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30/04/2018

Erva-Mate: Desafio para se manterem na atividade

Com retração no consumo e preços baixos, agricultores se organizam para fortalecer a cadeia produtiva

Erva-Mate: Desafio para se manterem na atividade

Dependendo do local a bebida é chimarrão, tereré ou simplesmente mate. Mas independentemente de como se bebe, quente ou fria, os produtores de erva-mate enfrentam o desafio de se manterem na atividade com a redução em torno de 30% do consumo e preços abaixo de R$ 15,00 por arroba posta na indústria. “É uma cultura que, se for bem manejada, de forma sustentável, apresenta boa remuneração. No entanto, o momento é pouco atrativo para o agricultor, devido à retração do consumo, influenciado pela crise em curso”, explica Valdir Pedro Zonin, presidente do Ibramate (Instituto Brasileiro da Erva-Mate). 

O mercado que movimenta direta e indiretamente cerca de R$ 4 bilhões por ano em toda a sua cadeia produtiva passa por um momento nada sedutor para o produtor. “Depois do boom com ótimos preços entre 2012 e 2014, que motivou muitos produtores a investirem na erva-mate, agora a remuneração está pouco atrativa. No meu caso, que faço o consórcio com eucaliptos, a produtividade tende a diminuir ainda mais devido ao maior sombreamento na erva”, diz Jovani Bringhenti, que planta 2,5 hectares de erva-mate, 3,5 hectares de eucalipto e mais 35 hectares de soja, milho e trigo em Chapecó/SC. No período crítico de baixa de preços, por volta de 2004, resolveu diversificar a cultura de erva-mate e plantou o eucalipto.

Segundo ele, o principal cuidado no manejo da erva-mate é o controle de plantas daninhas e a poda no período certo para o melhor desempenho da árvore. “É uma cultura com safra o ano todo e o melhor período é de maio até meados de agosto, quando há máxima maturação das folhas”, afirma Bringhenti. O produtor diz que, no passado, havia perspectiva de expansão da demanda da erva-mate para a venda externa por grandes empresas multinacionais, mas essa tendência não se concretizou.    

Nos últimos dois anos a exportação brasileira permaneceu estável, em torno de 43 mil toneladas, equivalente ao valor de US$ 80 milhões, de acordo com o presidente do Ibramate. O principal destino da erva-mate exportada pelo estado do Rio Grande do Sul é o Uruguai, com 27,09 toneladas, o que representa 96,62% do total das exportações.

Os maiores importadores são Chile, Espanha, Estados Unidos e Turquia, com respectivamente 1,57, 0,59, 0,38 e 0,31%, sendo que outros nove países importadores representam 0,53%, ou seja, 148.947 quilos. Entre os municípios gaúchos, o maior volume de exportação foi o de Encantado, com mais de 19 mil toneladas exportadas, equivalente a 69% do total exportado no Estado. O segundo maior exportador é o município de Barão do Cotegipe, empatado com Nova Prata, ambos com pouco mais de duas mil toneladas. “Os números nos mostram forte dependência com o mercado uruguaio – país com o maior consumo per capita de aproximadamente 10 kg - e que há um potencial mercado nos demais países importadores onde podemos crescer em exportação”, avalia.

Para Zonin, há um vasto potencial de exportação de erva-mate, derivados e congêneres, principalmente na Europa, Estados Unidos, Ásia e África. “O mundo está despertando para as bebidas naturais e a erva-mate é a planta mais completa do planeta nos aspectos medicinais, farmacêuticos, nutritivos e estimulantes. Temos vasto potencial de crescimento também nos demais estados brasileiros, basta que reduzam suas taxas tributárias para o ingresso da erva-mate. Essas taxas variam de 20 a 30% do valor final”, afirma.

De acordo com o presidente do Ibramate, quatro grandes desafios envolvem a cadeia produtiva da erva-mate: organização e fortalecimento dos elos da cadeia produtiva nacional da erva-mate; criação e/ou fortalecimento das políticas públicas necessárias nos estados produtores (RS, SC, PR e MS); criação de legislação nacional e nos estados, específica para a erva-mate e a divulgação dos benefícios do produto final e expansão nacional e internacional do consumo da erva-mate, derivados e congêneres.

 

Agricultura familiar 

No Mato Grosso do Sul, onde a erva-mate é consumida como tereré (infusão da planta em água fria), o desafio é a grande oferta do produto e o menor consumo. “O estado já foi um grande produtor, mas com a baixa remuneração muitos agricultores desmataram para plantar soja”, diz Paulo Cesar Benites, presidente do Sindimate (Sindicato das Indústrias e Produtores de Erva-Mate do Mato Grosso do Sul).

De acordo com Benites, a remuneração tem ficado estável nos últimos três anos já que a oferta de matéria-prima está maior que a demanda. Benites conta que, devido ao cenário pouco atrativo, poucos produtores mantiveram os ervais nativos e muitos deles fazem a integração com lavoura e pecuária, já que a erva-mate é uma cultura perene, com tempo médio de produção entre 50 e 80 anos. “Hoje são cerca de 50 produtores no estado, mas a ideia é incentivar, por meio de um projeto do governo estadual, a agricultura familiar e ampliar a participação e chegar a 200 pequenos produtores”, diz

No Brasil, segundo o Ibramate, a estimativa é de uma produção de 800 mil toneladas de matéria-prima, produzida em cerca de 90 mil hectares, envolvendo aproximadamente 500 indústrias, 200 viveiros e 40 mil agricultores. Dados do instituto apontam ainda que nos estados de clima temperado e frio como Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, o consumo é de chimarrão, já nos estados quentes como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás o consumo é de tereré e no Rio de Janeiro toma-se o mate gelado. “Para atender a esse mercado cativo de cerca de 150 milhões  de potenciais consumidores é necessário promover e criar o hábito de beber mate”, afirma Valdir Zonin, presidente do Ibramate.

Para ele, as expectativas para o setor são muito positivas. “Dependerá, no entanto, de avançarmos em legislação e políticas públicas para termos mais "poder de fogo" e fazermos as divulgações necessárias. Para isso, estamos trabalhando junto à Frente Parlamentar Nacional da Erva-Mate. Já apresentamos solicitações para criação do Padrão Nacional do alimento Erva-Mate, plantio e manejo em sistemas Agro-Florestais, redução do Pis-Cofins  e  inclusão da gastronomia com erva-mate nas políticas públicas institucionais”, afirma Zonin.Segundo ele, também tramita no Congresso Nacional projeto de lei que institui a Política Nacional da Erva-Mate. “Certamente, nos próximos dois anos, teremos muitas novidades benéficas à cadeia e aos consumidores”, avalia.

 





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