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19/02/2016

Cresce área irrigada no Vale do São Francisco

Do início desse sistema, implantado na década de 60, até agora, já são 800 mil hectares de projetos de irrigação privados e 180 mil hectares públicos

O aumento da área irrigada no Vale do São Francisco, estimulado pelos projetos públicos de irrigação, é notório. Segundo dados da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a área privada atingiu cerca de 800 mil hectares desde a década de 60, quando teve início a irrigação. Já a área pública dos projetos da Codevasf, do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) está próxima a 180 mil ha.

Também presente no Vale São Francisco, na Bahia - e com uma produção de 9900 toneladas de uvas por ano - o Miolo Wine Group, um dos maiores do Brasil no segmento, tem a água como um dos componentes fundamentais para o cultivo de videiras. Em especial na região do Semiárido, no Nordeste do Brasil, que tem a irrigação como operação mais importante na produção de uvas nessa região, onde as noites são quentes e a seca é de moderada a forte.

“Temos dois climas muito diferentes: no Sul do Brasil, onde está a outra parte de nossa produção, e no Nordeste. Isso impacta o comportamento das plantas e a intensidade da virulência das pragas”, afirma Ciro Pavan, engenheiro agrônomo do grupo Miolo.

Na Serra Gaúcha (RS), o clima vitícola é temperado com noites frias na região dos Campos de Cima da Serra e noites temperadas na Encosta Superior do Nordeste. O déficit hídrico nos meses da maturação da uva é ocasional. Já na região da Campanha (RS), o clima vitícola é quente com noites temperadas, podendo haver ocorrência de déficit hídrico nos meses de maturação da uva. 

“Sabemos que as doenças da videira são influenciadas pelo regime de chuvas durante o período vegetativo das plantas. O controle das doenças é realizado de modo preventivo de acordo com as previsões climáticas, utilizando-se somente produtos autorizados para o cultivo da videira. A maior parte dos fungos parasitas se beneficia com umidade alta e temperaturas médias a altas, como o Míldio da Videira e as doenças que afetam os cachos. O Oídio beneficia-se com temperaturas médias a altas, com presença ou não de umidade”, explica Pavan.

Apesar da menor vazão no rio São Francisco, decorrente da escassez de chuvas na região Sudeste, o sistema de irrigação do grupo Miolo não foi afetado. “Existe uma preocupação em toda a região, não pela falta d’água, mas com sua captação, pois, conforme relatos oficiais, o nível do rio será bem inferior aos anos anteriores”, diz o agrônomo. Segundo ele, existe um movimento dos governos municipal, estadual e federal para captar recursos necessários à implementação de bombas flutuantes para sucção da água.

“Seguimos orientações da viticultura integrada e de precisão. Utilizamos somente o sistema de condução horizontal latada - também chamado de pérgola e caramanchão - para o cultivo do Moscato Itália no Vale do São Francisco. Para as demais variedades desta região e de todas as cultivadas no Rio Grande do Sul utilizamos o sistema de condução vertical – espaldeira. Temos variedades com boa fertilidade das gemas da base dos sarmentos e nestas utilizamos a poda curta (duas gemas), como em uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir. Nas variedades com boa fertilidade de gemas na região mediana dos sarmentos usamos poda mista com varas de 6 a 8 gemas e esporões de 2 gemas, por exemplo, na Moscato Itália, Sauvignon Blanc, Tempranillo, Viognier, Chardonnay, entre outras”, acrescenta.

Duas safras por ano na Bahia

A produtividade das videiras depende da finalidade da produção, da variedade e do porta-enxerto utilizado, além da fertilidade do solo. “Permite-se uma produção um pouco mais elevada para vinho base voltado a espumantes e moscatel. No sistema de condução em espaldeira não se produz além de 1 quilo a 1,8 quilo de uva por metro quadrado de superfície foliar exposta à luz do sol. Não há variação da produtividade entre a Bahia e o Rio Grande do Sul para as mesmas variedades, mas na Bahia colhemos duas safras por ano”, diz o agrônomo.

Para elaboração de vinhos finos, o índice de produtividade do grupo Miolo é de 4 a 6 toneladas por hectare dos ícones; 6 a 8 toneladas por hectare para Reserva; 8 a 12 toneladas para base de espumante e 15 a 20 toneladas para Moscatel.

Há diferença na produção de uvas para vinho e uvas de mesa. “Procuramos que haja a transmissão das potencialidades em açúcar, acidez, aromas, matérias corantes e taninos das uvas para o vinho. E que acrescentem também a influência do clima e do solo para completar a complexidade e originalidade de cada produto. Nas uvas de mesa realçam-se mais o visual, como a cor, o tamanho das bagas e o sabor”.

Escolha de áreas

Os técnicos do grupo Miolo selecionam as áreas para novos plantios de acordo com a aptidão para o cultivo da videira, levando em consideração a drenagem do solo, a profundidade e a fertilidade média. Sempre é feita uma análise físico-química do solo para avaliação. “Se necessário corrigimos o pH da área com aporte de calcário dolomítico ou calcítico, assim como os teores de fósforo, potássio e matéria orgânica. No Vale do São Francisco temos muito cuidado com a drenabilidade do solo para o escoamento da água da irrigação e chuvas (pois a região é plana), e também com o aporte de matéria orgânica anual ou bianual, já que nesta região temos uma mineralização mais rápida da matéria orgânica devido à temperatura mais alta. Problemas climáticos como o aquecimento global ainda não refletem significativamente na produção de uva. Fenômenos meteorológicos como geadas fora de época, granizos, vendavais e excesso de chuva na maturação podem acontecer e sempre trazem prejuízos sérios”, acrescenta o agrônomo. Segundo Pavan, há possibilidade de aumento da produção por meio da ampliação da área de produção. “Porém, neste momento, em função da estabilização do consumo, estamos em compasso de espera”.

Área pública

Sob a gestão da Codevasf, atualmente estão 32 perímetros públicos de irrigação, que somam um total de 11.494 propriedades (lotes), sendo 1.232 pertencentes a empresas, 10.219 pertencentes a agricultores familiares e 43 destinados a programas e projetos do governo, inclusive para pesquisa agrícola. As áreas juntas somam aproximadamente 150 mil hectares.

O principal sistema de irrigação usado é o de microaspersão (40% do total), seguido pelo de superfície (28% do total), aspersão (17% do total) e gotejamento (15% do total). A Codevasf ainda tem estimulado a substituição dos sistemas de irrigação menos eficientes, como os de sulco (superfície), por sistemas mais eficientes, como gotejamento e microaspersão, por meio do financiamento da elaboração de projetos detalhados, que serão disponibilizados aos produtores. A metodologia disponível no início da irrigação no Vale São Francisco, nos anos 60, em termos de custo e benefício, era a de irrigação por sulcos. Somente a partir de mudanças na concepção dos projetos e na adoção de sistemas coletivos de pressurização, na década de 80, foi possível dar início ao uso de tecnologias de irrigação mais eficientes, contudo mais caras na época. 

No início dos anos 80, um sistema de irrigação parcelar podia chegar a um custo médio de até US$ 8.000/ha. Hoje, os custos de investimento por hectare para os projetos públicos de irrigação, com relação às obras de infraestrutura de uso comum, canais, estradas internas e estação de bombeamento para captação de água, saíram de um patamar de US $ 13.000-15.000/ha para US $25.000-30.000/ha. Isso em razão de vários fatores, como melhoria da qualidade das obras (os canais eram implantados em terra, hoje são revestidos com concreto); implantação de redes de drenagem ainda na execução do projeto (antes eram implantadas após a obra pronta); pressurização coletiva da água captada para redução dos custos de energia individual; implantação de sistemas parcelares adaptados às redes pressurizadas que são mais eficientes apesar de mais caros; atendimento a condicionantes ambientais; regularização fundiária com exigência de georreferenciamento (serviço que antes não era feito); e necessidade de automação dos projetos para poderem aproveitar o incentivo da irrigação noturna.

Com relação aos investimentos nas parcelas, a Codevasf não tem como informar tendo em vista que é uma atividade do produtor. Contudo, recentemente, a Companhia realizou 528 projetos executivos para modernização dos sistemas parcelares de 528 lotes de pequenos produtores que ainda usam o método de irrigação de superfície por meio de sulcos para o método de irrigação localizada, por meio de microaspersão ou gotejamento. Esses projetos representam uma área de 4 mil hectares com um custo total de R$ 39 milhões, o que equivale a R$ 9.750/ha (US$ 3.500 com o dólar a R$ 2,78, novembro/2014). O processo de seleção de agricultores irrigantes nos perímetros públicos de irrigação implantados pela Codevasf segue os procedimentos licitatórios estabelecidos por legislação específica, com a publicação de editais de seleção pública. No momento, não existem áreas passíveis de licitação – ou seja, não há áreas disponíveis para novos empreendimentos licitados pela companhia. Entretanto, por tratar-se de atendimento legal, quando disponível, a Codevasf poderá licitar áreas nas modalidades de alienação ou Concessão de Direito Real de Uso (CDRU). Outra oportunidade de adquirir áreas em perímetros públicos de irrigação é mediante a negociação direta com proprietários que desejam sair do negócio. Os normativos para a ocupação de unidades parcelares permitem a transferência, desde que atendidos os critérios estabelecidos, que passam pela desistência do atual proprietário, indicação de um novo, saldamento dos débitos e assunção dos débitos vencidos, se houver, e a vencer pelo novo adquirente – e finalmente analisados e autorizados pela Codevasf. Porém, a companhia não intermedia as negociações, que deverão ocorrer entre os interessados.

Condições climáticas

O Vale do São Francisco apresenta condições climáticas favoráveis à produção de frutas tropicais devido aos altos índices de radiação solar e às altas temperaturas que, associadas à irrigação, permitem maior produtividade e produção de frutas em épocas fora da estação. Dentre as principais frutas produzidas na região, as que apresentam produtividade superior às médias mundiais dos principais países produtores são a manga e a uva. Em 2014, a produção de manga chegou a quase 350 mil toneladas; a de uva, 210 mil toneladas – representando um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 374 milhões e R$ 632 milhões, respectivamente. Embora a uva seja uma fruta de clima temperado, adaptou-se muito bem ao clima semiárido da região – sendo possível a produção de duas safras por ano no Vale do São Francisco.

A atual demanda de água anual nos 32 projetos públicos de irrigação, que perfazem uma área aproximada de 150 mil ha irrigáveis, é de 2.480.364.879,32 m³/ano. Mesmo com a redução da vazão do rio São Francisco, a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão regulador responsável pela gestão hídrica do rio, não determinou restrição à captação de água para os projetos de irrigação. Mas a Codevasf está atuando para adquirir estações de bombeamento flutuante para não ter que paralisar a irrigação nos projetos públicos de irrigação sob sua gestão.

Produtividade Média dos Principais Produtores de Uva
Principais Produtores Mundiais Produtividade (t/ha)
Mundo 11
1º China 16
2º Itália 11
3º Estados Unidos 20
4º Espanha 8
5º França 7
13º Brasil 18
Vale do São Francisco 24
Perímetros da CODEVASF 43


Em Sergipe, o destaque é para citricultura
 
Sergipe é considerado o quarto maior produtor de citros no Brasil com uma produção de laranjas de 590 mil toneladas em 55,1 mil hectares – conforme levantamento do IBGE em julho de 2015. A base da produção é em sequeiro e produtores utilizam pouco a irrigação. “O Estado tem boas condições climáticas, o que favorece muito a nossa produção. Além disso, temos baixa incidência de pragas e doenças em relação ao Estado de São Paulo (principal produtor de citros), por exemplo, que sofre muito com o greening. Aqui nós não temos esse problema”, afirma Jadilson dos Santos Ribeiro, produtor e engenheiro agrônomo em Sergipe.

Já a mosca negra surgiu há pouco mais de um ano em algumas cidades do Estado. “A praga está se disseminando rapidamente pelos pomares sergipanos de forma descontrolada. Alguns poucos pomares conseguem produzir sem maiores danos, mas cumprindo um rígido programa de combate à praga com pulverizações tecnicamente recomendadas. Mas realmente doenças e pragas são muito bem controladas na região. Além disso, em geral, há um baixo uso de defensivos o que torna a fruta mais atrativa”, acrescenta o produtor. Segundo ele, há poucos resíduos e a fruta é vendida quase natural.

No Sergipe, o plantio da laranja teve início na década de 1970. Ribeiro planta cerca de 30 hectares de laranja-pera com uma produtividade de 30 toneladas/ha e ainda cultiva seis mil pés de seringueira para a produção de látex.

A fruta é produzida em pequenas propriedades entre 5 e 10 hectares. Como a laranja é uma cultura perene, os produtores costumam plantar nas entrelinhas culturas de ciclos curtos como maracujá, mamão, mandioca e feijão, entre outras. Segundo Ribeiro, principalmente para os pomares novos (até três anos), o plantio de outras culturas mostrou-se importante para a renda do produtor. Também ganha espaço entre os citricultores de grande porte o consórcio com o milho, prática importante para amenizar os custos e remunerar melhor a atividade.

Conforme o Ministério da Agricultura, o cultivo de laranja no Brasil se divide em dois períodos distintos. O primeiro, de 1990 a 1999, se caracteriza pelo aumento da produção e conquista da posição de líder do setor. O segundo, a partir de 1999, é o período de consolidação da capacidade e desempenho produtivo. São colhidas, por ano no País, mais de 18 milhões de toneladas de laranja ou cerca de 30% da safra mundial da fruta. Os estados da Bahia e de Sergipe se destacam com 90% de toda área plantada do Nordeste, ou seja, com 71,8 mil e 55 mil hectares, respectivamente.


Fonte: Revista KLFF - 11ª Ed.




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