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02/04/2018

Cana-de-açúcar: Alternativas de mercado para o produtor nacional

Novos usos da palha de cana podem beneficiar tanto o produtor brasileiro quanto o meio ambiente

Cana-de-açúcar: Alternativas de mercado para o produtor nacional
A palha da cana-de-açúcar, resíduo geralmente descartado pelo produtor, sob risco de queimadas e proliferação de pragas nas lavouras, tem pelo menos dois usos que podem ser uma alternativa de mercado para o agricultor brasileiro: a indústria de transformação e a de energia.

No caso da indústria de transformação, uma das oportunidades de mercado vem da FibraResist, a primeira fábrica no mundo a produzir matéria-prima para papel a partir da palha da cana, em um sistema a frio. Sediada em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo, a empresa foi inaugurada em fevereiro com uma área total de 60 mil metros quadrados e capacidade de produção de até 72 mil toneladas/ano de pasta celulósica 100% sustentável para atender ao mercado mundial de produção de papéis e embalagens. Ao todo, os empreendedores da empresa investiram desde o início das pesquisas até o momento uma estimativa de $ 70 milhões, sendo parte do valor financiada pela Desenvolve SP – Agência de Desenvolvimento Paulista.

A inovação desenvolvida pela FibraResist teve início há pouco mais de seis anos, quando o empresário, pesquisador e químico industrial José Sivaldo de Souza buscava novas fibras para a produção de papel. Dessa pesquisa surgiu o biodispersante, um produto de tecnologia exclusiva da empresa capaz de separar da palha da cana a lignina (espécie de cola natural), mantendo apenas as fibras da palha, dando origem à chamada pasta celulósica.

“Por ser uma fibra virgem, a pasta celulósica derivada da palha da cana não sofre perda com impurezas e, por isso, consegue produzir mais com menos insumo. Assim, os fabricantes de papel passam a ter uma significativa redução de gastos, pois o custo da reciclagem do insumo e despesas provenientes do descarte deixam de existir”, diz Souza.

No processo produtivo da FibraResist, após a colheita da cana, 80% da palha que fica como resíduo são recolhidos por uma máquina especial, que não compacta o solo, enfardada e encaminhada à fábrica por uma empresa terceirizada, enquanto os 20% restantes ficam no solo como adubo. Após ser peneirada e triturada, a palha entra em um tanque para ser transformada em pasta. De acordo com Souza, com a proibição da queima de palha da cana (prevista para entrar em vigor em todo Estado de São Paulo a partir de 2018 e até 2021 onde os terrenos são mecanizáveis ou 2031 para terrenos não mecanizáveis em outros estados do País), o manuseio e o tratamento adequado desse material é mais um benefício em que empresa aposta para atrair novos clientes.

A tecnologia da FibraResist chamou a atenção de investidores. Entre eles, o Grupo Cem, uma holding brasileira com mais de 30 anos de mercado, atuante em segmentos como agronegócio e inovação tecnológica, que passou a administrar e operar a empresa com a maior parte do capital, enquanto Souza passou a deter 30% da FibraResist e atuar na empresa somente na área de pesquisa.

O grupo vem investindo no processo produtivo em escala industrial da pasta celulósica, que é matéria-prima para fabricação dos papéis tissue, papel capa de 1ª (Kraftliner), papel miolo, papel cartão, papel marrom e embalagens. Também pode ser utilizada na composição de outros papéis.

“Não consideramos que estamos revolucionando com a pasta celulósica, mas contribuindo para que o mercado de papel tenha mais uma opção. Nosso produto não se choca com a celulose, pois cada um tem um tipo de aplicação. Nossa matéria-prima é indicada para indústria de papel que não precisa do papel branqueado. E justamente pela ausência dessa etapa, nosso processo não emite poluentes. Acreditamos que o nosso mercado final será o de embalagens para hortifrutigranjeiros. Já estamos iniciando, por exemplo, uma parceria comercial com uma indústria que fabrica caixa de ovos”, observa Mário Welber, representante da FibraResist.

Segundo o executivo, até meados de novembro, a FibraResist estará na fase de planejamento e ajustes necessários para iniciar a produção voltada ao mercado. “Estamos otimizando a produção a cada dia. A meta é transformar duas toneladas de palha em uma de pasta. Devido à característica da palha, há uma infinidade de possibilidades de aplicação. Porém, estamos focados em atender à indústria de papel. Como somos inovadores, esse tempo de ajustes se faz necessário.”

Welber conta que foi firmado um contrato com uma empresa da região de Lençóis Paulista para que esta faça a coleta e entrega da palha de cana de forma adequada ao processo de fabricação da pasta da FibraResist. “Estamos em uma região rica em plantio de cana e, portanto, de palha. Fomos bem acolhidos em Lençóis Paulista, onde obtivemos incentivos municipais para instalar nossa unidade e, por enquanto, temos palha suficiente para trabalhar nesse período de planejamento. Mas pretendemos ampliar o número de fornecedores de acordo com o avanço da produção, ou seja, entre final deste ano e início de 2018. Também temos planos de expansão com novas unidades, previstas para início de 2019, que vão depender dos resultados atuais de testes. Iremos onde está a cana.”


Eletricidade a partir da palha de cana-de-açúcar

Outra alternativa de uso da palha de cana-de-açúcar é para geração de eletricidade. Cálculos realizados pelo Projeto SUCRE (Sugarcane Renewable Electricity) indicam que a geração de bioeletricidade a partir da palha tem potencial de produção de 35,5 TWh por ano. Essa quantidade poderia suprir 27% do consumo residencial no Brasil, em 2016, ou abastecer quase todas as 28 milhões de residências do estado de São Paulo, que consumiram um total de 38 TWh no mesmo ano, conforme dados do Balanço Energético Nacional (BEN) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Atualmente, a eletricidade produzida a partir da biomassa é responsável por 8% da geração total do Brasil, que foi de 620 TWh em 2016. Portanto, o uso da palha como matéria prima poderia levar a um incremento de cerca de 6% desse valor.

Esse potencial baseia-se nas premissas de produção de 140 kg de palha (base seca) por tonelada de cana-de-açúcar e no recolhimento de metade de toda a palha gerada na colheita da safra passada, em que foram processadas 612 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na região do Centro-Sul do Brasil, 93% do processamento total do País, conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).

“Apesar de ainda não termos uma precificação bem definida para a palha, esse resíduo, antes queimado, não deixa de ser uma oportunidade para o produtor à medida que se estabeleça um mercado, por meio de mudanças no marco legal e regulatório para beneficiar e incentivar a produção e comercialização de bioeletricidade gerada pela palha. Para as unidades já interligadas à rede, gerando vapor e exportando eletricidade a partir da queima do bagaço, a palha produzida pela cana - que representa em torno de 140 kg de palha por tonelada de cana - eleva o potencial de geração e exportação de eletricidade para a rede”, diz a gestora executiva do Projeto SUCRE, Thayse Hernandes.

Ela lembra que a matriz energética brasileira é muito dependente da fonte hídrica, o que torna a geração de eletricidade a partir da biomassa de cana (bagaço e palha) ainda mais atrativa. O pico da safra se dá no período seco (de maio a outubro) na região Centro-Sul , com os reservatórios quase sempre com capacidade baixa, como é o caso deste ano. “Além disso, a geração de eletricidade pelas usinas é despachável (de acordo com a demanda) e as usinas estão muito próximas aos centros de carga (consumidores de energia)”.

O Projeto SUCRE tem como objetivo principal aumentar a produção de eletricidade com baixa emissão de gases de efeito estufa (GEE) na indústria de cana-de-açúcar por meio do uso da palha produzida durante a colheita. A iniciativa é promovida pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O SUCRE atua junto a usinas parceiras – geradoras de eletricidade – para desenvolver soluções que elevem tal geração à plenitude da tecnologia disponível. O Projeto é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente e gerido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ao todo, são cinco anos de projeto e um investimento de cerca de US$ 67,5 milhões, sendo US$ 55,8 milhões a parcela estimada de investimentos pelas usinas – grande parte já realizada com a instalação de estações de limpeza a seco, reforma ou compra de caldeiras, turbogeradores, enfardadoras e outros equipamentos.

De acordo com Thayse, o Projeto conta hoje com a participação e colaboração de 14 unidades, espalhadas pelo estado de São Paulo e sul de Goiás. Juntas, essas parceiras processaram, aproximadamente, 10% da cana moída na safra 2015/2016. “O Projeto SUCRE teve início em junho de 2015 e tem duração prevista até dezembro de 2019. É um projeto pioneiro no mundo, onde a busca por alternativas às fontes fósseis vem sendo intensificada. No Brasil, temos esse enorme potencial vindo da cana-de-açúcar. Assim, o incentivo à adesão de usinas é um dos pontos focais do Projeto, organizado de modo a buscar e implementar soluções tecnológicas para o recolhimento, processamento e queima da palha nas unidades parceiras. Além disso, estamos mensurando e avaliando os efeitos agroambientais de retirar essa palha do campo, de modo a elaborar estratégias de remoção baseadas nos diferentes ambientes de produção de cana. Por fim, uma frente de trabalho está focada na identificação de barreiras regulatórias e de comercialização de eletricidade. Este trabalho foi feito em parceria com a Excelência Energética e com a UNICA, tendo como resultado uma cartilha com informações básicas sobre interligação na rede, geração e comercialização de eletricidade. Os principais incentivos às usinas seriam os leilões dedicados a essa fonte de energia e, também, a previsibilidade dos preços-teto. O Projeto contribuiu com sugestões de transposição de algumas barreiras regulatórias na Consulta Pública 33 e está buscando realizar reuniões com as autoridades para incentivar a implementação destas melhorias, na busca por novas políticas públicas que motivem o setor a investir na geração de energia à base de palha”.

O SUCRE busca vencer os desafios tecnológicos no campo e na indústria, de forma a possibilitar um maior aproveitamento da palha da cana-de-açúcar na cogeração de eletricidade. Para tanto, a equipe trabalha na identificação e solução dos problemas que impedem as usinas parceiras de gerarem eletricidade de forma plena e sistemática. “Dentre os desafios tecnológicos, destacam-se os níveis de impureza mineral, alguns componentes da palha que prejudicam a queima e o efeito da granulometria na mistura com o bagaço na queima nas caldeiras. Além desses, de natureza técnica, temos os problemas de ordem regulatória e de comercialização, como o custo de interligação e a imprevisibilidade de preço-teto nos leilões. Essas questões são os pontos de maior peso na decisão da unidade pela utilização ou não da palha no aumento da geração. O trabalho para transpor estas barreiras tem sido intenso e alguns indicativos de solução serão abordados e discutidos em um workshop no fim deste ano, com intuito de divulgar e discutir com os stakeholders (parceiros, setor, concessionárias e órgãos do governo) os resultados obtidos até agora em termos de recolhimento, estratégias de remoção, processamento, queima e geração de eletricidade a partir da mistura bagaço/palha, além do que foi feito na parte de marco legal e regulatório da comercialização de eletricidade”.

Ao longo do Projeto, todas as lições aprendidas estão sendo difundidas para o setor sucroenergético nacional, por meio de boletins técnicos, workshops, publicações em periódicos, jornais, revista, sites e mídia em geral. Os relatórios gerados ficarão disponíveis para download no site do projeto (http://pages.cnpem.br/sucre/).


Novas variedades do IAC para regiões com restrições hídricas acentuadas

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, lançou em setembro três variedades de cana-de-açúcar que beneficiarão o setor sucroenergético de Goiás e de outros locais da região Centro-Oeste do Brasil, bem como as regiões Oeste e Norte paulistas, que apresentam restrições hídricas acentuadas e solos desfavoráveis para produção.

As novas variedades — IACCTC05-8069, IACCTC07-8008 e IACCTC07-8044 – apresentam uma produtividade agrícola entre 11% e 16% superior à da RB867515, a mais cultivada no Centro-Sul do Brasil, segundo Marcos Guimarães de Andrade Landell, pesquisador do IAC. As três variedades apresentam período de utilização industrial longo, podendo ser utilizadas do início até o final de safra, segundo modelo de manejo preconizado pelo IAC.

As novas variedades IAC apresentam grande longevidade, que deve se aproximar de dez cortes. Isso significa que o produtor terá que renovar seu canavial somente após a décima colheita – o que representa de duas a três colheitas a mais do que a média obtida nos canaviais. A IACCTC05-8069, IACCTC07-8008 e IACCTC07-8044 também apresentam resistência às principais doenças da cultura da cana-de-açúcar nessas condições regionais, que são: carvão, ferrugens, escaldadura e mosaico.

De acordo com Landell, a IACCTC05-8069 tem um perfil responsivo, com bom teor de sacarose, isto é, responde de maneira mais acentuada a um manejo que transforme o ambiente original em outro de maior potencial. “Isto pode ser feito com a irrigação e com a utilização de compostos orgânicos, por exemplo”, explica. A IACCTC05-8069 é ainda mais competitiva no período de colheita de abril a agosto. Em condições de irrigação suplementar, destaca-se ainda mais na comparação com a RB867515, que representa 29,9% das variedades plantadas na região de Goiás, de acordo com o Censo Varietal realizado pelo IAC.

A IACCTC07-8008 apresenta rendimento agrícola em torno de 11% a 16% superior à da variedade padrão RB867515, em todas as épocas de colheita, tanto em ambientes restritivos, em condições de sequeiro, como em situação favorável, com irrigação complementar. “Seu grande destaque é a produtividade agrícola, originada principalmente na elevada população de colmos. Esta característica proporciona à IACCTC07-8008 um grande potencial na produção de bagaço, expressa pelo indicador Tonelada de Fibra por Hectare (TFH)”, avalia o pesquisador. Seu teor de sacarose é classificado como médio e sua época de colheita vai do outono à primavera (abril a novembro). 

Já a IACCTC07-8044, que também tem perfil responsivo, é mais competitiva no período de colheita de abril a agosto, em ambientes considerados superiores. Sua colheita é feita no outono-inverno e ela apresenta alto teor de açúcar durante um longo período da safra. “Em condições de irrigação suplementar, tem grande vantagem sobre a variedade RB867515 e uma população de colmos que é 38,9% superior à desta variedade padrão”. Landell diz que este perfil populacional é essencial em regiões de alto déficit hídrico, o que pode resultar em canaviais de grande longevidade. “Observa-se que um dos fatores de redução do número de colmos em um canavial é o déficit hídrico acentuado. Uma variedade que parte de um número significativamente superior ao padrão nos permite inferir que deverá proporcionar uma perenização maior de suas soqueiras.”


Usina Jalles Machado

O lançamento das variedades foi feito em Goianésia, no Estado de Goiás, na área da Usina Jalles Machado, empresa parceira do Programa Cana IAC no desenvolvimento de variedades. A parceria, iniciada há 22 anos, reúne trabalho científico e a expertise do Programa Cana IAC, com experimentos na área da Jalles Machado e investimentos públicos e privados. O desenvolvimento da IACCTC05-8069 teve início em 2005 e o das outras duas, em 2007. De forma geral, cada variedade representou um investimento da ordem de R$ 5,5 milhões, desde o início do desenvolvimento até o lançamento, que foi o vigésimo de variedades de cana do IAC.

As novas variedades são originárias de seleções regionais realizadas na Unidade Jalles Machado e na Unidade Otávio Lajes (UOL), ambas na região de Goianésia. Elas foram selecionadas a partir de resultados observados durante quatro cortes, em duas condições, com e sem irrigação complementar, e em diferentes épocas de colheita. “Esse processo possibilitou a obtenção de um número bastante expressivo de informações consolidadas para a região, oferecendo segurança para a caracterização e indicação regional, com grandes possibilidades de cultivo em outras localidades, tanto em Goiás, como nos demais estados produtores de cana-de-açúcar que passam por muita restrição hídrica e problemas no solo para a produção”, afirma Landell.

Segundo ele, 85% da plantação de cana-de-açúcar no país ocorrem nas regiões em condições similares à da região Centro-Oeste do Brasil, com exceção do Paraná e Mato Grosso do Sul, que não são restritivas. “Por estar inserido no Programa Cana IAC, esse trabalho faz com que as empresas parceiras sejam as primeiras a receberem as novas variedades para fazerem o acompanhamento necessário e comprovarem os benefícios para as outras regiões. Assim, calculamos que, em quatro anos, todo esse material será espalhado aos produtores do país."

O pesquisador relata que, na rede experimental instalada em Goianésia, esses materiais foram testados em épocas distintas de colheita, sendo outono-inverno e primavera, com dois manejos fitotécnicos, um deles de sequeiro e o outro com irrigação complementar. “Esta irrigação não atende plenamente à necessidade hídrica do ciclo, no entanto, é suficiente para condicionar o ambiente e torná-lo favorável à produção, com um potencial de produção aproximadamente 40% superior ao do ambiente de sequeiro.”




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