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04/10/2017

Cana-de-Açúcar: Tecnologias tornam a produção do Nordeste mais competitiva

Produtor deve apostar em irrigação e novas variedades adaptadas ao clima e solo dessa região para ampliar a produtividade

Cana-de-Açúcar: Tecnologias tornam a produção do Nordeste mais competitiva

O cenário perfeito para a produção de cana-de-açúcar no Nordeste do Brasil se dá com o uso de novas variedades adaptadas à região e a aposta em tecnologias de irrigação, além da busca de mais incentivos do Governo, via crédito, para competir adequadamente com outras regiões produtoras do País. A avaliação é do engenheiro agrônomo Djalma Euzébio Simões Neto, coordenador da Estação Experimental de Cana-de-Açúcar do Carpina da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-Açúcar da UFRPE /RIDESA (Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético).

“Essa é uma cultura que gera muitos empregos e renda para as cidades do litoral nordestino. Muitas vivem quase exclusivamente dela. Em Pernambuco, por exemplo, chega a ser a principal fonte de renda para 43 municípios da Zona da Mata, onde várias famílias plantam para atender às usinas. Hoje, temos 14 usinas processando cana para açúcar e etanol e outras duas fazendo apenas etanol, além de engenhos de cachaça. Estima-se que sejam mais de 11 mil fornecedores de cana no Estado. Mas o fornecedor precisa de incentivos por meio de crédito por parte do governo, entre outros. O Nordeste responde por menos de10% da cana no Brasil. Por isso, os fornecedores de máquinas não se preocupam muito com essa região. Quanto a insumos, somos atendidos de maneira geral. Mesmo sendo pouco representativa, se comparada a outras regiões, é uma atividade importante para o Nordeste”, ressalta Simões Neto.

Segundo o engenheiro agrônomo, a região Nordeste sofre com um fator negativo de competitividade para a produção da cana-de-açúcar: a falta de regularidade de chuvas. “Nunca tinha visto uma estiagem de dez meses como a que houve em 2016/2017, quando a região da Zonada Mata nordestina sofreu bastante. Em outras épocas, o período seco seria de cinco ou seis meses. Essa é uma situação difícil até para cana-de-açúcar, que é uma cultura mais rústica. Por isso, nestes locais, os produtores estão partindo para o uso de tecnologias, como a irrigação por gotejamento e outros tipos e novas variedades adaptadas, tanto ao clima quanto ao solo extremamente arenoso - ácido e bastante intemperizado. Com essas tecnologias, temos usinas no Nordeste alcançando 100 toneladas de cana-de-açúcar por hectare, em média.”

Simões Neto diz que a UFRPE realiza pesquisas de novas variedades e conta atualmente com 18 parcerias com usinas de cana-de-açúcar localizadas no Nordeste, cujo objetivo final é ter competitividade com variedades comerciais para áreas de sequeiro ou irrigadas. “Chegamos a ter 32 usinas parceiras, mas agora priorizamos aquelas que têm objetivo igual ao nosso, que é investir em tecnologia. Entre as parcerias, uma que está em andamento e apresentando ótimos resultados até o momento, é com a Biosev, iniciada há três anos, para a qual desenvolvemos as variedades com cruzamentos realizados em Amaraji (PE ) e em Murici(AL). Essa parceria beneficia duas unidades da Biosev – Estivas (RN) e Giasa (PB).” Juntas, as duas unidades da Biosev – segunda maior processadora de cana-de-açúcar do mundo– têm uma moagem estimada em 3milhões de toneladas.O projeto de parceria entre a Universidade e a Biosev consiste nas etapas iniciais do melhoramento genético, testado em uma área de dois hectares, próxima a Natal/RN. O experimento é o primeiro passo de um plano que visa gerar variedades de cana-de-açúcar tipicamente nordestinas, adaptadas ao clima e ao solo daquela região, passando pelas diversas etapas do melhoramento, podendo o processo chegar até dez anos. A estimativa é de que sejam feitas ao menos quatro seleções e mais cinco anos de experimentação em materiais genéticos, até se chegar à escolha de variedades de cana-de-açúcar que serão multiplicadas e plantadas comercialmente na região.

PRODUTORES DE PERNAMBUCO

Alexandre Andrade Lima, presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP) – entidade que reúne aproximadamente 10 mil associados, todos produtores independentes de cana-de-açúcar do Estado –, concorda como engenheiro agrônomo da Universidade Federal Rural de Pernambuco que é necessário o uso de tecnologia para tornar competitiva a produção canavieira do Nordeste, usando principalmente a irrigação.

“Tivemos condições desfavoráveis no Estado em razão dos últimos cinco anos de seca. Nas últimas safras ficamos sem chuva alguma e agora voltamos à normalidade, ou seja, temos um clima muito inconstante. Ou não chove nada ou, em um mês, chove um volume que representa 30% de um ano todo. Por isso, o investimento em irrigação é o melhor seguro que podemos fazer para manter a atividade agrícola, principalmente a da cana-de-açúcar. Os produtores estão investindo principalmente em irrigação de salvação, que não é contínua, mas usada pontualmente para salvar o plantio e favorecer a brotação. Produtores mais equilibrados financeiramente usam irrigação mais contínua. Como as usinas são mais capitalizadas, investem bastante em irrigação”, garante Lima.

De acordo com o presidente da AFCP, o uso de novas variedades também é importante para a competitividade da produção de cana-de-açúcar no Nordeste. “Precisamos obter uma variedade ainda mais resistente à seca. As variedades da RIDESA têm um papel fundamental para nossa produção. Hoje, 80% das variedades usadas no plantio de Pernambuco são dessa rede ligada à universidade federal. E, desse volume, 80% são da 579, que é a variedade mais plantada. Estamos muito esperançosos com os clones promissores que substituirão a mais usada, pois prometem melhor produtividade nos canaviais.”

Lima observa que Pernambuco tem uma particularidade: são muitos produtores de pequeno porte, com menos de mil toneladas de cana. “Eles representam 92% do volume total de produtores dessa cultura no Estado. Desses, apenas 23% são voltados à produção. Os demais são agricultores de economia familiar, devido aos vários assentamentos que ocorreram por aqui nos últimos anos. Também é o segundo estado produtor de cana do Nordeste, com 13 mil dos 23 mil produtores dessa região do Brasil”.

Segundo o presidente da associação, o pequeno produtor não tem condições de investir em tecnologia. “Só 8% dos nossos produtores podem investir, principalmente por conta da seca dos últimos anos, que prejudicou os resultados financeiros. Para se ter uma ideia, o investimento mínimo em irrigação de salvação é de R$ 200 por hectare e o sistema é usado por produtores com volume acima de 4 mil toneladas de cana. Na irrigação contínua, poucos investiram porque faltou água para armazenar e usar no sistema,que precisa de financiamento bancário. Ou seja, tem sistema, mas não pode usar por falta de água. Em média, para irrigação por gotejamento gasta-se em torno de R$ 7 mil por hectare.”

Lima diz que a região também sofre com a falta de subvenção do Governo Federal, que antes auxiliava produtores com volume inferior a 10 mil toneladas de cana. “A subvenção parou nas últimas três safras em função da crise atual do Brasil. Mas, em geral, o problema não é a falta de recurso. O problema é a burocracia para receber o crédito. Fizemos várias reuniões com bancos do Nordeste para melhorar essa burocracia, mas é difícil chegar ao contrato final. Não é só porque fazem exigências de pagamento, mas envolvem órgãos ambientais e comprovação de propriedades arrendadas. E tudo isso nãosai barato em cartórios de registro.”

Lima ressalta que Pernambuco também está limitado para o uso de máquinas na produção por conta de áreas topográficas acidentadas. “Cerca de 90% do corte é feito de forma manual. Isso seria difícil mudar porque traz uma questão social, já que se usa mão-de-obra não qualificada. A maioria é de semianalfabeto.”

Uma boa notícia para a região, lembra, foi a iniciativa de duas cooperativas de produtores do Estado que reativaram duas usinas que estavam em recuperação judicial. “Nossa região, a exemplo de outras do País, também estava sofrendo com o fechamento de unidades industriais. Mas duas cooperativas abriram duas usinas que, juntas, moeram cerca de1 milhão de toneladas de cana em2016. Uma delas está no quarto ano de moagem e a outra no terceiro. Isso deu um suporte muito bom a nossos produtores, pois ampliou a concorrência, equilibrando a lei da oferta e procura. Assim, hoje, nosso produtor recebe até mais que o de outras regiões do Brasil, em média, entre 12 e 13% a mais que o valor oficial pago em Pernambuco. Foi uma ação tão importante que, em uma das usinas, os trabalhadores fizeram uma festa e m comemoração à reativação, após três anos parados. Reuniram quatro mil pessoas na missa campal em homenagem à reabertura da usina no primeiro dia de moagem e, um mês antes, foi realizada uma procissão para agradecer à Nossa Senhora da Conceição.”

IRRIGAÇÃO PLENA

A Biosev também lançou no segundo semestre de 2016 um projeto piloto de irrigação por gotejamento na unidade Estivas, no interior do Rio Grande do Norte. A companhia está investindo R$ 6,8 milhões nesse método de irrigação plena para cana-de-açúcar, que irá elevar a produtividade na região em 100%.

Com área inicial de 400 hectares, o projeto permitirá à Biosev avaliar os parâmetros necessários para implantar a tecnologia em outras áreas do Polo NE (Nordeste) nos próximos anos. A expectativa é aumentar a área irrigada por gotejamento, sendo o potencial de uso dessa tecnologia superior a seis mil hectares nas áreas atualmente geridas pela companhia no Nordeste.

Com o modelo atual de irrigação, a produtividade média da Biosev é de 45 toneladas de cana por hectare na unidade, podendo atingir 55 toneladas nas áreas de irrigação complementar. Pelo sistema de gotejamento, a produtividade média poderá chegar a mais de 100 toneladas por hectare. Além disso, a necessidade de reformado canavial passará para 10 anos, o dobro do que é feito atualmente, o que reduz significativamente o custo de produção.

A tecnologia de gotejamento consiste em um sistema formado por mangueiras enterradas junto às linhas de cana. Os gotejadores aplicam uma lâmina de água suficiente para repor o déficit hídrico da cultura, considerando as condições do solo, da planta e do clima. Ao gotejar na linha de cana, a água forma uma faixa úmida, denominada “bulboúmido”, o que permite que as raízes tenham disponíveis água e nutrientes constantemente para realizaremos processos metabólico se de crescimento. No caso da irrigação plena, a lâmina de água pode atingir 900 milímetros por ciclo, dose que é o dobro da irrigação complementar, como o sistema de irrigação por pivôs móveis, atualmente utilizados pela unidade Estivas.

A adubação da cana-de-açúcar passa a ser realizada por fertirrigação, onde tanto a água como os fertilizantes são aplicados via gotejamento, garantindo o fornecimento de nutrientes em todo o ciclo de crescimento e acúmulo de fitomassa. Esse processo garante que as raízes absorvam os nutrientes de acordo com a necessidade da cultura.

“A irrigação por gotejamento em cana-de-açúcar é uma tecnologia de produção que tem tomado espaço na cultura em todo o Brasil, principalmente nas regiões com maior déficit hídrico como o Nordeste. Ao fornecer a quantidade de água e nutrientes requeridos pela cana, essa tecnologia proporciona como resultado altas produtividades, além de eficiência no uso do recurso hídrico e até mesmo de defensivos e outros insumos”, esclarece Ricardo Lopes da Silva, diretor de operações e originação. “A Biosev está investindo nesse novo sistema para produzir mais com menos, ou seja, aumentar o volume de cana com a mesma área plantada”, conclui





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