Publicações

27/01/2017

Citros: Maior renda e menor produção

Preços pagos pela caixa de 40,8 quilos estão cerca de 30% superiores ao ano anterior, porém safra é a menor em quase três décadas

Citros: Maior renda e menor produção

Ufa! Esta é a melhor expressão para definir o alívio dos citricultores brasileiros na safra 2016/2017.
Após as últimas cinco safras de uma crise de preços baixos e pouco remuneradores, o citricultor pôde respirar com um pouco mais de tranquilidade. Os preços, que estão
entre R$ 16,00 e R$ 20,00 a caixa de 40,8 quilos, sofreram influência da queda de 18% na produção e redução de 43% dos estoques mundiais de suco de laranja.

Segundo Fernanda Geraldini Gomes, pesquisadora da área de citros do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, os principais fatores que influenciam os preços da laranja são a produção no cinturão citrícola, estoques de suco de laranja, demanda/consumo e produção de laranja na Flórida. Estes fatores estão diretamente relacionados à disponibilidade do suco no mercado internacional e, como a maior parte da laranja paulista é destinada à produção de suco, afetam o preço recebido pelo produtor.

“É a menor safra dos últimos 25 anos do Cinturão Paulista e triângulo Mineiro. A previsão é de 249 milhões de caixas, de 40,8 kg”, afirma Vinícius Trombin, coordenador da pesquisa de estimativa de safra do Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura). De acordo com o histórico de produção, essa é a menor safra desde 1990/91, quando foram registradas 247 milhões de caixas.

Já a produção da Flórida (EUA), um dos principais polos de citros do mundo, também será uma das menores da história. A previsão do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) é de apenas 60,5 milhões de caixas, redução de 26% em relação à última safra que foi de 81 milhões de caixas.
Segundo ele, a queda na produção norte-americana foi ainda maior que a do Brasil em função da falta do controle do greening, doença altamente destrutiva causada pelas bactérias  Candidatus liberibacter asiaticus e  Candidatus liberibacter americanus transmitidas para
as plantas de citros pelo psilídeo Diaphorina citri. Já no Brasil, a quebra na produção foi motivada pelo clima, com temperaturas muito altas em torno de 35° centígrados, o que prejudicou a produtividade na florada das árvores.

Diante deste cenário, avalia Fernanda Gomes do Cepea, a safra 2016/17 será de “alívio” para os produtores em relação ao preço por caixa. No entanto, a queda na produção nesta temporada irá impactar na rentabilidade. “Os custos seguem em alta e muitos produtores trazem dívidas de outros anos, quando a remuneração foi bastante limitada. Assim, os preços mais satisfatórios são um alento ante o cenário recente de baixos preços na citricultura, mas ainda pode haver limitação nos ânimos, principalmente para novos investimentos”, explica.

“Temos observado nas fazendas onde acompanhamos os custos de produção um aumento crescente no gasto com defensivos para controle do greening (HlB), cancro e outras doenças, além do aumento crescente no gasto com mão de obra. Porém, a dificuldade em conseguir manter uma produtividade média da fazenda acima de 1000 cx/ha, tanto pelas questões climáticas  quanto  fitossanitárias, têm impactado na rentabilidade do produtor”, avalia  Larissa Pagliuca, pesquisadora da área de citros do Cepea. Segundo ela, o caminho encontrado pelos produtores é o adensamento dos seus pomares para aumentar a produção por área, a busca pelas instituições de pesquisas por produtos  biológicos para controle do psilídeo, além do melhoramento genético da planta, entre outros fatores.

A pesquisadora explica que a orientação é no sentido de reduzir custos, mas sem causar impacto na produtividade. “A baixa produtividade pode levar à queda na rentabilidade, mesmo em anos em que o preço recebido pela laranja seja elevado. Muitos itens do custo de produção são difíceis de cortar, mas pode-se tentar melhorar a eficiência da mão de obra e das operações mecânicas e fazer a regulagem dos pulverizadores para não haver desperdícios de insumos, entre outras práticas de gestão de produção”, observa.

DENSIDADE DOS POMARES
Levantamento do Fundecitrus aponta diferenças expressivas de densidade entre as regiões do cinturão citrícola paulista.  Os pomares em formação, com densidade média mais elevada, estão na região de Altinópolis com 781 árvores/hectare, seguido de Itapetininga, com 712 árvores/hectare.  No lado oposto estão os da região de Votuporanga com 445 árvores/hectare. A densidade média de pomares em formação é de 654 árvores/hectare, mantendo o patamar das 600 árvores/hectare alcançado a partir de 2013. 

A densidade média de pomares adultos, implementados antes de 2014, é de 467 árvores/hectare.  Nesta categoria de pomares, levando em consideração a densidade média por região, a variação vai de 419 árvores/hectare na região de Votuporanga até 518 árvores/hectare em Itapetininga.

“Analisados por idade, os pomares mais velhos apresentam menor adensamento médio, por exemplo, os pomares com mais de 10 anos têm em média 392 árvores/hectare, enquanto os que foram plantados durante a última década apresentam média de 538 árvores/hectare”, diz o documento Inventário de árvores e estimativa da safra de laranja do cinturão citrícola de São Paulo e  triângulo/Sudoeste Mineiro.

Conforme o estudo, a idade média dos pomares adultos permanece em 9,8 anos, o que mostra um parque relativamente novo.  No entanto, 35.566 hectares ou 9 % da área total dos pomares de laranja apresentam idade superior a 20 anos com uma densidade média de 336 árvores/hectare, defasada em relação à adotada atualmente (656 árvores/hectare). Isto mostra que, ao longo destas duas décadas, aos poucos, os pomares foram adensados e, em 2015, atingiram o dobro de árvores plantadas numa mesma área.

“Os produtores com maior densidade de plantas e consequente aumento na rentabilidade tendem a permanecer na atividade”, afirma Vinícius Trombin, do Fundecitrus. Segundo ele, municípios da região  noroeste do cinturão citrícola paulista apresentam produtividade média de 373 caixas por hectare, já os do Sudoeste registram média de 956 caixas por hectare. Esses produtores, explica, são aqueles que acreditam na atividade, renovam a área com maior adensamento de árvores, investem em tecnologia, em mudas mais sadias e variedades mais produtivas, o que reflete diretamente na rentabilidade do produtor.

De acordo com Trombin, a quebra na produção da safra 2016/2017 foi impactada principalmente pelo clima mais seco e temperaturas altas. No entanto, os municípios da região Sudoeste não foram tão impactados pelo clima. “Não foram observadas temperaturas acima dos 35° C como no triângulo mineiro, que foi bastante prejudicado”, avalia.

Ele explica que temperaturas elevadas causam desequilíbrio na planta e o período de floração/ maturação é encurtado, causando até o abortamento da florada. “O estresse hídrico não permitiu outra florada, impactando na redução de 18% da produção”, diz.

Além de preços melhores, o produtor colherá mais rápido. Conforme Trombin, a colheita será mais concentrada porque a primeira e a segunda florada chegaram juntas. “No ano passado, por exemplo, houve uma distância grande entre a primeira e a quinta florada, o que desequilibra e aumenta os custos com a colheita, pois o produtor precisa fazer o processo de colheita mais de uma vez”, afirma. Além disso, a previsão é de os frutos amadurecerem mais cedo porque não há previsão de chuva.

Agora  um  desafio  constante do produtor é o controle de doenças. “Um ponto preocupante é se o vizinho não está fazendo o controle adequado ou mesmo se abandonou o pomar. Não é possível fazer o controle sozinho. Todos devem fazer a sua parte”, afirma Trombin. Segundo ele, é preciso que o vizinho que abandonou a atividade faça a erradicação total do pomar para não deixá-lo como foco de greening, colocando o pomar vizinho em risco. Outro grande desafio é aumentar o consumo de sucos de laranja no mercado internacional, ação já iniciada pela CitrusBR.

SUCO
A redução do consumo de suco de laranja nos últimos dez anos é crônica. “Nesse período, o mundo deixou de consumir cerca de 450 milhões de caixas de laranja na forma de suco, comportamento que trouxe consequências danosas para a cadeia citrícola”, diz Ibiapaba  Netto, diretor-executivo da CitrusBR.

Nos últimos anos, a cadeia do suco de laranja tem sofrido com o acúmulo de estoques devido principalmente a duas grandes safras que aconteceram nos períodos 2011/12 e 2012/13. Desde então o setor luta para voltar ao que se chama de “equilíbrio técnico”, que é possuir em seus tanques apenas a quantidade necessária de suco para cumprir seus contratos até que uma nova safra comece a ser processada. “Historicamente, consideramos que esse equilíbrio acontece ao redor de 300 mil toneladas de estoque”, diz o executivo.

Somadas às 351.567 toneladas em estoque, mais aproximadamente 17.000 toneladas produzidas nos Estados do Paraná e Rio Grande do Sul que se incorporam aos estoques paulistas, a disponibilidade total de suco é estimada em 1.077.066 toneladas, ante uma demanda total estimada em 1.075.000 toneladas (1.040.000 em exportações e 35.000 para o mercado interno). Dessa forma, no caso de a demanda se mantiver estável, os estoques previstos para 30 de junho de 2017 deverão somar 2.066 toneladas, o mais baixo nível da história. “Esse será, sem sombra de dúvidas, um período desafiador para que nossas empresas mantenham seu ritmo de exportação ao longo de toda a safra”, explica Ibiapaba Netto.

Segundo Ibiapaba Netto, a CitrusBR promove um programa de reposicionamento do suco de laranja. Estudos demonstraram uma proliferação de notícias ruins sobre o setor e o que precisa ser explicado para o consumidor são os benefícios de um copo de suco de laranja.  “A própria comunidade científica deixou de comunicar pesquisas sobre os benefícios da laranja, além de o consumidor receber dados equivocados como a comparação do refrigerante com sucos. Ou até situações piores como a confusão de conceitos bá-sicos para o consumidor, como a diferença entre frutose e glicose”, diz o executivo. 

Conforme estudos da Citrus-BR, a queda no consumo de suco de laranja deve-se à oferta crescente de bebidas não alcoólicas, mais baratas, de menor conteúdo calórico ou, em alguns casos, com forte apelo de imagem juvenil como elemento motivador para o consumo. A oferta de sucos de frutas de outros sabores, néctares e refrescos cresce intensamente, o que prejudica o consumo do suco de laranja e traz dificuldades para o Brasil. Néctares e refrescos são bebidas com adição de água, diluindo a participação do suco 100%, representando menor venda de sólidos solúveis, o produto mais importante para a citricultura e a indústria brasileira.

As ações para reverter esse cenário, diz Ibiapaba Netto, são várias. Entre elas, sensibilizar a comunidade científica para informar por meio de artigos técnicos os benefícios médicos e nutricionais em incluir na dieta o suco de laranja. Outra ação é uma campanha, que conta com investimentos de US$ 7 milhões no primeiro ano e que está voltada para os mercados da Alemanha e França. O objetivo é envolver cientistas, médicos e nutricionistas para apresentação em congressos sobre nutrição e saúde os benefícios do suco de laranja.





Mantenha-se atualizado com o Agro KLFF

Cadastre-se e recebe diariamente as novidades do mercado

2016 Portal KLFF. Todos os direitos reservados.

Termos de uso. Política de privacidade.