Publicações

25/10/2017

De olho no mercado de produtos Kosher

Somente nos Estados Unidos, esses alimentos industrializados movimentam anualmente US$ 150 bilhões e atingem não apenas o judeu observante, mas o consumidor em geral preocupado com segurança alimentar

De olho no mercado de produtos Kosher

Poucos pecuaristas brasileiros sabem, mas seu gado pode ser abatido para abastecer um mercado que cresce internacionalmente: o de alimentos industrializados Kosher. Somente os Estados Unidos respondem hoje por 62% dos novos produtos certificados Kosher lançados anualmente no mundo. E os consumidores judeus observantes (judeus ortodoxos, que seguem estritamente a lei judaica) respondem por apenas 8% do consumo de alimentos industrializados Kosher (não somente cárneos), em um país onde se atinge a marca de 200 mil alimentos industrializados certificados com esse selo, disponíveis no varejo, e uma movimentação anual de pelo menos US$ 150 bilhões. Isso de acordo com dados da companhia norte-americana Packaged Facts, que publica pesquisas de mercado sobre produtos de consumo desde 1960.

Segundo o consultor da indústria de carnes, Felipe Kleiman, especialista em abate e processamento de carne Kosher, o selo Kosher tem auxiliado na consolidação de marcas no mercado americano, emprestando seu prestígio. “Em 1911, a Procter & Gamble já fazia publicidade do diferencial do selo Kosher estampado em seus produtos. A Heinz tem produtos certificados desde 1923. Coca-Cola, Cream Cheese Philadelphia, Chocolates Godiva, Hellmann’s, Jack Daniel’s, Listerine, Perrier, Nestlé, Quaker, Hershey’s, M&M, Red Bull, Oreo, Amarulla e inúmeras outras marcas que conhecemos possuem selo Kosher naquele mercado. Frequentemente esse selo é associado a produtos premium.”

Conforme Kleiman, o crescimento do mercado de alimentos Kosher é maior que qualquer outra tendência de consumo. Em 2016, foram lançados 8.985 produtos Kosher nos Estados Unidos, ante 3.011 produtos orgânicos naquele país. O The New York Times publicou um artigo sob o título ‘Mais pessoas escolhendo Kosher por saúde’, citando uma pesquisa de 2010 que revela que 62% dos consumidores que buscam alimentos Kosher o fazem por razões de qualidade. A maioria dos consumidores é de muçulmanos, adventistas do Sétimo Dia, veganos, pessoas com alergias ou intolerância a determinados alimentos e tantos outros perfis de consumidores que pagam mais por esses alimentos.

De acordo com o consultor, portanto, a importação Kosher tem relevância nos Estados Unidos, não somente para a comunidade judaica, mas para outros consumidores desse país porque esse é um produto considerado confiável, que traz segurança alimentar. E o mercado norte-americano Kosher, afirma, está em expansão principalmente por contada crise de credibilidade dos embutidos em geral, que é grande em todo o mundo. O potencial de mercado a ser explorado pelo Brasil é, conforme Kleiman, justamente o de carne dianteira para embutidos.

“Apesar de a certificação Kosher ser religiosa, ela agrega valor ao produto. Se o rótulo diz que é Kosher, o consumidor acredita na idoneidade e confia para consumo, devido ao rigor para abate e seleção desse produto por parte dos rabinos. Assim, dezenas de milhões de norte-americanos consomem Kosher diariamente independentemente de orientação religiosa”, diz Kleiman, que vem desenvolvendo projetos de carne Kosher no Brasil há 15 anos com os principais players do país e agora amplia sua atuação para o mercado Kosher norte-americano.

Superada a questão dos desdobramentos da Carne Fraca, o consultor acredita que o potencial de vendas para os Estados Unidos é grande por várias razões. “Lá, o abate Kosher vem se inviabilizando há muito tempo, quase não se tem mais onde abater Kosher nos estados unidos em função do perfil dominante de plantas de grande volume e velocidade de abate. E o Brasil é potencial fornecedor dessa matéria-prima porque, em geral, o aproveitamento da carne para Kosher é melhor se resultar de um abate de gado zebuíno robusto de pasto e não de confinamento, perfil que temos para suprir. Além disso, já está extremamente difícil abastecer esse mercado norte-americano existente, que hoje compra do Uruguai e do México, via acordo do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) – ou seja, não disputam cotas conosco – e o Uruguai quase esgotou sua capacidade de fornecimento. A cotaque o Brasil disputa com outros quatro países – Nicarágua, Costa Rica, Irlanda do Norte e Uruguai – para exportação de carne bovina in natura aos Estados Unidos com isenção de impostos é de 60 mil toneladas ao ano. Somente de carne Kosher, o mercado norte-americano consome cerca de 60mil toneladas, segundo os players desse mercado.”

Kleiman lembra que, atualmente, o Brasil exporta fortemente carne Kosher para Israel. “O País tem potencial para comprar mais do que as 14 mil toneladas de 2016. Em 2008, exportamos 34.600 toneladas a Israel, segundo dados do Ministério da Indústria e do Comércio, SECEX e ABIEC. Há ainda o potencial de recuperação do share, aumentando as exportações em 22 mil toneladas,segundo a UN Com trade, Secex/MDIC e Abiec. Então, no momento, explorar o mercado que já se tem pode ser mais importante do que explorar outros. No entanto,os frigoríficos brasileiros atuam em um modelo conservador,cada um vendendo para um único importador de Israel. Ou seja, atendem de maneira reativa ao importador de carne Kosher. É o importador quem agrega valor ao Kosher, não a cadeia da carne brasileira. Defendo, entre as empresas que ainda não atuam nessa área, que produzam e forneçam diretamente aos traders, como supermercados, pulverizando os fornecedores e atingindo resultados financeiros melhores. Elas devem fornecer carne in natura em cortes mais direcionados, porcionados, seja para varejo ou food service, e também industrializados, o que seria uma grande inovação.”

O consultor observa que existem outros países com demandas pequenas de carne Kosher que, nesse modelo tradicional, não são suficientes para mobilizar uma operação de abate desse tipo,mas se os frigoríficos do Brasil atuarem mais ativamente no processo Kosher, com maior número de clientes em Israel, podem atingir diversos mercados no mundo com demandas que variam de 1a 5 contêineres cada um. “Não se pode começar um investimento desse abate sem um mercado. No Brasil, são poucos frigoríficos com estrutura completa de abate e salga dessa carne. Hoje, são 20 habilitados, ou seja, que receberam autorização sanitária das autoridades israelenses, mas aptos e em funcionamento realmente para abate Kosher são sete, de cinco grupos: dois da JBS; um da Marfrig; dois da Minerva; um da Frisa; e outro recentemente habilitado e estruturado, que é o frigorífico Astra, do Paraná. Dos sete, todos operam com exportação e alguns atendem o mercado interno.”

No Brasil, Kleiman cita que 80% dos consumidores de carne Kosher são de São Paulo (capital), seguidos do Rio de Janeiro (com 15%). Os demais são de outras capitais brasileiras, que consomem o produto de forma bem pulverizada.

Conforme Kleiman, o investimento para esse tipo de abate não é baixo. “A carne Kosher é sempre abatida por rabinos, que depois revisam os órgãos do boi em um rigoroso exame de saúde que segue critérios da lei judaica. Antes de desossar, há um procedimento de salgar a carne dianteira. Ou seja, o animal tem que ser degolado corretamente, estar apto internamente e ainda ter seu sangue eliminado pelo processo de salga Kosher porque é proibido seu consumo. Mergulha-se a carne na água, salga, pendura por uma hora e enxágua na água limpa. Para 800 dianteiros em um turno, o investimento na estrutura de salga fica entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões.”

NEGOCIAÇÕES COM ISRAEL

Leonardo Alencar, gerente executivo de inteligência de mercado da Minerva Foods, diz que o abate Kosher é feito em duas das 17 plantas que a empresa opera atualmente no Brasil: uma em José Bonifácio, no estado de São Paulo, e outra em Várzea Grande, no Mato Grosso. “O abate Kosher atende à crescente demanda de carne com esse selo que temos verificado nos últimos anos, não somente entre consumidores judeus, mas também de outros perfis interessados em um produto diferenciado e de qualidade. Acredito que essa demanda é até mais rápida que a própria oferta. Hoje, dispomos de duas unidades com salga, que atendem os contratos de Israel e à comunidade judaica de São Paulo, capital. Como nossos contratos com Israel não vigoram o ano inteiro, ou seja, são negociações pontuais, temos flexibilidade para atender diversos mercados por meio dessas plantas de abate”, explica.

Alencar observa que o abate Kosher é um processo lento e específico que engloba, além da fiscalização sanitária federal padrão, a fiscalização de um rabino, que leva em conta critérios religiosos. “Ou seja, é quaseum serviço de inspeção próprio, feito por Israel, além da supervisão local. Isso traz uma velocidade menor ao processo de abate, que não é tão vantajoso em volume para as empresas que trabalham com esse nicho, apesar de remunerar melhor a indústria, e, como todo nicho, costuma trazer maior rentabilidade ao negócio.”

O gerente lembra ainda que, apesar de o abate Kosher não ser uma questão de matéria-prima, mas de processo, é necessário que essa matéria-prima tenha qualidade, independentemente do mercado que será trabalhada. “Como o foco da Minerva gira em torno de animais de alta qualidade para a produção de carne em vários mercados diferentes, aproveitamos os animais que não recebem o selo Kosher em outros mercados, pois distribuímos a carne que produzimos no Brasil em mais de 100 países.” De acordo com o consultor Felipe Kleiman, para obter melhores resultados no abate Kosher, são necessárias certas premissas. “A carne de dianteiro tem que ser boa. Precisa, portanto, ser oriunda de uma propriedade rural tecnificada, que produza animais mais pesados e jovens, com melhor qualidade genética e sanitária. Em geral, a carne jovem é mais macia e seus animais viveram menos situações que os sujeitassem a doenças. Se rende mais, melhor para o frigorífico porque aproveita mais quilos por cabeça. Quando se tem animal com bom perfil de aproveitamento em função da saúde do pulmão, que é analisado pelo rabino, pode-se chegar a mais de 90% dos animais degolados aptos para consumo Kosher. No Brasil, são várias as propriedades rurais tecnificadas produzindo raças zebuínas, que são mais robustas e tolerantes aparasitas. Por isso, no nosso país, a taxa de aproveitamento é melhor que a média mundial – 80% versus 50 a 60%.” Apesar desse rendimento, a indústria não premia o produtor nacional que alcança esses elevados índices.





Mantenha-se atualizado com o Agro KLFF

Cadastre-se e recebe diariamente as novidades do mercado

2016 Portal KLFF. Todos os direitos reservados.

Termos de uso. Política de privacidade.