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05/08/2016

Integração sustenta lucros

Com diversificação, produtor tem renda contínua por não depender só de uma cultura sujeita à variação de clima e de preços.

Integração sustenta lucros

Marize Porto especializou-se ao longo dos anos em “construir sorrisos”. Nascida em Ipameri, sudeste de Goiás, em Campinas exerceu a ortodontia com empenho por décadas. Viu-se num dilema em 2005 quando a antiga fazenda familiar na terra natal precisava de cuidados, ou teria que ser vendida. “Eu não tinha experiência nenhuma com a fazenda, que era na verdade uma grande plantação de cupins, mas resolvi entender a oportunidade.”

A oportunidade de prosperar na produção agropecuária no Centro-Oeste surgiu em massa a partir do fim dos anos 1980, quando sulistas migraram por terras mais amplas e baratas e fizeram da região o principal produtor agrícola do Brasil. Neste ano, o Centro-Oeste deve colher, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mais de 82 milhões de toneladas de grãos. Do rebanho bovino brasileiro, próximo a 200 milhões de cabeças, a região concentra cerca de 32%.

Ao contrário dos pioneiros produtores da região, Marize, ao fazer sua lição de casa que aprendeu na carreira médica, percebeu que, se quisesse fazer a fazenda voltara a produzir, não deveria utilizar o modelo convencional para os mil hectares entrecortados pelo rio Vaivem.  Conversou com vizinhos produtores, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e com consultores e se convenceu de que o sistema de lavoura integrada a pastagens e florestas de eucalipto era a solução para reativar a Fazenda Santa Brígida.
Ela resolveu que plantaria, por exemplo, brachiaria com grãos – milho, soja, arroz, e sorga. Plantaria também eucaliptos, com o objetivo de fazer uma sombra para o gado, sequestrar gases do efeito estufa e garantir uma renda a mais.

Com poucos recursos, mas credibilidade e crédito de sobra, Marize negociou com vizinhos a utilização de máquinas para o preparo de um lote, onde plantaria brachiaria e grãos para pagamento depois da colheita. Financiou com seu banco a aquisição de insumos atrelados à safra. E gastou suas economias para comprar fertilizantes. Plantou entre outubro e novembro de 2006, colheu grãos em abril, saldou as dívidas e soltou o boi no pasto.

Desde então, a Santa Brígida só cresceu. Em três anos, Marize plantou os primeiros eucaliptos. Dois anos mais tarde, os mil hectares estavam produzidos. Hoje, a fazenda está plenamente equipada e conta com um silo para 3,6 mil toneladas, que permitem que a produção seja estocada para venda no melhor preço. “A vida de produtora é interessante e vem com grandes desafios. É como se eu tivesse três fazendas para administrar. Se, por um lado, ela gera receita o ano inteiro, por outro, também gera muito trabalho.”
Para o diretor do Núcleo de Agronegócio da ESPM, José Luiz Tejón, o sistema adotado por Marize é a nossa “terceira revolução agrária”. Segundo ele, é um modelo que vai crescer nos próximos anos, e seu estímulo poderia levar o país a colher a colher 400 milhões de toneladas de grãos em dez anos. “Já temos cerca de três milhões de hectares neste modelo. Como temos 200 milhões de hectares em áreas de pastagens, é possível crescer muito na lavoura integrada”.
Marize foi pioneira no sistema integrado na região de Ipameri. Em todo Centro-Oeste, há espaço para que grandes áreas de pastagens e monoculturas sejam reformadas para tornar o sistema mais eficiente.

O governo admitiu a meta de ter dez milhões de hectares neste sistema em 2020, vem incentivando a prática e concede linha de crédito especial para produtores que comprovem práticas conservacionistas. “Os grandes pecuaristas vão ter que aprender a ser mais produtivos, principalmente no Centro-Oeste”, diz Tejón.

A doutora ainda constrói sorrisos no consultório em Campinas, mas a produtora conversa com o gerente-geral da fazenda diariamente, participa de todas as decisões e vai a Ipameri ao menos uma vez por mês. Entre as muitas vantagens que colhe junto com a produção estão o menor uso de defensivos e fertilizantes, a menor pressão ambiental sobre o rebanho bovino, um gado com mais margem de lucro do que no sistema convencional, produtividade maior e a possibilidade de gerar receita contínua.

“Durante esses de anos, observei que ao mesmo tempo que a produtividade das principais culturas de grãos aumentaram ano após ano, houve um salto na fertilidade dos solos da fazenda com uma redução de custos com adubação e custos em geral, que se tornaram mais competitivos do que no cenário convencional”, relata Marize.

Ela diz que os pastos recuperados e de alta qualidade deram suporte a um aumento de produtividade em arrobas de carne por hectare e a floresta atua como uma poupança verde, que já está chegando no momento da colheita e geração de receita. “ A realização de quatro safras, sendo duas de grãos, uma de bois e a de madeira advinda da floresta, tem diminuído os riscos da minha atividade, criando vários fluxos de receita ao longo dos anos”.

Diferentemente de Santa Brígida, grandes lavouras no Centro-Oeste terão perda de produtividade nesta safra. O Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, que neste ano supera a marca de 10% de sua área dedicada ao cultivo da soja, terá, segundo a Conab, a maior perda de produtividade de soja da soja em dez anos, caindo para 2.851 quilos por hectare.
No milho, será a pior produtividade desde 2010/2011. As duas produções devem diminuir em algo perto de dois milhões de toneladas.

“Foi um ano de El Niño forte, o que significa seca no Cerrado e chuvas no Sul”, afirma Erica Franconere, analista de mercado do Kleffmann Group. Para ela, se os produtores do Centro-Oeste persistirem no modelo de grandes plantações, ficam cada vez mais sujeitos às variações climáticas, pragas e doenças. “E vão perder dinheiro”.

“Um ano horrível”, define Gilson Provenssi, produtor de soja, milho e algodão em sistema convencional, em Jaciara (MT). “Com a seca perdi 20% de soja e 40% de milho”. Gilson nasceu em Mondaí (SC) e, criado na roça, formou-se no curso técnico agrícola e migrou para Jaciara aos 19 anos. Trabalhou em uma distribuidora e depois de alguns anos montou sua empresa. Vende defensivos, sementes e fertilizantes em cidades da região. Há quatro anos decidiu plantar, amparado pelos custos reduzidos de insumos que a distribuidora propicia. Hoje, seus planos são crescer em produtividade. “Para 2017/2018, minha meta é ter 300 hectares irrigados”, afirma.

A região sul, segunda maior produtora agrícola do Brasil, terá uma safra menos impactada pelo clima que o Centro-Oeste. A produção de soja deve aumentar 1,5 milhão de toneladas, com a produtividade se mantendo estável. No Sul, o dilema é justamente o crescimento da soja. “Está virando um mar de soja”, alerta Erica Franconere.
Ela recentemente entrevistou cem produtores rurais da região e diz que anova geração de agricultores, com mais estudos que os pais,  tem a preocupação fundamental de ganhar o máximo de dinheiro, com menos custos, em menos tempo. “A soja é uma produção fácil e de custos logísticos baixos na região Sul. Se não bastasse esse estímulo, os preços estão bons e com boas perspectivas. Mas é extremamente ruim que se plantem seis, sete safras de soja. Isso é péssimo para o solo e o manejo fitossanitário, pelo acúmulo do mesmo tipo de defensivo”.

Neste ano, os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul terão um aumento de cerca de 500 mil hectares de área plantada de soja, totalizando 11,5 milhões de hectares.
Diferentemente do Centro-Oeste – e por conta das chuvas - , a produtividade cai só no Paraná, sobe no Rio Grande do Sul, e na pequena área cultivada em Santa Catarina. Mas, na média, fica bem próxima do Centro-Oeste, com 3.071 quilos por hectare.
A Conab estima uma colheita de 35,4 milhões de toneladas, mais 1,4 milhão em relação à última safra.
Em termos de arroz, o Rio Grande do Sul continua sendo o maior produtor do país, mas perde cerca de um milhão de toneladas neste ano por redução de área de produtividade.
Para Tejón, da ESPM, a visão estratégica para a região Sul deveria ser aumentar a produção de itens de maior valor agregado, como vinho, azeite e frutas. “A região Sul é a nossa Europa. Não tem espaço para crescer, então tem que criar valor”.

Em São Paulo, a cana-de-açúcar continua crescendo e terá a maior área plantada da história, com 4,7 milhões de hectares. A área plantada de café deve ficar estável em torno de 200 mil hectares, porém a área em formação cai de 14 mil para 10 mil hectares. A safra da laranja será menor que em 2015, nas estimativas mais pessimistas até 20% - muito em função do greening ou amarelão do citrus, bactéria de difícil controle.
“Grandes áreas de cana dominam o Estado e não vejo grande elasticidade para mudanças”. Afirma Marli Mascarenhas, diretora do Instituto de Economia Agrícola (IEA). Entre as produções secundárias, ela aponta o aumento da safra de grãos neste ano em 8,4% para estimados 8,3 milhões de toneladas, com aumento de área cultivada de 4,7% e ganho de produtividade de 3,6%. E um grande crescimento do café – na região de Franca – da ordem de 40%, de quatro milhões para 5,4 milhões de sacas beneficiadas.
 





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