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24/02/2017

Colheita semimecanizada conquista adeptos

Redução no custo em até 70% atrai cafeicultores e traz vantagens como agilidade e menor estresse da planta

Colheita semimecanizada conquista adeptos

A junção de menor custo com maior qualidade na colheita é o resultado de uma equação perfeita que só ganha adeptos. É o que mostra estudo da Kleffmann com 678 produtores da Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rondônia e São Paulo. O levantamento aponta que 47% dos cafeicultores utilizam colheita 100% mecanizada, 33% semimecanizada e apenas 19% manual. Dos produtores que ainda trabalham apenas com a colheita manual, 9% pretendem mudar de área em declive para um local mais plano com o objetivo de implantar a mecanizada ou semimecanizada.

Para o cafeicultor Júlio César Mendes Romualdo, a opção pela semimecanizada foi sentida diretamente no bolso, com uma redução de 62% nos gastos. “na última safra, colhemos em quatro pessoas o que normalmente seria feito por 20.

Além disso, é possível fazer a poda junto com a colheita, reduzindo o estresse da planta”, afirma. Segundo ele, isso possibilita deixar o fruto amadurecer no pé, já que pode programar melhor o tempo da colheita. 

Júlio César, produtor há 17 anos em Rondônia onde planta 23 hectares de café tipo conilon, acredita que a colheita feita de forma mecânica traz várias vantagens principalmente em relação ao melhor planejamento dos custos. 

Edimar Flegler, cafeicultor da região de Cacoal (RO), conta que este ano também iniciou a colheita com a máquina, que é de seu cunhado. “Melhorou em vários aspectos: diminuímos o tempo da colheita em mais de 60%; conseguimos colher uma quantidade bem maior de café para poder secar de uma vez, sem deixar ensacado e perdendo qualidade; e pudemos colher com as pessoas da família, sem mão de obra externa”, afirma.

De olho nos cafeicultores que estão utilizando a colheita semimecanizada do café, Milton Caffer quer adotar a tecnologia para a próxima safra. “O que me chama a atenção é a facilidade da colheita e a redução dos custos. Então, eu estou muito atento para conhecer bem isso e no ano que vem colocar em prática na minha lavoura”, diz. Os produtores Flegler e Caffer, junto com outros 200 cafeicultores, participaram do workshop de Colheita Semimecanizada de Café Canéfora, realizado em julho, em Ouro Preto do Oeste (RO). O evento foi realizado pela Embrapa Rondônia, Emater-RO e Sebrae.

De acordo com Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia, o sistema de colheita semimecanizada não exige adaptação da lavoura e o retorno é percebido no primeiro ano de utilização do sistema. “Esse tipo de colheita tem apresentado redução de custos que varia de 40% a 70%, quando comparado ao sistema manual. Outro ponto favorável é a melhoria da qualidade, que pode representar ganhos na comercialização”, avalia.

Para o pesquisador, uma das principais vantagens do sistema semimecanizado é que praticamente qualquer lavoura pode se beneficiar desse tipo de colheita. 

Por utilizar um sistema mecânico de recolhimento das lonas, não há necessidade de entrar nas entrelinhas dos cafezais. Alves explica que a máquina, puxada pelo trator, fica nos carreadores e movimenta a lona cheia de ramos produtivos que alimentam o sistema de trilhagem que separa os frutos, ramos e folhas.

No entanto, diz o pesquisador da Embrapa, existem alguns ajustes que podem otimizar o uso da trilhadora no campo e aumentar a sua eficiência como: a distância de entrelinhas não deve ser menor que 2,8 metros, sendo recomendado como ideal o espaçamento de 3,30 metros; as linhas de plantio devem ser compridas e os carreadores permitirem manobras fáceis, lembrando que o comprimento das lonas não deve ultrapassar 80 metros; e o solo dever ser livre de tocos, pedras e as plantas invasoras devem ser roçadas para evitar o desgaste e avaria das lonas. “Como a colheita semimecanizada é baseada na trilhagem dos ramos podados contendo frutos, é necessária a atenção ao manejo das podas (de ciclo e anual) e a desbrota.
Mas esse já é um manejo recomendado para o café canéfora (conilon e robusta) independentemente do sistema de colheita adotado”, afirma.

Alves explica que a diferença entre os tipos de colheita é que, na manual, ocorre a derriça dos frutos observando-se o ponto ideal de maturação, que deve ser quando as plantas estiverem com pelo menos 80% dos seus frutos maduros (estádio cereja). Após a colheita, os frutos são enviados para  processamento e/ou secagem. As plantas colhidas têm seus ramos plagiotrópicos (os que produzem frutos) podados para facilitar a renovação da planta. “O problema é que normalmente essa poda é realizada tardiamente ou esquecida. Isso faz com que as plantas desviem nutrientes - que deveriam ir para frutos e brotações – para os ramos que não serão produtivos, ou viáveis, nas próximas safras”, diz.

Na colheita semimecanizada há uma inversão temporal nas atividades de poda e derriça do café. Os ramos plagiotrópicos são podados contendo ainda os frutos. Estes, por sua vez, são colocados sobre a lona e trilhados mecanicamente.

Isso agiliza o processo de recuperação da planta e a poda acontece no momento correto, assim como a colheita dos frutos maduros. Como consequência, existe a probabilidade de maior produção por planta e produtividade na propriedade como um todo. “Não considero que há desvantagem na mecanização, mas há um investimento necessário na aquisição da máquina. De acordo com o modelo, estes valores podem variar de R$ 80 mil a R$ 160 mil, mas, ainda assim, é viável”, observa o pesquisador da Embrapa.

Apesar da mecanização, em diferentes níveis, ser baseada no uso de combustíveis fósseis, pode-se considerar que o processo de mecanização é uma boa opção para o meio ambiente. A colheita mecanizada tem o potencial de aumentar o rendimento por área e reduzir o custo de produção. “Isso diminui a pressão por novas áreas para produção e desmatamento”, avalia Alves. Atualmente, o estado de Rondônia poderia dobrar a sua produção de café apenas utilizando novas tecnologias, sem aumentar a área plantada, com o uso de variedades clonais, irrigação, manejo da poda e mecanização.

De acordo com o pesquisador, do ponto de vista econômico as vantagens são claras, especialmente com a redução de custo.
Quanto mais ajustada ao sistema de colheita semimecanizada for a propriedade, maior a chance de aumento do rendimento da operação e o potencial de redução de custos.

As traders têm preferência por produtos que tenham em si qualidade, sustentabilidade e justiça social.
“Os  sistemas de colheita mecanizada  e  semimecanizada têm a capacidade de ajudar o produtor a atingir  esse tripé indispensável a qualquer  sistema produtivo que  se preze. estes sistemas podem ser considerados socialmente justos por facilitar a vida do trabalhador rural, auxiliando nos trabalhos mais pesados e insalubres, valorizando a sua mão de obra”, acredita.

Para Alves, o sistema é sustentável por permitir melhor utilização por módulo produtivo e menor pressão por abertura de novas áreas. A qualidade fica por conta da capacidade que a colheita semimecanizada dá ao produtor de gerenciar o processo produtivo em um dos momentos cruciais, a colheita.

Nesse momento é que se define o ponto em que o fruto vai exprimir o máximo de sua qualidade, que é intrínseca à sua constituição genética, ambiental e do manejo produtivo. Uma colheita rápida possibilitará a recuperação das plantas e o desenvolvimento a contento de novas safras. “É  sabido que plantas  saudáveis geram  bons frutos, que se colhidos e processados no momento ideal darão origem a produtos de boa qualidade. Esses produtos têm grande aceitação no mercado  e rápido potencial de revenda.  Em resumo, haverá clientes  satisfeitos  e dispostos a pagar de forma justa os produtores dedicados e comprometidos”, afirma.

Para Mário Ferraz de Araújo, engenheiro agrônomo e gerente de desenvolvimento técnico da Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé), a grande dificuldade hoje é a escassez de mão de obra tanto para a lavoura tradicional como na mecanizada. O trabalhador na colheita tradicional é remunerado bem acima do mercado, assim como o trabalhador da colheita mecanizada. “E como é uma mão de obra especializada, o operador da colheitadeira é melhor remunerado em relação ao colhedor da colheita tradicional”, diz.

Ao optar pelo sistema mecanizado, Araújo lembra que além do maquinário, o cafeicultor deverá investir nas estruturas de pós-colheita para agilizar o processo. “Dependendo do volume colhido, o produtor terá o retorno dos investimentos em maior ou menor tempo. Isto é, os investimentos têm que ser feitos de acordo com o porte de cada um”, diz. Basicamente, os cafezais a serem implantados para colheita mecanizada deverão estar em áreas com declividades de até 25% a 30%. Os cafezais deverão ser alinhados e terem espaçamentos compatíveis com a colheitadeira a ser adquirida. “Outro cuidado fundamental é a largura dos carreadores que não pode ser menor que 5 a 6 metros para maior rapidez de manobras”, observa.

Araújo explica que o manejo do café deve ser diferente, já que para se obter uma produtividade que traga retorno financeiro, tanto a lavoura mecanizada quanto a tradicional devem ser bem-cuida-das  com fertilização, corretivos, desbrotas, controle de pragas e doenças e manejo das plantas daninhas. “Afinal, o que importa, de uma maneira geral, para as traders é a qualidade final do produto, que não é afetada pelo tipo de colheita”, avalia.





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