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09/06/2016

Os desafios para lidar com mudanças climáticas

Compromisso assumido pelo brasil na COP 21 prevê ampliação do Sistema de integração Lavoura-pecuária-floresta e recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas

Os desafios para lidar com mudanças climáticas

Um dos setores diretamente impactados pelos compromissos assumidos na 21ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 21) é o agropecuário. No fim de 2015, em Paris, foi aprovado o primeiro acordo global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e lidar com as mudanças climáticas. Entre outras metas, o governo brasileiro se comprometeu a recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, incrementar cinco milhões de hectares de sistemas de integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF) e restaurar 12 milhões de hectares de florestas. Tudo isso até 2030.

De acordo com Ricardo Ribeiro Rodrigues, coordenador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (LERF), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP), os compromissos assumidos pelo COP 21 mostram que cada vez ficam mais claras a necessidade e a importância de integrar as questões ambientais e agrícolas na propriedade rural. O cumprimento da legislação ambiental brasileira e as cobranças internacionais devem resultar numa agricultura praticada com responsabilidade social, ambiental e econômica, o que virá expresso em certificações, como já está ocorrendo.

“Defendemos que o diferencial da agricultura brasileira deveria ser num futuro próximo, se tivermos bons dirigentes agrícolas, uma agricultura muito tecnológica e produtiva, manejo integrado de pragas e doenças, praticada com responsabilidade social, num ambiente de elevada diversidade natural”, afirma.

Marina Piatto, coordenadora da Iniciativa de Clima e Agropecuária do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), avalia que os três compromissos assumidos no COP 21 vão ao encontro do Código Florestal e de uma agricultura mais eficiente, pois prevê as metas de integração lavoura, pecuária e floresta, recuperação de pastagens e florestas. “A ideia é que, em abril, as propostas levadas para Paris sejam transformadas em lei. Tudo indica que, ao virar lei, as metas poderão entrar na revisão do plano nacional de mudanças climáticas”, avalia.

Para o setor agropecuário, Marina avalia que pode haver estímulo para o aumento de linhas de crédito destinadas à implementação de projetos dentro do programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), com taxas de juros menores, maior acesso ao produtor para essa linha de crédito, mais apoio para a capacitação e extensão rural. “A expectativa é que tudo aconteça dentro desses processos para fortalecer o que já existe e ampliar o número de produtores”, acrescenta.

Em relação ao sistema de integração lavoura, pecuária e floresta, uma das metas acordadas no COP 21, Marina avalia que vários experimentos apontam para um cenário de ganha-ganha. Ou seja, aumento da produtividade tanto da atividade agrícola quanto de carne e ainda a redução de emissão de gases de efeito estufa.

“Há casos de quase zerar as emissões dentro do processo produtivo da carne”, afirma. Para ela, é um modelo que deve ser expandido e que atende vários aspectos do ponto de vista da sustentabilidade do negócio. “E é um sistema que pode ser adotado em qualquer tamanho de propriedade e em pequena ou grande escala de produção”, acrescenta.  

Já para Ricardo Rodrigues, da ESALQ/USP, o sistema de integração lavoura, pecuária e floresta não é o único caminho para cumprimento dos compromissos ambientais. “Isso porque na maioria das vezes essa proposta trata de florestas econômicas, de espécies florestais em monocultura, a maioria exótica, como eucalipto. A propriedade pode planejar o espaço para ter as três coisas, mas não precisa ser no mesmo espaço”, avalia.

O pesquisador Roberto Guimarães Júnior, da Embrapa Cerrados, avalia, juntamente com outros pesquisadores, desde 2013, as emissões de gases de efeito estufa em sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta.

Nesse período, um resultado significativo foi a proporção entre o metano emitido pelos bovinos por ano e o carbono estocado no solo e no tronco das árvores.

“Nos sistemas onde existe a floresta, o carbono acumulado é muitas vezes maior que o emitido no processo de produção de carne a campo”, afirma. Ele acrescenta que uma das principais vantagens do sistema de integração lavoura, pecuária e floresta é a sustentabilidade econômica, social e ambiental. “Acredito que o futuro da produção agrícola no brasil passa por um sistema integrado e sustentável capaz de produzir mais na mesma área sem prejudicar o meio ambiente”, diz.

Segundo Guimarães, os sistemas de integração vêm sendo adotados em graus diversos nos biomas brasileiros, em uma área estimada em mais de dois milhões de hectares. Outra vantagem defendida pelo pesquisador é o aumento da produtividade agrícola obtida com o sistema. “Além de ganhos de produtividade de soja quando sucede pastagens de maior produtividade e adubadas”, afirma.

Os especialistas recomendam que, apesar das vantagens apontadas pelo sistema de integração, o produtor  – tanto agricultor como pecuarista – deve sempre procurar assistência técnica para o acompanhamento do projeto. “O primeiro passo é procurar ajuda para auxiliar em todo o projeto, desde a concepção até a implementação”, afirma Marina, da Imaflora.

Guimarães complementa ainda que muitos agricultores e pecuaristas fazem parcerias e dividem os lucros principalmente na entressafra. “É um bom negócio para ambos e, quando feito com planejamento e assistência técnica, a chance de dar muito certo é grande”, diz.

Em cenário de alta de custos, Rally da Pecuária avalia produção de carne bovina em onze estados
Com o objetivo de visitar 600 pastos, fazer 300 amostras de campo e 100 visitas para entrevistar pecuaristas, as equipes técnicas do Rally da Pecuária 2016 vão a campo entre os dias 11 de abril e 10 de junho para percorrer 11 estados brasileiros. Nos últimos três anos do projeto, o Rally visitou cerca de 550 propriedades para entrevistas e aplicação de questionários. As visitas aleatórias para avaliação das pastagens incluíram 2.200 propriedades. 

Este ano, a expedição vai a campo em um cenário de alta de custos de insumos e redução de margens para os pecuaristas. A crise econômica afetou e continuará afetando o setor, segundo Maurício Palma Nogueira, coordenador do projeto. “Aumentos nos custos de produção, falta de infraestrutura e queda na renda da população trazem impactos econômicos à pecuária. No ano passado, a situação não foi pior pelo fato de que a crise se intensificou num momento de baixa oferta de bovinos terminados para abate. em outras palavras, a crise chegou junto com a fase de alta na pecuária de corte. Isso favoreceu o pecuarista, mas é um erro dizer que a pecuária de corte segue imune ou alheia à crise econômica que assola o país”, afirma Nogueira.

O cenário de queda nas margens de lucro tende a causar uma redução no pacote tecnológico, o que consiste em um erro estratégico, segundo o consultor, pois “O produtor reage diminuindo investimentos”. A alta de quase 30% nos custos de produção impactou os produtores. Mas ao diminuir o nível tecnológico na atividade, visando economizar recursos, os pecuaristas perdem produtividade. E, para reverter a queda nos lucros, a solução é acelerar ainda mais o nível de produtividade.

“Cada vez menos a pecuária admite um pacote tecnológico mais baixo”, diz o coordenador do Rally. Para conferir, em campo, quais são as condições da bovinocultura nas principais regiões produtoras, o Rally da Pecuária, realizado pela Agroconsult, visitará este ano pecuaristas nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Tocantins e Acre, mapeando e fotografando as pastagens, levando em consideração informações como a homogeneidade do pasto, volume de massa, população de plantas, altura do capim, presença de erosão, plantas invasoras, além de um histórico de utilização dessas pastagens relatado pelos produtores.

Esses 11 estados representam 83% do rebanho bovino e 90% da produção de carne brasileira. Nos encontros com pecuaristas, técnicos do Rally conduzirão entrevistas qualitativas e quantitativas com o objetivo de levantar, entre outros dados, áreas de pastagem e de agricultura em cada propriedade, total de cabeças de gado, confinamento, índices de fertilidade, natalidade e mortalidade, manejo sanitário e de pastagens e comercialização de animais.

Dois tipos de visitas são realizadas pelos técnicos durante a expedição: a primeira é apenas uma amostragem rápida, com o objetivo de coletar informações sobre o pasto, o gado, o ponto geo referenciado e as condições gerais da área. Trata-se de uma amostragem aleatória que não depende da presença do proprietário. Posteriormente os pontos são acompanhados por imagem de satélite.

Já as visitas e encontros com pecuaristas são planejados com antecedência, mas não agendados. São utilizados contatos do banco de dados da Agroconsult e, principalmente, indicações de lideranças regionais, patrocinadores ou profissionais que atuam nas cidades pelas quais os técnicos passarão. Além da amostragem das condições das pastagens, é realizada uma entrevista com o proprietário/gerente para coletar informações técnicas e gerenciais relacionadas à pecuária.

A equipe avaliará a localização da fazenda e a possibilidade de visita. O produtor também pode preencher os questionários do Rally da pecuária no site. Nesse caso, mesmo que a equipe não consiga chegar até a fazenda, ele usufruirá dos benefícios de participar do projeto. Um deles é o acesso ao relatório Vip, entregue apenas aos produtores que respondem a entrevista. Esse relatório reúne informações exclusivas que nenhuma outra organização disponibiliza aos pecuaristas. 


Fonte: Revista KLFF - 12ª edição





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