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20/04/2016

El Niño impacta agricultura e traz cenário adverso

Enquanto a região do Matopiba pode ter quebra significativa na produção, lavouras no Sul do Brasil indicam boa produtividade

O clima foi cruel com parte dos produtores na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Alguns fizeram até replantio da soja. Conforme a Embrapa, o Sul do Maranhão certamente terá uma das piores safras dos últimos anos, interrompendo um processo de aumento constante da produção. No Mato Grosso, dentro do próprio Estado, a adversidade climática trouxe simultaneamente prejuízo para alguns e ótima produtividade para outros. No Sul, tudo indica que será uma boa safra de milho e soja. Ou seja, o fenômeno climático El Niño trouxe instabilidade na produção de grãos brasileira, mas, mesmo assim, o volume previsto é de 210,5 milhões de toneladas nesta safra 2015/16 – conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume é 1,4% maior que a safra anterior, o que significa um acréscimo de 2,8 milhões de toneladas.

A região Nordeste do Brasil, que concentra os Estados produtores do Matopiba, vivenciou vários problemas com o desenvolvimento das lavouras nesta safra 2015/16. Segundo Nedi Luiz Mattioni, agrônomo e gerente de produção da fazenda Condomínio Irmãos Gatto, nos 15,4 mil hectares de soja cultivados em Luis Eduardo Magalhães e Barreiras, no Oeste da Bahia, o plantio foi realizado com dificuldades devido à estiagem de novembro e dezembro, havia pouca umidade disponível no solo para a germinação e, com isso, o estabelecimento da cultura.  “Na colheita, a expectativa é de chuva, conforme as tendências mostradas pelos institutos de previsão climática, o que afetará o desenvolvimento e qualidade das sementes colhidas”, avalia. 

Com esses problemas, a estimativa é de uma produtividade reduzida, principalmente devido às irregularidades da lavoura provocadas pela estiagem no início do desenvolvimento da cultura, chuvas em excesso em janeiro e falta de chuva em fevereiro. “Calculo uma perda ao redor de 10 sacas por hectare”, afirma Mattioni.

Conforme Evaristo de Miranda, doutor em ecologia e chefe geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, houve atraso nas chuvas de verão e choveu pouco no final de 2015 nas regiões do Matopiba. Isso dificultou o início do plantio da safra de grãos, sobretudo da soja, no Sul do Maranhão e do Piauí. “Choveu apenas algo em torno de 50 milímetros em dezembro passado. O impacto dessa situação climática é tanto mais severo quanto menor o nível de mecanização do produtor. O período da janela de plantio se reduziu muito. Em certos casos, os agricultores trocaram a soja pelo milho”, avalia. As piores perdas são as dos produtores que plantaram cedo. Quem plantou mais tarde ainda pode se ajustar melhor em termos de variedades, ciclo e calendário.

Mattioni conta que o plantio da soja teve início atrasado, com paralisações por falta de chuva, dificuldade de estabelecimento da lavoura, replantio acarretado pela pouca umidade e qualidade ruim de semente. “Foram necessários o replantio em 10% da área para correção de áreas com stand muito baixo e o aumento das aplicações de fungicidas e inseticidas. Isso acarretou elevação do custo de produção. Além disso, cresceu a incidência de pragas e doenças, devido à pouca chuva do início da safra e excesso de chuva no mês de janeiro”, diz.

No Piauí, Alexandre Favaro foi obrigado a replantar 1,1 mil hectares de milho onde é gerente da Fazenda Tangará da Serra, em Sebastião Leal. Ele conta que houve frustração no plantio devido à estiagem de 38 dias e que ainda não havia começado a colher no final de fevereiro. “Essa falta de chuva deve resultar numa colheita menor, entre 30 e 40 sacas em relação à safra passada”, avalia. Para o produtor, esta foi a pior safra até o momento. “Foi muito tempo sem chover em dezembro. Mas sempre penso em um ano melhor do que o outro. Vamos seguir em frente”, diz.

Em relação ao manejo, Favaro conta que tentaram formar palhada, mas não choveu o suficiente e não foi possível obter bons resultados. Outro impacto do clima na lavoura foi o aumento de pragas. “No entanto, conseguimos controlar bem as doenças. O problema também foi a elevação do custo de produção, uma vez que foi necessário o replantio não planejado do milho”, afirma.

Já para a próxima safra, o clima continua a ser um ponto de atenção para os produtores. Segundo Miranda, em breve haverá uma transição climática com o final do fenômeno do El Niño. Ele explica que, de certa forma, em 2016, cada estação do ano estará sob a influência de um fenômeno climático diferente. “Alguns meteorologistas acreditam que, neste ano, o frio deve chegar mais cedo”, afirma. Os modelos climáticos, analisa Miranda, projetam o início de uma nova fase de águas frias sobre o Oceano Pacífico equatorial, com indicativo da provável configuração de um episódio de La Niña. Os fenômenos El Niño de 1997/1998 e de 1982/1983 foram substituídos por um La Niña no segundo semestre. O último La Niña aconteceu entre 2010 e 2011.

Para Miranda, os agricultores e a pesquisa agropecuária têm a responsabilidade de aproveitar as crises e os extremos climáticos para instrumentalizar os processos de adaptação. Existem alternativas tecnológicas capazes de aumentar a sustentabilidade da produção frente às variações climáticas. “Elas precisam ser aperfeiçoadas tecnologicamente e melhor ajustadas em suas aplicações aos diversos sistemas de produção e regiões. A ampliação da irrigação, da eletrificação, da mecanização rural, da armazenagem nas fazendas, a melhoria da logística e do seguro rural, quase inexistente, seriam um enorme avanço frente às incertezas climáticas presentes e futuras”, observa.

Adversidade no Mato Grosso
Já os produtores do Mato Grosso vivenciaram vários desempenhos de produção numa mesma safra. A região Leste do Estado apresentou, na época do plantio, grande irregularidade na distribuição das chuvas, provocada pelo fenômeno El Niño. “A região Norte também teve problemas irreversíveis com a seca, alguns produtores chegaram a perder 7 sacas por hectare, outros perderam toda a lavoura. Os impactos foram tão pontuais que em alguns casos num mesmo talhão houve problemas e bons resultados”, afirma Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja-MT.

Ao mesmo tempo, as regiões Oeste e Sul do Estado foram pouco afetadas pelo clima, o que na média deve resultar numa safra maior que a do ano passado. A previsão é de alcançar 28,5 milhões de toneladas ante 27, 8 milhões da safra passada. “Avaliamos que as colheitas precoces produziram menos, mas as de ciclo médio e tardio estão produzindo acima do esperado”, diz Dalcin. A expectativa é de uma produtividade média de 51,6 sacas por hectare.

Em relação aos problemas de pragas e doenças, os produtores mato-grossenses tiveram problemas com a mosca branca devido ao tempo mais seco na região Norte do Estado. “A praga trouxe alguns prejuízos devido à dificuldade do controle e também tem crescido ano a ano”, explica Dalcin. Já a ferrugem asiática foi menos agressiva no Mato Grosso, ao contrário das regiões mais ao Sul, que sofreram com a chuva em excesso, assim como o Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Para apoiar o produtor e para que ele não saísse da atividade em função das possíveis perdas com o clima, a Aprosoja-MT fez uma série de recomendações. Dalcin explica que já era prevista a chegada do fenômeno El Niño. Desta forma, foi sugerida cautela no plantio, acompanhamento da umidade do solo e que os produtores não arriscassem o cultivo em áreas mais arenosas. “Orientamos que fizessem fotos e laudos de acompanhamento agronômico das lavouras e documentassem todas as perdas para que nós pudéssemos apoiá-los”, afirma.

Bons rendimentos no Sul
Até fevereiro, as lavouras do Rio Grande do Sul apresentaram boas condições tanto para o milho quanto para a soja. “Tudo indica que teremos bons rendimentos nesta safra, uma vez que as culturas de verão de sequeiro foram beneficiadas com as chuvas abundantes”, afirma Alencar Paulo Rugeri, engenheiro agrônomo da Emater-RS. Segundo ele, o Estado costuma sofrer com o déficit hídrico, mas com o El Niño, que trouxe maior volume de chuvas, a expectativa é de boa produtividade dos grãos.

Em relação a doenças como a ferrugem asiática, a umidade não causou grandes problemas. “Os produtores foram orientados a fazer o controle da doença e, por isso, não tivemos grandes dificuldades. Eles optaram por tecnologias de qualidade e produtos com alta eficiência”, diz. A recomendação foi intensificar as aplicações a partir de 20 de dezembro para o melhor controle e reduzir as possíveis perdas com doenças e pragas. Já o trigo, afirma Rugeri, teve outro cenário em função do fenômeno climático. “Isso confirma que épocas de El Niño não são boas para o trigo e o arroz. As dificuldades começam no plantio com umidade excessiva”, avalia.

Impacto em todas as regiões
De acordo com Evaristo Miranda, da Embrapa, o fenômeno El Niño afeta quase todo o Brasil. Ele explica que, nas regiões Sul e Sudeste, no caso das lavouras de inverno (trigo, outros cereais e fruticultura de clima temperado), o excesso de umidade comprometeu a produtividade. “Trouxe problemas para o plantio e o desenvolvimento das culturas de verão, como o arroz”, observa. O alto volume de chuvas prejudicou seriamente as lavouras de arroz do Paraná (Querência do Norte), do Rio Grande do Sul e também as lavouras de países vizinhos do Mercosul.

No caso da soja, acrescenta Miranda, a abundância de chuvas provocou atrasos e dificuldades no plantio e nas aplicações de fungicidas, inseticidas e herbicidas, afetando a produtividade. Na região de Campo Mourão, no Centro-Oeste do Paraná, estima-se uma quebra na produção da soja de 15%. “Não há números consolidados sobre a safra ainda em curso, nem sobre as perdas efetivas na região Sul. Por outro lado, os altos índices pluviométricos favoreceram as pastagens e a pecuária leiteira, contribuíram para recuperar as reservas hídricas em solos, lençóis freáticos, açudes e barragens do Sul e Sudeste”, avalia.

Segundo Miranda, nas regiões mais ao norte do Centro-Oeste faltaram chuvas nas fases finais do ciclo da soja, o oposto do que ocorreu nos polos produtivos de grãos no Paraná e Rio Grande do Sul. Contudo em Minas Gerais quase não ocorrem problemas. Segundo a Conab, a produção mineira da oleaginosa atingirá o recorde de 4,33 milhões de toneladas, volume 23,6% superior aos 3,5 milhões de toneladas geradas na safra 2014/15, em que pese uma pequena redução na área plantada. “O Ministério da Agricultura e a Embrapa têm acompanhado tudo isso de perto e realizado reuniões nas principais regiões afetadas. A maior preocupação é levantar as perdas e seu impacto sobre a renda dos agricultores”, avalia.

Um fenômeno climático cíclico
O El Niño, que é provocado pelo aquecimento do oceano e enfraquecimento dos ventos, tende a se alternar em cada 3 a 7 anos. Segundo Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o fenômeno climático traz como consequência os dois extremos: chuva em excesso na região Sul do Brasil e seca em regiões como o Matopiba, além do aumento de temperatura de uma maneira geral em todo o país – em especial a região Sudeste.

O pesquisador explica que o fenômeno traz mudanças da circulação da atmosfera, o que acarreta variações nas distribuições das chuvas em todo o Brasil. Desta forma, ele recomenda aos produtores que façam um bom acompanhamento das condições climáticas da região onde mantém a atividade. “Eles devem monitorar os boletins climáticos e, a partir dessas informações de padrão de chuvas e temperaturas, tomar a melhor decisão sobre o momento de plantio e colheita”, diz. No entanto, o fenômeno dura em torno de um ano, o que permite aos produtores planejar melhor a próxima safra.

De acordo com Miranda, da Embrapa, o El Niño de 2015-2016 é comparável aos ocorridos em 1982-1983 e 1997-1998, talvez com uma intensidade um pouco menor. Os efeitos são diversificados em função das regiões, mas também variam com o tipo de agricultura. “Quanto mais tecnificada a agropecuária, menor o impacto do fenômeno. A seca provocada pelo El Niño em 1982-1983 no Nordeste, por exemplo, teve impactos maiores do que nos dias de hoje. Naquela época, a área irrigada e as extensões com agricultura mecanizada eram muito menores do que atualmente”, explica. Segundo ele, o fenômeno altera as condições tanto das lavouras de inverno no Sul e Sudeste, como das de verão em boa parte do Brasil. O auge do fenômeno atual já ocorreu no final de novembro. Agora se assiste a um declínio na sua intensidade e ele deve terminar no início do outono.


Fonte: Revista KLFF - 12ª Ed.


 






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