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16/06/2016

O mercado de algodão sob a visão de Arlindo Moura

O convidado desta edição é o vice-presidente da Abrapa e CEO do grupo Vanguarda Agro

O mercado de algodão sob a visão de Arlindo Moura

O mercado de algodão, uma das mais importantes commodities brasileiras, é o assunto abordado nesta edição do Roda Prosa. Um espaço aberto para os produtores conhecerem a visão de um produtor referência sobre determinado mercado ou tema que interessa a quem lida diariamente com o setor que mais cresce no País. O convidado para esta edição é Arlindo de Azevedo Moura, vice-presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) e CEO do grupo Vanguarda Agro. A empresa é produtora de commodities agrícolas, com foco na produção de soja, milho e algodão e valorização de terras. Possui nove unidades de produção estrategicamente localizadas em dois estados brasileiros (Mato Grosso e Bahia), totalizando uma área sob gestão de aproximadamente 178,4 mil hectares. 

Com cerca de 30 anos de experiência na área de agronegócio, já atuou em posições estratégicas de grandes companhias agrícolas como diretor-presidente no Grupo Kepler Weber e diretor administrativo-financeiro para América do sul da John Deere Brasil, além de ter presidido por oito anos a SLC Agrícola.

- Quais as estratégias para ser economicamente viável, neste cenário de custos elevados e incertezas  de  produtividades  influenciadas por condições climáticas adversas?

"Não existe uma única estratégia, mas sim diversos itens integrados. Eu começaria pela racionalização dos custos. É necessário que se analise criteriosamente o ponto de equilíbrio da atividade, levando em conta o custo de investimento em tecnologia que hoje é bastante elevado e o potencial produtivo dessas lavouras. Às vezes, é melhor reduzir um pouco o uso de tecnologia, principalmente fertilizantes, investir em um bom preparo da mão de obra contratada, fazer um bom manejo integrado de pragas e ervas daninhas, visando a redução dos defensivos – que são caros - e investindo na tecnologia dentro do padrão que a lavoura permite. 

Tem regiões onde é possível investir mais em tecnologia e colher bem mais e, em outras, nem sempre a tecnologia resulta em boas produtividades. Em resumo, seria um  planejamento  integrado  da propriedade rural, uma boa gestão de insumos e recursos humanos e também a adoção de boas práticas que definiriam o sucesso da propriedade dentro da cadeia produtiva do algodão no Brasil."

-Qual tecnologia de produção agrícola precisa ser melhor desenvolvida para a cultura do algodão?

"Existe uma ansiedade dos produtores pela entrada de alguns materiais no mercado. Em função do clima brasileiro, algumas variedades resistentes ao estresse hídrico seriam muito interessantes. Outros materiais resistentes ao bicudo do algodoeiro, um grande problema do algodão brasileiro, também seriam desejados. Em geral, o produtor de algodão adota alta tecnologia, o que há de mais moderno no país, desde o manejo eficiente, a fertilidade do solo, o manejo integral de pragas e doenças, bem como a colheita com máquinas modernas e beneficiamento com máquinas de ponta. Isso faz com que o algodão brasileiro tenha uma boa qualidade e  boa  produtividade.  Na  maioria das propriedades, o problema não está na adoção de tecnologias, mas uma melhor gestão para trazer melhores resultados ao produtor."

-O que impede o Brasil de estar entre os três principais produtores de algodão do mundo?

"Nós temos muitos problemas, desde altos impostos, juros altos, custos com defensivos, isso dificulta o avanço da produção do algodão brasileiro.  A burocracia para o uso das moléculas químicas para controle de pragas e doenças é complexa e o país é o último a entrar em novas tecnologias que os outros concorrentes, como Estados Unidos e Austrália. Estamos dependentes de produtos ultrapassados, caros e pouco eficientes. A péssima logística de transporte com alto custo, as distâncias muito grandes, muitas vezes nosso algodão percorre 2 mil quilômetros até chegar ao porto, isso tudo encarece o produto e nos tira a competitividade.

Outro item que temos dificuldade é a legislação trabalhista que é equiparada ao do trabalhador urbano, mas a nossa indústria fica a céu aberto. Muitas vezes o funcionário não consegue trabalhar de manhã, porque está chovendo, começa a trabalhar às 13h e às 17h precisa parar, porque a legislação diz que o trabalhador não pode ficar à disposição do empregador mais de 10 horas por dia, mesmo que se pague hora extra. Na verdade, ele não trabalhou 10 horas, mas 4 a 5 horas, mas nossa legislação não separa isso. É uma dificuldade que temos com a legislação com relação ao horário de trabalho. Outro item de dificuldade são os juros. Os títulos do agronegócio, que foram criados para facilitar a vida do produtor, não permitem captar diretamente no exterior, com custo menor. A gente tem que captar no mercado interno, onde os custos financeiros são elevados. Se tivéssemos acesso direto ao mercado estrangeiro, podíamos captar dinheiro – principalmente os Certificados de Recebíveis do Agronegócio – por um custo bem menor do que temos hoje. E também a pouca disponibilidade e o alto custo dos recursos para financiar o custeio."

-A cadeia do algodão é uma das mais  profissionalizadas  do  setor agrícola brasileiro. É possível estender a visão dos cotonicultores a outros setores agropecuários? Como?

"O produtor de algodão produz milho e soja e até outros produtos. A  mesma profissionalização  que ele tem na área de algodão, também aplica em soja e milho. O que ocorreu no passado é que a cadeia de produção brasileira foi dizimada pelo bicudo-do-algodoeiro e a baixa tecnologia aplicada na época nas lavouras fez com que o país praticamente saísse desse mercado. Nós chegamos a ser o maior importador de algodão durante um período. Quando os produtores decidiram retomar o cultivo 15 anos atrás, o processo se deu de uma forma muito boa, com adoção de melhores tecnologias disponíveis no mundo. O produtor foi buscar essas tecnologias na Austrália e Estados unidos que fizeram com que os produtores tivessem diferencial sobre os que plantam somente soja e milho. A partir daí se estabeleceu um processo de mão dupla.

Ouvimos tudo o que os principais compradores de algodão queriam. Muitos  produtores  foram  para  a Ásia ver quais os problemas que existiam no algodão da Austrália, dos Estados Unidos e no brasileiro, cujo  plantio  estava  se  iniciando.

Tivemos muitas sugestões e críticas e, ao voltar para casa, fizemos um bom trabalho para corrigir isso.
Hoje temos situações muito interessantes, como a rastreabilidade do nosso algodão que é de 100% do total exportado. Com relação à certificação socioambiental, é algo que acrescenta qualidade ao algodão brasileiro. Investimos recursos no sistema de qualidade de fibra que permite vender o algodão que cada cliente precisa. A gente chama o algodão de commodity, mas ele não tem nada de commodity. Tem clientes que precisam de algodão de alta qualidade, com resistência maior, com fibras maiores, outros precisam de cor mais branca, depende da aplicação que ele vai fazer. O produtor brasileiro consegue atender esse tipo de demanda.

Se as outras cadeias, como as de soja e milho, fizerem o que a cadeia de algodão fez, sem dúvida, ficarão na liderança. A cadeia que esperar o governo fazer isso chegará atrasada, pois o governo não tem como fazer e será difícil correr atrás do prejuízo."

-Algodão orgânico: nicho de mercado ou tendência de aumento? Qual sua opinião sobre essa questão?

"É uma realidade. Ele tem mercado, mas não é grande. O algodão orgânico tem boa aceitabilidade em algumas regiões como a Europa. Acho que é possível conviver o algodão orgânico e o convencional. A lavoura de algodão é altamente suscetível ao ataque de pragas e doenças, desta forma, é muito difícil produzir orgânico em grandes áreas e principalmente obter grande produtividade para remunerar essa produção. Aqui no Brasil, as lavouras de algodão são cultivadas em áreas muito extensas. Diferentes da Índia, que produz em 3 hectares,  5 hectares. O Brasil produz em 40 mil ou 50 mil hectares, alguns produtores têm 100 mil hectares, o que dificultaria muito a produção do algodão orgânico. Para produzir o algodão orgânico em pequenas áreas, ele é viável. Portanto, eu acho que é uma boa alternativa para a  agricultura familiar e tem esses nichos hoje muito claros e que paga bons preços por esse tipo de produto. Então é um bom negócio, mas não é para o grande produtor.

Nós não teríamos condições de fazer isso em áreas muito extensas, muito grandes. Eu acho que o algodão orgânico não compete, ele trabalha junto com o convencional.

Os  pequenos  produtores  podem produzir o orgânico e atender esses nichos de mercado. E o grande produtor, em função das dificuldades que ele teria com clima tropical do Brasil, porque torna as lavouras  altamente suscetíveis às pragas e doenças, atua com o convencional."

-Como o aumento do uso de fibras sintéticas pode afetar a cadeia da comercialização da pluma? Diante disso, há novos produtos em desenvolvimento que utilizam algodão e seus subprodutos?

"Se olharmos o histórico de participação de mercado do algodão, ele vem caindo durante décadas.  Ele já foi 90% do consumo de fibras. Hoje no mundo ele é menos da  metade.  Nos  Estados  unidos, onde conta com os melhores índices, a participação é de 40% e no Brasil é pouco mais de 24%. Principalmente o que tem ocorrido é o preço mundial do petróleo, que nesse momento está muito baixo, de forma que as fibras sintéticas chegam ao mercado com um preço baixo. É claro que isso nos preocupa ano a ano e a gente está vendo decrescer o uso do algodão em detrimento  do  poliéster.  Imagino que uma campanha forte, bem-estruturada para convencer os consumidores das vantagens do algodão, teria êxito. As campanhas teriam de tratar sobre o relacionamento do uso, da qualidade, do bem-estar, que é uma matéria-prima renovável. A Abrapa está trabalhando, juntamente com a cadeia de algodão, em um projeto de marketing para o mercado interno, para levar algumas informações aos consumidores brasileiros e, em consequência, aumentar a demanda pelo algodão.

A campanha deve entrar no ar já no segundo semestre, a gente espera, a exemplo dos EUA que já conseguiu subir um pouco a participação do mercado da fibra do algodão nas confecções. Outro item que pode melhorar a participação do algodão é a mistura do poliéster com o algodão, que melhora o toque do tecido do poliéster. Acho que é um trabalho longo ainda para ser feito."

-O que podemos esperar para o setor em relação às novas variedades e práticas de manejo?

"Essa é uma área que não pode parar.  Precisamos  buscar o melhoramento constante através de OGMs ou da adoção de boas práticas e de uso de tecnologias na cadeia de algodão e nas outras cadeias produtivas, tanto vegetais quanto animal. Com isso, sem dúvida, o investimento em tecnologia é muito alto. Para o setor ter resultados deve continuar investindo em novas pesquisas e novos materiais. temos visto, através da Embrapa, esforços grandes para trabalhar com  itens  que  as  multinacionais não trabalham em função de algumas doenças estarem somente no Brasil e não em outros lugares do mundo. Temos que torcer para que isso continue. Uma nova tecnologia custa entre US$ 200 e US$ 250 milhões,  um  montante  que  nem sempre está disponível no mercado.  Nós, produtores, muitas vezes achamos que a tecnologia  é cara, mas por outro lado temos que reconhecer que, se a indústria não desenvolver isso, ficaremos para trás, tanto  em qualidade do algodão quanto  em produtividade."

-No cenário global, qual a situação da agricultura brasileira diante dos grandes produtores de commodities agrícolas do mundo?

"O Brasil já é reconhecido como grande produtor de soja e de carne, um dos maiores de algodão e de biocombustíveis.  Temos  reconhecimento mundial do agronegócio brasileiro. Existe previsão do USDA de que, nos próximos 10 anos, 76 milhões de toneladas de soja serão  exportadas  pelo  Brasil.  Isso é 35% a mais do que se exporta hoje,  enquanto  que  as  exportações dos Estados unidos vão crescer apenas 5%. Isso ocorre porque os Estados unidos não tem mais áreas novas para abertura, ou seja, quando cresce a área de algodão, precisa reduzir de soja, milho ou trigo, por exemplo. O crescimento é obtido muito mais com tecnologia do que com novas áreas. O Brasil ainda tem muitas áreas disponíveis – e não estou falando de desmatamento – mas de áreas de pastagens degradadas que podem ser utilizadas para agricultura, com melhor aproveitamento. O rebanho brasileiro não precisa hoje de toda as áreas disponíveis para pecuária.

A participação brasileira no mercado mundial, hoje de 44%, deverá crescer, segundo esse estudo do USDA, para 47%, enquanto que os Estados unidos que hoje tem 39% deverão cair para 33%. Isso mostra bem a competitividade do agronegócio do Brasil. O maior crescimento será do algodão brasileiro. Isso será possível com a disponibilidade de áreas que temos e a tecnologia adequada para atingir mais produtividade.

Hoje a produtividade do algodão  brasileiro  é  60%  maior que a produtividade americana. Um bom produtor brasileiro consegue tirar em um hectare 1,6 mil quilos de pluma. Nos Estados unidos, um bom produtor chega a 900 quilos de pluma. É um diferencial grande.
Por isso que o produtor americano só consegue sobreviver com subsídio. Esses volumes, sem dúvida, darão ao Brasil uma participação importante no mercado externo – eu imagino que devemos ocupar 45% do mercado, enquanto que os Estados unidos chegarão a 34%."

-Como o senhor vê o impacto do aquecimento global na agricultura?

"A ameaça do aquecimento global já é realidade, pois hoje vemos regiões que não tinham problemas de clima e passaram a ter. Esse ano foi  muito  difícil  plantar  soja  em outubro porque não chovia. E na colheita está difícil porque chove muito. Já temos hoje algumas manifestações que demonstram que o aquecimento está conosco. Deve haver adoção de alguma medida que resulte em maior respeito ao meio ambiente e recursos naturais.

Isso o Brasil tem sido líder. O nosso próprio Código Florestal não tem similar no mundo. Os níveis de reserva de floresta não tem nenhum outro país que tenha. Estamos caminhando nesse sentido, mas não é só o Brasil. Cadê as reservas americanas? Cadê as reservas europeias? Cadê as reservas chinesas? Então eu acho que a gente tem que fazer a nossa parte, mas acho que outros países no mundo também têm que fazer. De qualquer forma, o maior interessado em fazer cumprir a legislação do meio ambiente é o produtor porque ele depende da sua terra. Se ele não cuidar da sua terra, ele não vai ter terra para daqui a 10, 50, 100 anos. É um meio de sobrevivência e muitos produtores fazem muito mais que o Código Florestal manda fazer, porque  ele  é consciente que ele tem que tratar bem da sua terra, que é seu maior patrimônio."


Fonte: Revista KLFF - 12ª edição





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