com galo sendo vendido a R$ 63.000,00. O Voodoo da Diamante chegou a 126 centímetros, transformando-se em recordista absoluto da raça. A façanha foi legitimada pela Associação Brasileira dos Criadores do Índio Gigante (ABRACIG), entidade que assiste criadores da espécie no País.

Para Poliselli, investir em um criatório de aves é uma verdadeira escola para quem quer atuar com criação de animais. Ele conta que, caso adoeça um cavalo ou bovino, o animal consegue esperar dois - até três - dias para ser medicado e é possível salvá-lo. Já com a ave é diferente. “Ao aparecer o primeiro sintoma de uma doença, é preciso manejar rapidamente. Se não medicar em até seis horas, corre-se o risco da ave morrer. É preciso ser muito regrado, aprender o manejo, comandar funcionários. É uma escola completa para todos os negócios, principalmente no ramo de criação”, comenta.  

Carne gourmet

O jovem empreendedor rural Daniel Steinbruch, de 24 anos, aposta no gado japonês Wagyu para desenvolver seu próprio negócio. É a mesma raça conhecida no mundo todo que toma cerveja, tem massagem, come arroz e ouve música clássica no Japão. Mas, no Brasil, o manejo é diferente. Em vez de cerveja, arroz e outros luxos, a alimentação é capim e ração da mais alta qualidade. Aliás, o grande segredo é o manejo correto para obter o maior grau de marmorização da carne (gordura formada entre as fibras).

Um boi puro da raça para corte pode ser adquirido por um valor acima de R$ 7 mil. Já para o consumidor final, alguns cortes como o contrafilé podem chegar a R$ 300 o quilo nos melhores supermercados e casas especializadas. Diferente de outros bovinos, 60% da gordura corporal no Wagyu é composta por ácidos graxos monoinsaturados, o bom colesterol (HDL). Além disso, afirma o jovem produtor, a carne é rica em ômega 3 e 6.

Steinbruch explica que, para obter o melhor marmoreio da carne, são 50% genética e 50%  manejo. A célula adiposa do animal é formada no sexto mês da gestação, quando a receptora deve também estar com a dieta adequada para formação dessas células. Depois do desmame, com oito meses, o bezerro vai a pasto onde será formada a fibra e onde ficará até os 18 meses. Após esse período vai para confinamento com a alimentação adequada, onde serão preenchidas as células com a gordura.

“Para isso, damos todo o suporte e manual de manejo para o comprador de uma de nossas novilhas. Em raças com pouca oferta de animais, qualquer novilha é considerada doadora e todo garrote é comercializado como touro. Não é isso que buscamos para o Wagyu. Queremos o melhor para nosso cliente”, observa o jovem produtor. Com isso, o pecuarista recebe a bonificação pelo marmoreio. Aos que conseguirem índice inferior a 5 é pago um valor 1,6 vezes mais pela arroba e, superior a 5, 2,2 vezes mais pela arroba.

Se o pecuarista seguir todo o manejo indicado, Steinbruch garante a recompra do animal gerado a partir de novilha adquirida em leilões da fazenda em Americana, interior de São Paulo. Ele realiza anualmente leilões da raça para que outros pecuaristas tenham acesso a novilhas de boa linhagem genética. Em setembro, disponibilizou para o mercado 25 novilhas que fazem parte das 15% melhores que ficam no plantel de seleção e seguem com assistência técnica total no Programa Kobe Premium, para que os pecuaristas parceiros se adaptem às diretrizes de fornecimento e ao menor custo de produção possível.

“A demanda por carne Wagyu é muito superior à oferta. Isso porque atuamos em um mercado que busca qualidade e procedência da carne e muito produtor insiste não enxergar. Em restaurantes da capital paulista um prato do cardápio Wagyu pode custar até R$ 200”, observa Steinbruch.

O rebanho total dele é de 500 cabeças, das quais reserva cerca de 10% para a realização de leilões. No Brasil, a estimativa é de 3,5 mil animais, segundo a Associação Brasileira de Criadores das Raças Wagyu, que faz a certificação da pureza racial e o acompanhamento desde o nascimento até entrega para o consumidor. Ao todo são apenas 25 criadores na Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e São Paulo.

 Com um produto cobiçado no Brasil, base genética formada, uso de tecnologia de ponta, parceiros fiéis ao programa da sua marca Kobe Premium, faltava apenas um entreposto de desossa. Para isso, o jovem pecuarista inaugura no primeiro semestre de 2018 um frigorífico – instalado próximo à fazenda em Americana – com capacidade para 400 bovinos/mês. “O abate do Wagyu é quase artesanal e há uma demanda reprimida por frigoríficos que atendam com a qualidade exigida de desossa e o fracionamento correto da carcaça. Os cortes de Wagyu têm algumas diferenças daqueles dos açougues”, diz Steinbruch.

Além de bovinos, o entreposto também atenderá pequenos animais como suínos, ovinos e caprinos e, neste caso, a capacidade passa para 1,6 mil animais por mês. O frigorífico terá um custo maior, uma vez que atenderá a todos os requisitos de higiene, embalagem skin, controle de temperatura com câmaras frias e ficará pronto para exportação. Com a cria, recria, engorda dos animais e o entreposto, ele será um dos poucos pecuaristas do País a verticalizar a cadeia produtiva da carne bovina. Conceito sonhado por uma boa gama de produtores, o termo significa produzir pecuária do “pasto ao prato”.

 Cortes nobres

Com uma proposta inovadora e muito ousada, a Quirós Gourmet traz para o mercado gourmet cortes nobres e diferenciados de cordeiros. “Nós quebramos paradigmas e buscamos criar a cultura de consumo da carne. Com isso, enfrentamos alguns dos principais desafios que são a falta de informação e organização das cadeias produtivas”, diz Augusto Quirós, de 28 anos, que ao lado da irmã e sócia, Priscila, empreenderam sob a missão de ser uma empresa de consumo consciente e focada na produção sustentável de cordeiros de corte, sob o conceito farm-to-table, da fazenda à mesa.

“A empresa tem dedicado grande parte do seu tempo em conhecer melhor os seus clientes, criando um elo com eles e aprofundando ainda mais o que chamamos de experiência única com os cortes. Essa experiência possibilita a transformação de uma commodity em um momento de intensa satisfação e prazer”, diz Augusto que, ao lado de Priscila, investiu em uma maior proximidade com o cliente final, resultando um crescimento de 20% nas vendas emplacado com o lançamento oficial do e-commerce da marca.

A Quirós Gourmet foi pioneira na venda de carnes on-line, sendo a primeira do País focada em cordeiro. “Muitas empresas acreditam que a venda de carnes on-line não é interessante para os clientes, com base na premissa de que o consumidor precisa ver a carne antes de comprar. Isso é válido para commodity, mas não para um produto feito à mão e que o cliente consegue acompanhar todo o processo de produção e até mesmo receitas em vídeos fornecidos pela empresa no seu Instagram e Facebook”, comenta Augusto. 

A inspiração da empresa surgiu da origem da família espanhola, que há cerca de 100 anos cria cordeiros em Oviedo, capital do Principado de Asturias. A tradição familiar, somada às oportunidades de negócio no Brasil, levaram Priscila Quirós a iniciar em 2009 a criação em terras brasileiras. Nessa mesma época, o preço da carne de cordeiro disparou no Brasil, em função de uma parceria do Uruguai com outros países, o que motivou investimentos neste setor. 

Após diversos estudos de mercado e viabilidade, Priscila percebeu a atratividade nesse segmento e, meses depois, começou a criação de ovinos na fazenda. Para tal projeto, contrataram especialistas de cada área para que, em conjunto, pudessem ter um conceito de criação único, moderno, com respeito aos animais e meio ambiente, seguindo a identidade, raiz e princípios da centenária criação da família em Quirós.

Os animais são criados na fazenda Cabanha Oviedo, em Amparo, no interior de São Paulo, onde foi mantida a criação artesanal, incorporando novas tecnologias, respeitando animais, meio ambiente e, por consequência, o consumidor. “Desenvolvemos galpões térmicos de última geração para a maternidade e centro de manejo com o objetivo de gerar menos estresse aos animais. Também aplicamos a tecnologia na fábrica de ração e no laboratório para otimizar a ração e, consequentemente, o ganho de peso”, explica Augusto Quirós.

 Além disso, são mais de 15 nascentes que abastecem os cochos do rebanho composto por mais de 1,5 mil animais que bebem água mineral à vontade. Toda a alimentação dos animais é produzida na própria fazenda, garantindo a procedência e o cuidado de cada detalhe. Em 2018, a empresa iniciará testes de controle de manejo das ovelhas de pasto com drones. A ideia é dar mais eficiência ao trabalho, mas também conseguir gerenciar melhor o dia a dia do rebanho. “A raça escolhida - Poll Dorset -, a alimentação, a idade que esse animal foi abatido e como esse animal foi criado e tratado influenciam 100% no sabor, gordura, maciez, suculência da carne e nos níveis nutricionais”, afirma Quirós.

Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, Augusto Quirós especializou-se na área de inovação no Babson College, nos Estados Unidos. Após fazer carreira em grandes empresas multinacionais, levou essa bagagem em 2015 para a empresa com o objetivo de agregar valor ao empreendimento. O resultado é que, em dois anos, a Quirós Gourmet, com foco na criação e comercialização de carnes de cordeiros premium e saudáveis, passou a atender mais de 48 cidades, em 13 estados. Com a ampliação do portfólio de produtos e serviços, aliada à expansão em novas frentes de atuação, passaram de 23 clientes para cerca de 480.

Com 63% de suas vendas direcionadas para restaurantes, a Quirós Gourmet pretende reduzir esse número para, consequentemente, aumentar a participação do cliente pessoa física e também de casas especializadas em carnes, as famosas boutiques. “O objetivo é estar mais próximo do cliente final. A tendência é que as pessoas criem cada vez mais novas experiências gastronômicas em suas casas, compartilhando momentos com suas famílias e amigos. Nesse movimento também surgem os eventos de experiências específicos. Cada dia com novos formatos, muito originais”, explica Quirós.

Para quem quer investir nesse mercado de criação de cordeiros, o jovem empreendedor acredita que primeiro é preciso conhecer toda a cadeia produtiva antes de se arriscar na atividade. Segundo ele, um dos principais motivos para investir na ovinocultura é que a demanda pela carne de cordeiro cresce, em média, 20% ao ano. Além disso, hoje se consome apenas 700g por habitante/ano no Brasil, enquanto que a carne bovina tem uma média de 35 kgs por habitante/ano. “Existe, portanto, um potencial enorme a ser explorado. Quando comparamos o consumo da carne de cordeiro na Nova Zelândia com o Brasil, podemos ver que por lá são consumidos 45 kgs habitante/ano”, avalia. 

 





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