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11/12/2015

Os desafios do tomate industrial no Brasil

Mercado movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano, com área plantada de 18 mil hectares e produção de 1,5 milhão de toneladas

A cadeia produtiva do tomate industrial enfrenta vários desafios. O principal deles é a recomposição nos preços finais nas prateleiras de supermercados. “Ainda existe uma grande distância da área agrícola em relação à capacidade fabril de processamento do tomate”, afirma Antonio Carlos Tadiotti, diretor executivo da Abratop (Associação da Cadeia Produtiva de Tomate Industrial).

Segundo ele, as indústrias trabalham sempre no limite da produção para atender a demanda do consumidor, enquanto que, no campo, pequenos desequilíbrios climáticos podem causar perdas de muitos frutos. Nos últimos cinco anos, a produção agrícola tem se mantido estável e até com um ligeiro decréscimo, mas o produto final processado tem crescido em torno de 12%. “Pode parecer uma incoerência, mas na verdade não é. Isso se deve, em parte, à migração dos hábitos de consumo como do extrato de tomate (concentrado) para os molhos prontos tradicionais e mais elaborados que naturalmente levam muito mais água na sua elaboração”, explica.
 
Outro desafio para a cadeia está na normatização para os produtos derivados do tomate no Brasil, trabalho que teve início em 2008 e, segundo Tadiotti, se perdeu no tempo. “Cada empresa pode fazer o seu produto praticamente sem obedecer a um mínimo de padrão de identidade e qualidade”, afirma.

Já o principal gargalo na cadeia produtiva, conforme Tadiotti, é a irrigação, que ainda utiliza os pivôs centrais ao invés de irrigação por gotejamento. A quantidade de água utilizada no pivô central é 5 a 6 vezes maior e a proliferação de pragas ocorre na mesma proporção. “Enquanto a irrigação por pivô central inunda a área inteira plantada, a irrigação por gotejamento atinge somente as raízes do tomateiro numa profundidade de mais ou menos 30 centímetros”, diz. Outro problema é a rotação da cultura necessária após a colheita de tomate, onde geralmente é necessário revolver a terra, o que prejudica o gotejamento. “Os Estados Unidos produzem nove vezes mais tomate industrial do que o nosso país e com 100% de irrigação por gotejamento”, afirma Tadiotti. 

Para o diretor da Abratop, Rafael de Rezende Sant´Ana, o gotejamento é uma excelente ferramenta que melhora a eficiência de irrigação, uma vez que a redução no consumo de água atinge 30% ou mais na aplicação. “No entanto, acredito que o gargalo está ainda na falta de capacitação do produtor e funcionários em relação ao manejo deste equipamento”, diz. Segundo ele, entre os anos 2004 a 2008 a Unilever financiou mais de 900 hectares em gotejamento em áreas de produção de tomate. Hoje menos de 100 hectares estão operando.

Outro fator relevante, afirma Sant’Ana, é o custo de investimento inicial, que chega a ser quase 50% superior ao pivô central, com manutenção também mais cara. “Temos poucos fornecedores voltados para esta tecnologia no país, o que também não gera todo o potencial que o equipamento poderia atingir (por exemplo, uso de fertilizantes líquidos prontamente solúveis que reduzem a possibilidade de entupimento dos gotejadores)”. 

De acordo com Sant’Ana, na produção de tomate, o consumo é de 450 milímetros por hectare/safra média. Logicamente clima, chuva, tipo de solo e condições de crescimento da planta influenciam na quantidade de água aplicada, mas o grande ganho do gotejamento é que não há perdas por escorrimento (erosão), evaporação e deriva. Um pivô muito bem regulado vai gerar um máximo de 85% de eficiência.

Geralmente a eficiência está entre 70 e 80% para pivô e um gotejo terá eficiência de 90 a 95% na aplicação de água. “O grande ganho do gotejo é quando comparamos a quantidade de água por produção (toneladas por hectare). Aí sim temos uma grande diferença, pois o gotejo na Califórnia produz muito mais (até 200 toneladas por hectare) com a mesma quantidade de água que nós produzimos (média de 80 toneladas por hectare)”, explica.

Manejo fitossanitário

Em relação à produção, um dos desafios é ter uma boa estrutura na propriedade, principalmente no manejo fitossanitário. Segundo Lucas Siqueira, técnico responsável na Fazenda Palmital, em Morrinhos (GO), a pulverização deve ser feita na hora certa, sem atraso, uma vez que é preventiva. É preciso também desenvolver variedades mais resistentes principalmente ao geminivírus causado pela mosca-branca. “O mercado consumidor ainda é um desafio para nós, pois o preço do produto oscila muito: ora está melhor ora despenca, deixando cheio o estoque”, afirma. 

Para Alice Quezado, pesquisadora da Embrapa Hortaliças, os principais desafios estão na logística do momento da colheita ao recebimento para processamento na fábrica. “Qualquer demora no recolhimento dos frutos pode levar a perdas por podridões ou brocas, por exemplo. Além disso, a altura das caçambas de transporte deve ser adequada de modo a prevenir o esmagamento dos frutos”, observa.

A pesquisadora Alice Nagata, também da Embrapa Hortaliças, explica que o desafio está em colher na melhor época e entregar na fábrica de forma eficiente. As fábricas estão longe das áreas de produção, as estradas (de terra ou asfalto) não apresentam qualidade, as caçambas são inapropriadas, há perdas na colheita e há filas de espera para processamento. 

Com um ciclo médio de 120 dias, em Goiás, principal Estado produtor do fruto (72% do volume nacional), o plantio tem início em março e a colheita a partir de julho. Segundo levantamento do custo de produção com os alunos do curso de especialização em tomate para processamento industrial da UFG (Universidade Federal de Goiás), o custo de produção calculado para o Estado por hectare foi de R$ 16.082,32. “Já o lucro por hectare foi calculado em R$ 3.417,62”, diz Abadia Reis Nascimento, professora da UFG.

Conforme Siqueira, a principal diferença entre o tomate industrial e o de mesa é o alto teor de grau Brix e a consistência do fruto. “Quanto maior o conteúdo de sólidos solúveis no fruto, mais rápido se atinge o teor desejado, usando menor quantidade de tomates com maior rendimento industrial, menor custo e melhor qualidade. Um dos fatores mais importantes para o teor de sólidos solúveis no fruto é a característica genética. Fatores com temperatura de cultivo, sanidade e vigor das plantas e umidade do solo também podem influenciar”, explica Alice Nagata, da Embrapa.

De acordo com Alice, o cultivo de tomateiro rasteiro para fins industriais difere grandemente do cultivo de tomateiro estaqueado. Apesar de vários tipos de tomateiro serem alvo das mesmas pragas, o sistema e a época de cultivo, as cultivares, a legislação de cultivo e o local de plantio são essencialmente distintos, o que faz com que haja uma diferença considerável na incidência de doenças e pragas. O manejo em tomateiro industrial é complexo pela necessidade de rotação de culturas dentro de regiões com limitação de áreas de cultivo e competição com outras culturas (cana-de- açúcar, milho e feijão, por exemplo).

A pesquisadora explica que o cultivo de tomateiro estaqueado é basicamente nômade, o que torna comum os produtores arrendarem áreas novas e não repetirem o cultivo na mesma área. Entretanto, eles enfrentam sérios problemas de escalonamento de plantio e perpetuação de pragas na região de cultivo. “A dificuldade de produção de tomateiro estaqueado, pela necessidade de condução das hastes por profissionais cada vez mais raros, é compensada pela maior eficiência na aplicação de agrotóxicos”, explica Alice.

Já o plantio de tomateiro rasteiro é realizado em sua maioria sob irrigação em pivôs centrais, o que pode favorecer a ocorrência de problemas com mofo-branco, bacterioses foliares e doenças fúngicas foliares. No cultivo sob irrigação por gotejamento essas doenças não representam problemas. Em cultivo rasteiro, a eficiência de aplicação é menor em fases avançadas de cultivo pela inviabilidade do produto alcançar as folhas baixeiras, cobertas pelas folhas mais jovens.

Manejo preventivo

De acordo com Siqueira, o melhor manejo é o preventivo, que exige um preparo de solo bem-feito evitando-se ao máximo a presença de torrão. Isso porque a colheita é feita com máquina e os torrões podem ser colhidos junto com os frutos e levados à fábrica, atrapalhando muito o processo fabril.

“É importante ainda ter um preparo de solo profundo porque quanto mais raiz a planta produzir, mais sua produtividade pode aumentar, aumentando também a resistência em relação às doenças. Uma planta bem nutrida sempre será mais resistente”, completa. Siqueira indica ainda fazer um bom manejo de irrigação, principalmente nos últimos dias antes de cortar a água no final para que os frutos não apodreçam pelo excesso de umidade.

Segundo Miguel Michereff Filho, pesquisador da Embrapa Hortaliças, independentemente da praga ou doença que podem ocorrer na cultura do tomate industrial, deve-se pensar no uso planejado de medidas de controle que atuem de forma preventiva. Essa seria a primeira linha de defesa do cultivo contra os problemas fitossanitários e envolve basicamente as boas práticas agrícolas. “Diversas viroses podem ocorrer nos cultivos de tomate e algumas delas são de alta relevância econômica por ocasionarem perdas severas na produção”, afirma.

De um modo geral, afirma o pesquisador, as viroses são igualmente relevantes para ambos os segmentos de produção de tomate. Há diferença na importância relativa das pragas entre os segmentos de tomate de mesa e tomate para processamento industrial. Isso ocorre basicamente em razão da época de cultivo ou safra de cada tipo. Para o tomate industrial, em razão do seu cultivo se concentrar na estação seca do ano e a colheita não ser escalonada, as pragas-chaves são insetos sugadores e transmissores de vírus, como a mosca-branca e os gigante-do-fruto (Helicoverpa armigera) também tem ocasionado perdas severas e merece cuidados especiais no tomate da indústria, principalmente entre o florescimento e a colheita.

Para o tomate de mesa, explica Michereff Filho, o fruto pode ser cultivado o ano inteiro em diferentes regiões brasileiras e a colheita pode perdurar por mais de 60 dias. Existem várias pragas-chaves (que precisam ser monitoradas constantemente e controladas quando detectada a sua presença), como a mosca-branca, os tripés, a broca-pequena-do-fruto, a traça-do-tomateiro e a broca-gigante-do-fruto (Helicoverpa armigera).

DICAS DE BOAS PRÁTICAS AGRÍCOLAS PARA EVITAR PROBLEMAS FITOSSANITÁRIOS:
SELEÇÃO DO LOCAL DE PLANTIO: Sempre que possível, instalar a lavoura em área isolada e distante de outros cultivos de tomateiro e de outras culturas agrícolas que compartilham as mesmas pragas e doenças que o tomateiro.
SELEÇÃO DA CULTIVAR: Além dos atributos de produtividade, adaptação climática e qualidade da polpa, sempre que possível deve-se escolher cultivares com resistência ou tolerância aos principais fitopatógenos do tomateiro, incluindo-se nesse grupo as bacterioses foliares e os vírus causadores do mosaico dourado e do vira-cabeça do tomateiro.
QUALIDADE FITOSSANITÁRIA DAS SEMENTES: Principalmente as bactérias foliares são passíveis de transmissão por sementes, como as Xanthomonas spp. (mancha-bacteriana) e a Pseudomonas syringae pv. Tomate (pinta-bacteriana).
ESCOLHA DA ÉPOCA DE PLANTIO: Escolha  a mais apropriada para iniciar o cultivo do tomate, bem como a que permita que as plantas de tomates jovens (até aproximadamente 40 dias de idade) escapem dos maiores surtos de pragas e doenças na região escolhida.
AQUISIÇÃO DE MUDAS VIGOROSAS E DE ALTA QUALIDADE FITOSSANITÁRIA: Compre mudas de viveiros idôneos, que façam a sua produção em casas teladas à prova de insetos transmissores de vírus conforme as normas estabelecidas pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).
DISPOSIÇÃO DAS LAVOURAS: Evite o escalonamento de cultivo dentro da mesma lavoura e entre lavouras próximas.
CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS SILVESTRES E TIGUERAS: Soja, tomate, batata, feijão, algodão: faça o controle na área escolhida para plantio e nos seus arredores, tanto antes da safra de tomate como durante a sua safra, no intuito de eliminar plantas hospedeiras de pragas e fitopatógenos.
ROTAÇÃO DE CULTURAS: Use plantas que não compartilhem as mesmas pragas e doenças que o tomateiro.
COLHEITA: Colha na época certa, evitando o escalonamento por mais de 30 dias.
ELIMINAÇÃO DOS RESTOS CULTURAIS: Faça, sempre que possível, dentro da área que foi cultivada, no intuito de reduzir os focos de multiplicação de pragas e fitopatógenos para os futuros cultivos a serem realizados nas proximidades.
ADOTAR O VAZIO FITOSSANITÁRIO DO TOMATE: Faça em determinado período de tempo, ao longo do ano, sem cultivo de tomateiro ou de plantas espontâneas de tomateiro (tigueras na entressafra), para se reduzir a fonte de inóculo de fungos, bactérias e de vírus transmitidos por insetos como a mosca-branca e os tripés.
CONTROLE QUÍMICO: Faça controle químico de prgas (inseticidas e acaricidas) e de fitopatógenos (fungicidas/bactericidas/indutores de resistência) sempre que for tecnicamente necessário e economicamente justificável.
Fonte: EMBRAPA Hortaliças


Fonte: Revista KLFF - 11ª Ed.




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