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18/10/2017

Oportunidade para produtores e frigoríficos de pequeno e médio porte no Brasil

Descentralização do mercado traz de volta a possibilidade de pulverização de compradores de boi gordo e de vendedores de carne

Oportunidade para produtores e frigoríficos de pequeno e médio porte no Brasil

As denúncias de corrupção feitas pelo Grupo JBS, que atingem o alto escalão do governo, podem gerar oportunidades para produtores, frigoríficos de pequeno e médio portes e consumidores de carne bovina no Brasil, em razão da descentralização dos mercados na cadeia que se verifica no País, com a venda de ativos da companhia.

“Caso o grupo saia do mercado, por vontade própria ou forçadamente, por algum tempo ou de forma definitiva, teremos de volta a pulverização de compradores de boi gordo e de vendedores de carne, fato salutar em uma economia sólida. Ganhariam o pecuarista, o mercado, o investidor, o frigorífico e o consumidor”, acredita Paulo Araripe, consultor em sistemas pecuários e intensificação da produção pecuária.

Segundo Araripe, os frigoríficos pequenos e médios que tiverem investido, na sua trajetória, numa relação saudável, honesta e pautada na meritocracia – quesito que ele considera fundamental no relacionamento como pecuarista e com o cliente comprador de carnes –, encontram agora ambiente favorável para melhorar as compras e vendas. “Talvez não tenha havido e não haverá, na minha opinião, momento mais propício para melhorara rentabilidade desse pessoal. O grande prejuízo para a cadeia da carne brasileira, no Brasil e fora dele, oriunda dos últimos acontecimentos políticos, é a queda na credibilidade.”

Porém, o consultor lembra que frigoríficos de pequeno e médio porte não têm capacidade para investir no aumento da produção, caso necessário. “Esse é um gargalo a ser enfrentado, pois durante anos esse pessoal tem sido achatado em suas margens, principalmente pela centralização do mercado que o governo brasileiro deixou acontecer. E é neste momento que o governo deve intervir e criar condições para a competição econômica saudável se instalar novamente no setor. Se houver investidores interessados em participar desse momento, agora é a hora de se posicionar na cadeia, seja melhorando os portes e operação de seus frigoríficos, ou na abertura de novas plantas.”

Diante do cenário apresentado atualmente no Brasil, Araripe diz que existem dois tipos de atores: o pecuarista ou fornecedor de boi gordo e o consumidor ou comprador de carne. “No caso do pecuarista, há o forte receio de vender a prazo para o grupo, pois vemos que algum acerto financeiro terá que ser realizado por ele e são cifras astronômicas, que impactarão na saúde financeira do grupo. O pecuarista, de forma geral, prefere vender mais barato para frigorífico pequeno, mas à vista. Se for pagamento antecipado, melhor ainda. A queda no valor da arrobado boi gordo atualmente não pode ser atribuída somente aos acontecimentos com a JBS e à Operação Carne Fraca (deflagrada em março de 2017 pela Polícia Federal, que investiga o envolvimento de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em um esquema de liberação irregular de licenças para frigoríficos).”

Para o analista, “quem conhece os históricos de preços sabe que essa tendência é natural para a época do ano em que o consumo é baixo mesmo, como Carnaval, Semana Santa etc. Claro que houve impacto, mas ele nãoé tão forte assim. A origem desse caos é a desinformação. Do lado do consumidor, principalmente nas cidades grandes, é forte o movimento que pretende acabar coma corrupção evitando comprar os produtos das marcas pertencentes ao Grupo JBS. Porém, a JBS emprega muita gente e não podemos ser irresponsáveis com essas famílias. Outra mudança que vejo no consumidor é que ele acredita que temos problemas sanitários na elaboração dos produtos (carne com papelão, carne estragada etc.). Só acredita nisso quem não conhece nosso sistema de inspeção, um dos melhores do mundo.”

No curto prazo, as mudanças verificadas com as denúncias são negativas, observa. “Mas, se no médio e longo prazos este movimento servir para desconcentrar o mercado de boi gordo e de carne, elas serão muito positivas. Sou defensor do mercado atuante em livre concorrência sem interferência governamental. É importante observar que tratamos de um problema de corrupção, em várias esferas, e não de qualidade de produto. Isso precisa ser reforçado junto à opinião pública.”

Além das denúncias do Grupo JBS, o consultor lembra que a “Carne Fraca” também comprometeu o setor, já que a primeira reação internacional a essa operação foi a suspensão temporária e o bloqueio de produtos que já tinham sido embarcados para China/Hong Kong, Chile, Argélia e Egito. Além disso, Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita e regiões da Europa elevaram o nível de fiscalização sanitária dos produtos provenientes do Brasil. “Essa operação comprometeu principalmente a credibilidade. Do pecuarista ao varejo, passando pela fiscalização e os frigoríficos, todos foram afetados, inclusive o mercado externo. Na ponta do mercado interno, que é o consumidor final de 80% de nossa produção de carne, temos o problema potencializado pela falta de informação e a imprensa usando dados sem veracidade e com erros de interpretação.”

Araripe avalia que, no curto prazo, o Brasil pode voltar aos patamares de venda externa anteriores a essa operação. “Na verdade, em reais, isso já foi ultrapassado, mas o volume ainda não voltou ao normal. Quem conhece o sistema de fiscalização brasileiro sabe que aqui nãohá espaço para esse tipo de fraude averiguada em menos de 1% das plantas frigoríficas. Os frigoríficos brasileiros são os melhores do mundo e isso é fato há muitos anos, desde a década de 80. As missões dos países compradores fazem vistorias em nossas plantas e saem muito bem impressionadas. O setor é muito forte no Brasil. Nãoé atividade tocada por amadores. Somos muito profissionais nisso.”

Conforme o consultor, os atuais manejos sanitários são suficientes no País para que a imagem da carne brasileira seja resgatada – tanto no mercado interno quanto externo. Em relação à fiscalização do setor, Araripe afirma que, “nosso rebanho de corte é quase todo criado a pasto, o que diminui muito os problemas metabólicos e de sanidade. Acredito que os órgãos fiscalizadores estaduais e municipais estarão mais atentos às possibilidades de fraude, melhorando suas atuações.”

Para os pecuaristas, o consultor observa que há diferenças de impacto. “O pecuarista tradicional não tem como deixar de fazer negócios com o seu boi gordo pronto. Já os mais modernos, que possuem uma pecuária mais intensificada, com controle sobre produção e custos e com ferramentas tecnológicas para segurar o gado diante de uma reviravolta de mercado, conseguem se adaptar aos acontecimentos econômicos e políticos, esperando a melhor oportunidade.”

O papel do governo nesses momentos de abalo, de acordo com Araripe, é o de informar corretamente a população e criar mecanismos de incentivo a novos negócios e mercados, visando desconcentrar o setor.

ATENDIMENTO AOS PEQUENOS E MÉDIOS

A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que engloba 24 sindicatos associados (Sindicarnes) existentes no País, encaminhou em junho de 2017 à direção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um pedido para tratar da mudança na configuração da estrutura da cadeia produtiva da pecuária de corte no setor industrial, concentrada em grandes empresas em alguns estados brasileiros. Segundo a solicitação, essa estrutura “mudará seu perfil nos próximos anos, tendo os pequenos e médios frigoríficos papel preponderante neste novo mapa estrutural que se prevê”.

Conforme a entidade, cujos associados representam aproximadamente 50% da produção da carne bovina no Brasil (a maioria pequenos e médios frigoríficos), o crescimento dos mercados interno e externo mostra-se promissor aos frigoríficos brasileiros. “Antevemos um futuro com significativo potencial de consumo, o que vai demandar elevados investimentos em capital fixo para aquisições, ampliações e construção de novas plantas frigoríficas. Demandará das empresas iniciativas para as quais serão necessários recursos de terceiros, especialmente de longo prazo, a fim de que possamos crescer e diversificar os negócios.”

EXPORTAÇÕES DE CARNE BOVINA EM QUEDA

De acordo com a Abrafrigo, em maio de 2017 foram exportadas 113.414 toneladas de carne bovina nacional ante 126.275 toneladas em igual mês de2016, uma queda de 10% no volume. Na opinião da entidade, boa parcela desse resultado ainda é reflexo da operação “Carne Fraca” que mexeu com profundidade na imagem do produto brasileiro no exterior, demonstrando que a recuperação deverá ser mais lenta do que o setor esperava – esse foi o quarto mês consecutivo de queda nas vendas externas.

Nas receitas, conforme a Abrafrigo, a queda em maio de 2017 foi menor, de 5%, com alguma recuperação de preços, chegando a US$ 465,7 milhões contra US$ 490,7 milhões em 2016. No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, as vendas alcançaram 533.670 toneladas (-10%) contra 591.753 em 2016, enquanto que, nas receitas, a queda é de 6%: de US$2,257 bilhões em 2016 ante US$ 2,127 bilhões em 2017.

Para a Associação, embora boa parte dos 20 maiores importadores da carne bovina brasileira estejam elevando suas compras a níveis próximos da normalidade dos últimos anos, e a China continue avançando,no total geral as exportações do produto in natura e processada continuam com movimentação inferior às de 2016, ano em que também não cresceram. Isso faz com que o setor ainda conviva com boas e más notícias durante algum tempo.

OPERAÇÃO CARNE FRACA

Fernando Galletti de Queiroz, diretor presidente da Minerva Foods, afirma no relatório de resultados da companhia apresentado em 8 de maio de 2017 ao mercado que a deflagração da operação Carne Fraca trouxe impactos relevantes para toda a cadeia de proteínas do Brasil. “Como resultado, tivemos um recuo tanto na demanda doméstica quanto nas vendas externas, fruto da suspensão temporária das compras por alguns países importadores,ou pelo aumento das inspeções sanitárias, até que se pudesse ter um quadro mais claro do conteúdo das investigações e sua extensão.

Nesse contexto, representantes do Ministério da Agricultura do Brasil, junto com as associações de produtores de carnes (em nosso caso representada pela ABIEC), mostraram rapidez e assertividade em comunicar à opinião pública e aos clientes o quão sólido e confiável é o sistema de controle sanitário brasileiro. (...) Gradualmente o consumo doméstico se recuperou e as suspensões foram caindo”, diz no relatório.

No período das suspensões temporárias, o diretor presidente lembra que a companhia conseguiu, em um curto espaço de tempo, remanejar sua produção, atendendo aos países suspensos por meio de suas unidades industriais localizadas fora do Brasil (Uruguai, Paraguai e Colômbia). “Este movimento suavizou o impacto da redução de acesso do Brasil e demonstrou claramente a importância da diversificação geográfica como instrumento de proteção e gestão de risco.”





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