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09/04/2018

Grãos: Produtores apostam na diversificação de culturas

Noz-pecã, grão-de-bico, linhaça e centeio são algumas alternativas para aumentar a rentabilidade

Grãos: Produtores apostam na diversificação de culturas

“Uma bela aposentadoria”. O comentário sobre o cultivo da noz-pecã da coordenadora  do curso de Gestão em Agronegócio da Universidade Luterana do Brasil, Campus Carazinho (RS), ficou na mente do produtor Carlos Eduardo Scheibe. Após ter uma carreira como Engenheiro de Minas, especializado em beneficiamento de ouro, ele se voltou para uma grande paixão: a agricultura. “Havia herdado parte da fazenda do meu pai e então resolvi retornar à universidade para estudar. De um simples trabalho de curso, surgiu a ideia de investir e conhecer mais como era a produção da noz-pecã”, conta.

Ao herdar parte da propriedade rural, em Chapada (RS), ele e a esposa Anelise pensaram primeiro em ampliar a atividade com a compra de novas áreas. “Mas o preço da terra é muito alto, cerca de R$ 60 mil o hectare. Avaliamos e precisaríamos ficar com uma dívida de mais de 15 anos. Foi então que percebemos que a melhor solução seria verticalizar e investir no plantio da nogueira-pecã”, diz Scheibe. Após vários estudos e consultoria especializada - que incluiu análise de solo, aplicação de agricultura de precisão, manejo adequado das mudas, entre outros processos - foram plantadas as primeiras 700 mudas em 2009.

Segundo o produtor, a decisão por diversificar a produção foi feita pelo rendimento que a noz pode proporcionar em relação à soja: é possível obter cerca de 25% de lucro por hectare. Ou seja, se a produtividade for boa, em torno de 70 sc/ha, e o faturamento alcançar cerca de R$ 5 mil por hectare, descontados todos os custos, a receita líquida será de R$ 1.250,00. Com a noz-pecã, o faturamento por hectare está em torno de R$ 14 mil, com receita líquida de no mínimo R$ 7 mil. “São cerca de dez anos pra começar a produzir comercialmente. Então, com a soja ganho rapidez para ter capital de giro. Já com a noz, é preciso um pouco mais de paciência”, comenta.

Carlos Scheibe explica que, ao todo, são 503 hectares de grãos, dos quais 358 para soja e 145 para o milho e 33% da área deste cereal é para a rotação com a soja. Para a noz-pecã até agora são 32 hectares (5.200 mudas). “Por enquanto, os grãos financiam a noz porque até começar a produção só há custos. Por isso, muitas pessoas acabam desistindo”, diz. O plano do produtor é obter cerca de duas toneladas da noz por hectare. Se fizer a irrigação, a expectativa é aumentar a produtividade para três toneladas. “Estou projetando as primeiras colheitas a partir de 2018”. (veja vídeo de colheita da noz no www.portalklff.com.br)

O pomar II, plantado quatro anos depois, deve começar a colheita em 2022. “Depois de errarmos muito, tivemos a assessoria e consultoria de uma empresa especializada, a Paralelo 30, que nos passou um roteiro detalhado com os passos para o preparo do terreno onde, depois de concluídas todas as etapas, fizemos a implantação de mais 700 mudas em 2013 e 3800 em 2014”, conta Scheibe.

De acordo com o produtor, a nogueira-pecã também é uma cultura que pode ser agregada a outras atividades. Nos primeiros anos do pomar é possível fazer o consórcio com produção de sementes de forrageiras, milho e melancia, entre outras culturas. Já na fase adulta das árvores, é possível também integrar com gado de corte, leiteiro e ovinos. As nogueiras, por fazerem parte de uma cultura perene, ultrapassam gerações, o que pode oferecer estabilidade e rentabilidade. Com a manutenção adequada, a planta é capaz de produzir por mais de 70 anos. Além disso, contém vários nutrientes, minerais, antioxidantes e vitaminas que oferecem muitos benefícios para a saúde.

No Brasil, há um mercado ascendente da noz noz-pecã porque o país produz apenas 10% dos frutos que consome, segundo a Paralelo 30, empresa especializada na produção de mudas, nozes e que presta a assistência técnica. Ainda de acordo com a empresa, com solo e climas favoráveis, o Brasil tem plenas condições de expandir a cultura da noz-pecã e diminuir a dependência da importação que, nos últimos cinco anos, chegou a U$ 167 milhões em noz chilena.

 

Grão-de-bico 

Investir na diversificação de culturas em relação às tradicionais como soja, milho, trigo e arroz é uma tradição para a Agrícola Ferrari, com sede em Passo Fundo (RS). O início foi em 1998 com a produção e comercialização de milho-pipoca e, nos anos seguintes, a empresa passou a desenvolver os mercados de girassol, canola, aveia, painço, feijão, linhaça, milho branco e outras. “Nosso objetivo é justamente promover no território nacional a produção de culturas que geralmente são importadas. Por isso, há dois anos identificamos a oportunidade de iniciar um estudo sobre a viabilidade da cultura de grão-de-bico no Brasil”, afirma Vinicius Ferrari, diretor geral da empresa.

Segundo ele, o grão-de-bico é uma cultura bastante promissora. “No Brasil, o mercado é de 11 a 12 mil toneladas que são 100% importadas. No entanto, é a oleaginosa mais consumida do mundo, só perdendo para a soja. Países do Oriente Médio e Índia são grandes consumidores e somados a outras regiões resultam em uma demanda global de cerca de 20 milhões de toneladas anualmente”, afirma Ferrari. A estimativa é obter uma safra em escala comercial e, em 2019, já atender ao mercado interno com a produção da unidade da empresa em Campo Novo do Parecis (MT).

Nos últimos dois anos, a empresa fez testes em 60 hectares no Centro-Oeste, região que possui todas as condições climáticas necessárias para a produção de grão-de-bico – baixa umidade e altas temperaturas. Ferrari explica que contou com a parceria da Embrapa Hortaliças para desenvolver a pesquisa e a adaptação de variedades. “Dividimos em três áreas de 20 hectares e em três períodos diferentes para descobrirmos as melhores condições para o desenvolvimento do grão-de-bico”.

Além das boas condições de solo e clima para produção do grão-de-bico em Campo Novo do Parecis, o custo de produção é bastante atrativo, se comparado com o milho. De acordo com Ferrari, a expectativa é colher 1,5 mil quilos por hectare, com o custo médio de produção do grão-de-bico de R$ 1,2 mil por hectare e obter um faturamento de R$ 3 mil por hectare. Se comparar com o milho no cenário atual no Mato Grosso seria necessário colher 138 sacas por hectare (8,2 mil quilos), sem contar o custo de produção, só para empatar com o grão de bico. “Almejamos também que algumas lavouras ultrapassem os 2 mil quilos de grão-de-bico por hectare, subindo assim a relação custo-benefício”, avalia.

Em relação à logística, para embarcar em Paranaguá/PR o produtor teria um custo 4,8 vezes menor para o grão-de-bico, se comparado com o milho. A conta considera uma produção de 1,5 mil quilos por hectare do grão ao custo do frete de R$ 450,00 por hectare colhido. No caso do milho, com a média de 7,2 mil quilos por hectare, o frete representa R$ 2.160,00.

Sobre a rotação e janelas de plantio, Ferrari explica que o grão-de-bico não concorre com o milho, pois a janela de plantio do milho safrinha é de janeiro até 20 de fevereiro. Já o grão-de-bico é de 20 de fevereiro a 15 de março, ou seja, o produtor pode plantar todo o milho que quiser na época correta e depois plantar grão-de-bico também no período certo. “O que é muito importante para diversificar sua lavoura”, sugere.

Além de ser consumido mundialmente, Ferrari diz que os clientes no exterior que trabalham com a importação de milho pipoca também demandam grão-de-bico. “A partir de uma análise geral de qualidade e canais de vendas, podemos afirmar que o grão-de-bico tem viabilidade para se tornar uma opção no portfólio do agricultor e alcançar, dentro de algum tempo, o mesmo sucesso do milho-pipoca”, afirma.

Ele conta que a empresa começou a trabalhar com o milho-pipoca por acaso. “Em 1998, um produtor foi até a agropecuária fazer compras para a fazenda, e comentou que tinha plantado cinco hectares de pipoca e não conseguia vender. Pedi uma amostra e a encaminhei a um atacado da região”, diz. A amostra foi aprovada e assim ocorreu a primeira venda.

A partir dessa primeira venda, ele resolveu fazer uma pesquisa de mercado e identificou que a pipoca era toda importada da Argentina e que tinha bastante espaço para atuar nesse nicho. “Há 15 anos, o Brasil importava milho-pipoca de países como Argentina e Estados Unidos. Hoje, não somente deixamos de importar como exportamos para vários países e somos altamente competitivos no mercado internacional, com qualidade superior e melhores preços”, ressalta.

A Agrícola Ferrari conta com uma área total de 60 mil hectares divididos entre as unidades no Rio Grande do Sul e Mato Grosso. A empresa se preparou tecnologicamente para seu plano de negócios voltado à exportação de pipoca e outros produtos. “Já exportamos canjica de milho branco, pois também somos os maiores originadores e temos moinho. Neste ano começamos um processo de descasque de aveia branca no Rio Grande do Sul, que já está em plena produção”, afirma.

Culturas de inverno

Como alternativa para rotação com a cultura do trigo, o produtor Antonio Temes, de Giruá (RS) optou pela linhaça. O grão é plantado em 50 hectares, já que o manejo com adubação e maquinário  é bastante compatível com o trigo. “A vantagem em optar pela linhaça é a estabilidade do mercado. É uma cultura sustentável e no ano passado o saco foi vendido a R$ 90,00. Outro ponto positivo é que ela melhora a produtividade do trigo no ano seguinte”, diz. No verão, o produtor planta 100 hectares de soja.

Outra opção para cultura de inverno é o centeio. Segundo Alfredo do Nascimento Junior, pesquisador da Embrapa Trigo, para reduzir os riscos com estiagens no verão, é preciso investir em culturas de inverno que ofereçam maior volume de palha. “Experimentos mostram o melhor desenvolvimento da soja sobre palhada de centeio porque o volume de palha cobre completamente o solo durante o déficit hídrico nos meses de dezembro a janeiro”, diz Alfredo. O pesquisador aponta que, para garantir a cobertura no inverno e a recuperação de solos degradados, uma das principais alternativas é o centeio, espécie rústica, bem adaptada a solos fracos e arenosos.

Outra vantagem ao optar pelo centeio é o melhor controle de ervas daninhas nas culturas de verão como soja e milho. O pesquisador explica que, pelo fato de ter uma boa cobertura de palhada, a erva daninha não suporta o rigoroso sombreamento, dificultando o crescimento e desenvolvimento da planta. “O centeio produz compostos químicos que prejudicam a germinação de sementes e o desenvolvimento das invasoras, o que leva à diminuição da erva daninha. É possível reduzir entre uma e duas aplicações de herbicidas nas culturas de verão. Além de ser mais sustentável ambientalmente, diminui o custo de produção com menos aplicações”, observa.

Nascimento Junior ressalta que, em relação à soja, depois de dessecar ou fazer o rolamento do centeio, é possível semear a leguminosa. No entanto, com o milho o manejo é diferente. O pesquisador alerta que é necessária uma janela de 20 dias para iniciar a semeadura do cereal, depois que o centeio é retirado da área. “Não cumprir esse prazo pode afetar entre 20% e 30% o desenvolvimento inicial das plantas de milho”.

Na alimentação animal, a vantagem do centeio é o bom volume de massa verde, o que torna a cultura atrativa como forragem, através de pastejo ou produção de feno. "Se a intenção de cultivo for alimentação animal ou cobertura de solo através da produção de massa verde, a semeadura poderá ser realizada logo após a colheita da soja, no final do mês de março até abril/maio, antecipando a semeadura", explica o pesquisador.

O centeio possui grande resistência ao frio quando comparado a outros cereais de inverno, podendo fornecer pastagem de boa qualidade ao gado, principalmente de leite, no período crítico para as outras forragens. O centeio é cultivado no período de entressafra (abril/outubro) e o produtor consegue obter renda e fazer a reposição de nutrientes no solo.

Outro nicho de mercado para o produtor que optar pelo centeio é o de produtos funcionais, já que a indústria tem apostado em pães de 5, 7 e 12 grãos (diferentes espécies) para oferecer alimentos mais completos ao consumidor final. “O centeio é uma boa fonte de fibras, o que proporciona o bom funcionamento do sistema digestivo. Desta forma, as grandes empresas estão em busca por esses produtos. É muito difícil encontrar um pão com 12% de centeio, pois hoje o percentual chega a no máximo 6%”, afirma Alfredo Nascimento. Segundo ele, números oficiais apontam para uma produção de 4,6 mil toneladas em uma área cultivada de cerca de 4 mil hectares. Entretanto, aponta o pesquisador, a área pode ser bem maior devido a não contabilização de áreas usadas para cobertura vegetal/pastejo ou para produção com recursos próprios.





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