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16/05/2016

Clima atrasa plantio e gera incertezas para segunda safra

No Mato Grosso, maior estado produtor, a estimativa é de volume menor em relação à safra passada

Clima atrasa plantio e gera incertezas  para segunda safra
O  dólar  cotado  em  torno  de R$ 4,00 levou a um recorde nas ex-portações  do  milho brasileiro. Os produtores aproveitaram os bons preços pagos pelo cereal, impulsionados pela alta da moeda americana. No entanto, o desempenho para a segunda safra ainda é uma incógnita. A seca no ano passado, provocada pelo El Niño em diversas regiões no Brasil, acarretou no atraso do plantio/colheita da soja, adiando também a semeadura do milho segunda safra. “As incertezas em relação ao clima nos levaram a estimar uma produtividade menor que a do ano passado”,  afirma  Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja-Mt. Ele calcula que a média nesta safra fique em 95,5 sacas por hectare, ante 106 sacas por hectare em 2015.

Dalcin  avalia  que  o  bom  preço pago pelo milho deve aumentar a área plantada de safrinha e espera-se um total de 3,5 milhões de hectares e previsão de 20 milhões de toneladas de produção do cereal. “No entanto, é preciso que chova entre abril e maio. Caso contrário, possivelmente teremos quebra na produtividade”, acrescenta.

Conforme o boletim do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) da última semana de fevereiro, a janela ideal para semear o milho segunda safra fechou na penúltima semana de fevereiro, quando a semeadura da safra 15/16 atingiu 65%. A área que ficou fora da janela “ideal” foi menos de 35%. segundo o instituto, os produtores aceleraram o ritmo dos trabalhos em campo para semear o quanto antes, mas não foi o suficiente para chegar à média das últimas quatro safras. Em função desse cenário, o risco aumenta em torno da capacidade produtiva das lavouras semeadas após esse período, porque é possível que não haja chuva suficiente para encher os grãos. 

De  acordo  com  o  analista  do Imea, Ângelo Ozelame, a alta do dólar causou aumento das vendas ao exterior. “O preço do milho mato-grossense é muito competitivo, o que trouxe uma boa oportunidade de exportação”, explica. Em relação ao preço, a expectativa é de estabilidade, sem grande alteração, mas a recomendação para o produtor é cautela. “é preciso avaliar muito bem a situação financeira, os custos e gerenciar a fazenda com o intuito de ter uma boa saúde financeira”, diz. 

Ana  Luiza  Lodi,  analista  de mercado da consultoria INTL FC-Stone, avalia que o crescimento da produção do milho na segunda safra e, no ano passado, a forte alta do dólar, abriram espaço para embarques  elevados  do  cereal, superando o mostrado nos dados oficiais. “Apesar de ser factível um alívio dos preços físicos do cereal com a nova safra, o espaço para um  recuo  é  pequeno  em  razão do aperto no balanço de oferta e demanda. Além disso, há possibilidade de novas pressões altistas oriundas de quebras climáticas ou, eventualmente, do mercado externo”, observa. 

Segundo Ana Luiza, o preço no mercado interno traz algumas incertezas em relação ao resultado da safra. “Para esse ano, a tendência é de que os preços continuem fortalecidos até melhor definição do milho segunda safra. No mercado interno, a colheita da primeira safra está cada ano menor”, avalia. A analista observa ainda que, por começar a safra 2015/16 com estoques  menores,  as  perspectivas apontam para um balanço de oferta e demanda bastante restrito, com possibilidade de escassez de produto. “Assim, os preços devem continuar fortalecidos, pelo menos até uma melhor definição da “safrinha”, que poderia acabar superando o alcançado no ciclo 2014/15, dependendo do clima”, diz. 

Na avaliação da analista da INTL FC-Stone, nos últimos anos, o cultivo de milho no verão tem perdido espaço para soja. “Essa tendência gera preocupações, pois o produto da primeira safra é tradicionalmente consumido no mercado interno”, afirma. Ela acrescenta que, nesse cenário, o volume de produção esperado neste primeiro semestre, em torno de 28 milhões de toneladas, não será suficiente para garantir nem a metade da demanda doméstica, situação que deve trazer pouco alívio aos preços internos, mesmo com o avanço da colheita. 

De acordo com Ana Luiza, com uma produção maior na segunda safra, e com a possibilidade de importação de milho de países como Argentina e Paraguai, caso seja necessário, a situação do balanço de oferta e demanda pode ser aliviada.

Em relação ao impacto do preço do milho em outros setores como o de ração animal, nesse início de 2016, já existe preocupação com o impacto negativo desse custo, avalia Ana Luiza. “A expectativa é de aumento de preço da carne de frango. No ano passado, a alta do dólar favoreceu também a exportação da carne, o que equilibrou, de certa forma, o impacto negativo do custo com a ração. Mas se o cenário de preços altos for mantido, a produção de frango poderá ser prejudicada”, calcula. 

Entretanto, segundo Ana Luiza, a relação entre os preços do frango e um custo maior do milho recuou recentemente. Em dezembro de 2015, a conexão entre o preço de um quilo de frango congelado e um quilo de milho era de 8,4. Em fevereiro, essa comparação caiu para 6. uma queda de quase 30%.

“Com isso, os preços da carne de frango devem sofrer aumentos e a produção pode acabar sendo impactada negativamente, mesmo com o contexto de dólar forte, que favorece as exportações”, observa. dessa forma, o consumo de milho para ração um pouco mais baixo que a estimativa atual poderia contribuir para algum alívio da situação de balanço de oferta e demanda apertada. “uma variável de ajuste importante deve ser o nível de exportações brasileiras. A despeito das perspectivas positivas para os embarques brasileiros de milho, com as expectativas de manutenção de um Real mais fraco, as exportações podem acabar sendo um pouco menores que o recorde de 2014/15, buscando-se destinar mais produto ao mercado interno”, acrescenta.

Painel Amis® da Kleffmann consulta produtores sobre o milho verão 

O estudo concluído pela  Kleffmann Group na primeira semana de março reitera a redução de área plantada de milho primeira safra no ciclo 2015/16. Cerca de 20% de  queda  nas  principais  regiões produtoras frente a safra passada. Porém, isso não é uma novidade, já que a área plantada de milho verão vem caindo a uma taxa de 10% ao ano desde o ciclo 2011/12. O Estado do Rio Grande do sul, maior produtor de milho de primeira safra, ilustra bem esse cenário. Na safra 2011/12, a região cultivou quase 1,2 milhão de hectares, enquanto na safra atual a área não chegou a 800 mil hectares. 

Segundo dados da FAO (Organização das Nações unidas para Alimentação e Agricultura) de 2015, o milho é a terceira principal fonte de carboidrato da dieta, ficando atrás apenas do trigo e arroz. A demanda mundial por milho é crescente, tanto pelo aumento da população quanto pelo uso na produção de etanol, iniciada em meados dos anos 2000 pelos Estados unidos, maior produtor mundial. Porém, o aumento de consumo vem sendo suprido, em nível mundial, pela melhoria generalizada na produtividade dos híbridos cultivados. 

Na safra 2011/12, a produtividade média alcançada pelos produtores de milho verão do Centro-sul foi de 95 sacas por hectare em média segundo a Conab, enquanto na safra atual a expectativa é de 142 sacas para o milho grão de acordo com o presente estudo da Kleffmann. Produtividade sempre foi um fator-chave na escolha de 
um híbrido pelos produtores, porém quatro safras atrás, adaptação à região de plantio e recomendação de uso também eram quesitos relevantes. Hoje, com o desenvolvimento da biotecnologia e melhoramento genético, experiência de uso e qualidade da semente pesam mais no momento de escolha do híbrido a ser cultivado, mostrando que os produtores estão se tornando mais tecnificados.

A tecnificação se remete também ao uso mais eficiente da terra e dos insumos. Por conta da redução da janela de plantio para viabilização da segunda safra, aumentou a proporção de uso de híbridos mais precoces, sobretudo na região sul (de 12 para 21% da área de mi-lho grão na safra 2015/16). Além disso, o avanço da biotecnologia alterou a alocação dos custos com insumos. No ciclo 2011/12, 22% da área de milho verão foi cultivada com materiais convencionais, enquanto atualmente a adoção de híbridos não transgênicos representa 12% da área. somando o custo por hectare em reais com semente e defensivos levantados pelo painel AMIS milho verão nas últimas quatro safras (incluindo a atual), a taxa anual de aumento foi de 16%. No mesmo período, a receita do produtor cresceu 15% em virtude do aumento do preço pago pelo milho e pela maior produtividade da lavoura.

A mudança de perfil é evidente: aumento da tomada de decisão pela compra de sementes feita pelo  próprio  agricultor  (82%  da área atual contra 64% da área na safra  2011/12), menor  utilização de  financiamento  para  aquisição de sementes (21% do volume de sementes no ciclo 2011/12 e 14% na safra atual) e aumento do pagamento à vista (65% em 2015/16 vs. 55% em 2011/12). Claro que a diminuição na disponibilidade de crédito afetou a forma de pagamento, mas a melhor saúde financeira do negócio possibilitou que os produtores continuassem investindo na cultura, mesmo com a redução de área.

Assim, os produtores de milho verão se tornaram um exemplo prático de sustentabilidade na prática agrícola, em que se busca otimizar os recursos para melhoria na rentabilidade. A migração para soja é justificada,  sobretudo  na  região Sul, pela melhor rentabilidade da cultura. Segundo  estimativa  do analista de mercado Carlos Cogo, da consultoria que leva seu nome,  em junho de 2015, a estimativa de lucro por hectare de soja na safra 2015/16 nos estados da região sul é quase 60% superior a do milho verão. Contudo, a rentabilidade do milho verão tem se apresentado mais estável nas últimas três safras, ao passo que a da soja já recuou 20%. Com o atual aumento das cotações do milho grão no mercado internacional, a diferença de lucro entre as duas culturas deve diminuir, consolidando a rentabilidade da produção de milho. A reputação de “primo pobre” da soja é, de fato, coisa do passado.

Cepea analisa mercado de milho 

O ano de 2016 começa com os preços em alta no mercado interno, puxados pelo ritmo forte das exportações no último trimestre de 2015 – suficiente para que o acumulado no ano ultrapassasse o recorde de 2013. A desvalorização do Real tornou o produto brasileiro mais competitivo e vem favorecendo a realização também de contratos referentes ao grão a ser colhido em 2016. Com isso, os preços domésticos podem seguir sustentados neste novo ano. 

Com maior competitividade internacional, vendedores adiantaram consideravelmente a comercialização da nova safra. Com grande parte do milho já comercializado, a tendência é que os preços tenham sustentação neste início de ano, influenciando inclusive na alta dos contratos futuros. 

Os atuais níveis de preços podem levar produtores a manter a área cultivada na segunda safra que, a depender do clima, pode gerar oferta semelhante à de 2015. 
As vendas externas, portanto, continuarão sendo o grande balizador de preços no mercado interno.

Segundo dados da Conab divulgados  em  janeiro/16,  a  produção do milho verão 2015/16 é estimada em 27,7 milhões de toneladas, 7,7% menor que a da temporada passada. A redução ocorre principalmente  devido  à  maior rentabilidade da soja no período de tomada de decisão de semeio.

A área deve ser de 5,6 milhões de hectares, 7,8% menor que a da temporada passada. Entre os principais estados produtores, as estimativas apontam redução de 14,4% em Minas Gerais, de 4,4% no Rio Grande do sul e de 20,9% no Paraná – dados da Conab. 

Por enquanto, ainda não há estimativas da Conab quanto à produção do cereal segunda safra. Porém, agentes indicam uma possível redução na área no Centro-Oeste em 
função do atraso do semeio da soja e das irregularidades das chuvas no último trimestre de 2015. Além da possibilidade de menor produção do milho segunda safra na região.

Centro-Oeste,  outro  aspecto  que sustenta os preços é que a maior parte da produção de Mato Grosso já foi negociada. O expressivo aumento das exportações desde outubro de 2015 tem diminuído as estimativas de estoque final da safra 2014/15, atualmente prevista pela Conab em 10 milhões de toneladas. Além disso, também há previsão de um volume alto de embarques na temporada 2015/16.  No  último  relatório  da Conab, divulgado em janeiro, as exportações de fev/16 a jan/17 estão estimadas em 28 milhões de toneladas, enquanto o USDA estima que o volume possa atingir 35 milhões de toneladas entre mar/16 e fev/17.

O movimento de forte alta nos preços perdeu força na última semana de janeiro, mas os valores ainda acumularam expressiva elevação  no  mês.  A  disponibilidade interna se reduziu devido às exportações em ritmo acelerado desde outubro, impulsionadas pelo câmbio. Em janeiro, os embarques brasileiros foram de 4,46 milhões de toneladas, quantidade 39% superior à de janeiro/15. A esse cenário, somam-se ainda as estimativas de menor produção do milho verão e de um possível atraso no semeio do milho segunda safra, que pode implicar em menor produtividade, todos os fatores de sustentação do preço doméstico. O Indicador ESALQ/BM&fBovespa, referente  à região de Campinas, fechou a R$ 42,27/saca de 60 kg no dia 29, expressiva alta de 14,77% no acumulado do mês. se considerados os negócios também em Campinas, mas com prazos de pagamento descontados pela taxa NPR, a média à vista foi para R$ 41,85/sc, elevação de 14,88% na mesma comparação.
 
Fonte: Revista KLFF - 12ª edição





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