Publicações

23/05/2016

Aumento de pragas e doenças eleva custo de produção

Segundo a EMBRAPA, infestação do bicudo cresceu nas áreas do Cerrado e trouxe prejuízos que ultrapassam US$ 200 por hectare

Aumento de pragas e doenças eleva custo de produção

O aumento da incidência do bicudo nas lavouras de algodão tem preocupado os cotonicultores e elevado os custos de produção. No Mato Grosso, um dos principais produtores da fibra, pelo menos três núcleos regionais – Centro (Campo Verde), Centro-leste (Primavera do leste) e sul (Rondonópolis) – estão na zona vermelha de infestação. Ou seja, mais de dois bicudos por armadilha por semana foram encontrados pelos produtores. Já no Cerrado brasileiro, a infestação média do inseto varia de 5 a 9%, exigindo um número intenso de pulverizações para o controle da praga.

Segundo Ricardo Midding, assistente técnico da fazenda Ouro Branco, localizada na região da Chapada dos Guimarães (MT), foi difícil o manejo para o controle de pragas e doenças nos 3,5 mil hectares de algodão  segunda  safra.  “Devido principalmente aos fatores climáticos, a incidência de bicudo, ácaro, mosca branca, mofo branco e também da alternaria (doença fúngica) aumentou significativamente nesta safra 2015/2016”, afirma. Em função desse conjunto de agentes na lavoura, o resultado foi o aumento do custo de produção. “A produtividade se manteve, porém, tivemos maior gasto para o controle das pragas e doenças”, avalia.

Midding  explica  que  o  tempo seco combinado com chuvas prolongadas propiciou o surgimento das pragas. “Nós intensificamos o monitoramento com as armadilhas na entrada da lavoura para mapear os locais com maior incidência do Bicudo. Depois de identificado, entramos com o controle químico”, diz.  O aumento de custo foi devido à necessidade de reduzir o intervalo entre as aplicações. Com este cenário, a próxima safra será de alerta. “será necessário intensificar o manejo integrado de pragas e doenças para diminuir entrada com defensivos”, acrescenta.

No  Mato  Grosso,  segundo  o entomologista Eduardo Barros, do IMAmt (Instituto Mato-grossense do Algodão) a média hoje é de 15 aplicações específicas direcionadas ao bicudo-do-algodoeiro, mas tem lavouras onde são necessárias até 27 aplicações. Países produtores como a Índia, China e Paquistão não sofrem com esse tipo de incidência do bicudo, o que torna o Brasil menos competitivo no mercado internacional. “O maior número de pulverizações para o controle da praga onera muito o custo de produção para o cotonicultor brasileiro”, afirma.

De acordo com José Ednilson Miranda, entomologista da Embrapa Algodão, o número de aplicações de inseticidas para controle do bicudo do algodoeiro no Cerrado  brasileiro  subiu  de  17  para 23 aplicações entre 2012/2013 e 2014/2015.  “Considerando-se  o custo de aplicação de inseticidas para controle do inseto e uma perda estimada de 2% pela ação do inseto, apesar dos esforços de controle, tem-se um prejuízo crescente nas últimas safras e que já ultrapassa US$ 200 por hectare”, afirma.

O  entomologista  explica  que o controle do  bicudo requer políticas públicas,  educação fitossanitária  e comprometimento da cadeia produtiva e dos  segmentos apoiadores
do  setor, como a pesquisa, a  extensão  e a fiscalização.
“Toda e qualquer medida de controle populacional da praga deve estar alinhada  por  diretrizes  definidas regionalmente e cuja adesão deve ser total, bem como a eficiência na execução deve ser a maior possível”, acredita.

Para a próxima safra, Miranda avalia que a disponibilidade de alimento, abrigo e oviposição, num cenário de utilização de plantas de algodoeiro tolerantes a herbicidas, cultivos de primeira e segunda safra, além da presença de refúgios de vegetação nativa, permitem ao bicudo uma alta capacidade de sobrevivência e reprodução no Cerrado  brasileiro.  Caso  as  medidas corretas não sejam realizadas em tempo hábil, pode haver um aumento ainda maior da população da praga nas lavouras de algodão.

A variedade escolhida pelo produtor não interfere na maior ou menor incidência do bicudo na lavoura, já que não existe preferência do inseto por determinadas cultivares utilizadas atualmente. No entanto, ocorre  que  cultivares  transgênicas resistentes a lagartas recebem menos aplicações durante a safra. “Inseticidas  que  controlariam  as lagartas também poderiam reduzir populações de bicudo. Assim, lavouras Bt devem ser monitoradas com rigor, pois eventualmente haverá necessidade de controle do bicudo, quando na lavoura convencional o inseticida aplicado contra lagartas já o controlaria”, observa Miranda.

Mato Grosso em alerta
Segundos Eduardo Barros, alguns fatores têm contribuído para o aumento populacional do bicudo no Estado.  São eles: descuidos e falta de manejo na fase final da cultura do algodão, presença de plantas de algodão em meio à soja (rebrota e/ou tigueras), abandono de áreas e presença de plantas de algodão em beira de estradas (rodovias e vicinais), algodoeiras e confinamentos. “Percebemos  uma  preocupação maior de produtores, gestores de fazendas e técnicos com o controle da praga, porém alguns descuidos acabam favorecendo a presença do bicudo mesmo no período de vazio sanitário do algodão”, diz o pesquisador.

Infelizmente,  avalia  Barros,  é quase impossível dizimar a incidência do bicudo das lavouras de algodão no Brasil. “Não tem como zerar, mas é possível tomar iniciativas preventivas e emergenciais como as aplicações de inseticidas”, afirma. De acordo com o pesquisador, ainda não há novidades tecnológicas como variedades resistentes ao bicudo. “O que nós estamos fazendo é promover encontros técnicos regionais para que os produtores troquem experiências sobre boas práticas de manejo. Os resultados têm sido surpreendentes e muito eficazes”, observa. Os grupos técnicos ajudam os produtores a padronizar o monitoramento, o que pode ser muito eficaz no combate ao inseto.

Conforme levantamento do IMAmt, a pressão de bicudo também chama a atenção nos núcleos regionais, de produção algodoeira mais recente - Norte (região de Sorriso e Lucas do Rio Verde), Noroeste (região de Sapezal) e Médio-Norte (região de Campo Novo do Parecis) -, principalmente pela presença de bicudo em meio a lavouras de soja, associada a plantas guaxas ou tigueras de algodoeiro.

Diante dessa situação, as recomendações aos produtores são monitoramento da soja quanto à presença de bicudo, aplicações de inseticidas em soja caso seja detectada a presença de injúrias ou adultos da praga, inclusão de inseticidas  nas  dessecações  (da soja ou cobertura), iniciar aplicação em bordadura para lavouras de algodão já em V3 e, em áreas com alta pressão, iniciar as aplicações no algodão em área total em vegetativo. “Estas e outras medidas devem ser adotadas de forma conjunta, ou seja, o trabalho tem que ser feito por todos, caso contrário, será difícil conter a praga”, alerta Barros.

Resistência de ervas daninhas  preocupa produtores de algodão
Os produtores de algodão no Brasil já se mostram preocupados com a resistência de ervas daninhas a herbicidas devido ao uso intensivo de biotecnologia. De acordo com a Pesquisa Painel AMIS da Kleffmann Group, dos 315 entrevistados, apenas 14 não reportaram a ocorrência desse tipo de problema na safra 2014/15. daqueles que registraram dificuldades, mais da metade julga que as plantas  invasoras  já estão  altamente  resistentes.

De acordo com Erica Franconere, analista de mercado da Kleffmann Group, a área cultivada com variedade Bt aumentou quase 10% em relação à área total de algodão, o  que  impactou  diretamente  no mercado de lagarticidas. “O uso de produtos para controle de lagarta caiu 15% em comparação com a safra 2013/14. Mesmo assim, os produtores  já  se  mostram preocupados com o desenvolvimento de resistência, sobretudo de Spodoptera, porém ainda em menor intensidade do que a resistência de ervas invasoras”, avalia.

O  estudo  aponta  ainda  que, no ciclo 2014/15, 97% da área foi cultivada com variedades resistentes a algum tipo de herbicida e 84% da área utilizou tecnologia Bt. “Isso certamente tem impacto sobre o manejo fitossanitário da cultura, mas não da mesma forma como ocorre em soja e milho, visto a gama de insetos e ervas daninhas a serem controlados nessa cultura”, afirma Erica Franconere.

Importante ressaltar que, na safra 2014/15, ocorreu uso intensivo de variedades resistentes a glifosato e glufosinato simultaneamente. A longo prazo, isso indica um ponto de atenção para o manejo de herbicidas, uma vez que pode haver uma pressão ainda maior para o surgimento de ervas daninhas resistentes também para a cultura de soja plantada na mesma área.

Entre as classes de agroquímicos, apenas os fungicidas, aplicados na parte aérea ou via semente, apresentaram crescimento de vendas com relação à safra passada.
Ramulária ainda é a principal doença a ser controlada, contudo os produtores de algodão passaram a utilizar mais produtos de forma preventiva, aumentando em média uma aplicação de fungicida foliar, o que promoveu maior custo por hectare (R$ 320 em 2014/15 contra R$ 250 na safra 2013/14).

Conforme  o  Painel  AMIS,  as vendas de herbicidas caíram não somente pela redução de área e aumento da adoção de variedades resistentes a herbicidas não seletivos, mas também pela queda de preço, em média 6%, dos produtos mais utilizados. “Vale ressaltar que o gasto com herbicidas por hectare em variedades convencionais é 26% maior do que as variedades resistentes  a  herbicidas  (R$  310 versus R$ 230)”, observa Erica.

No entanto, em relação à redução de custos, o uso de variedade Bt promoveu economia com inseticidas. O custo por hectare do controle de lagarta caiu pela metade (cerca de mil reais por hectare de produto aplicado na safra 2014/15). O uso de lagarticidas representa 45% do gasto total de inseticidas na cultura.

Outro dado observado no Painel AMIS é que os produtores intensificaram o controle de bicudo. Houve aumento de duas aplicações em média, mas o impacto sobre o custo por hectare do tratamento contra bicudo não foi tão alto. Isso devido à redução no preço dos principais produtos (queda de 15%). defensivos para controle de pulgão também tiveram redução de preço de cerca de 10%, mas a queda das vendas só foi de 5% com relação à safra passada,
pois houve ligeiro aumento do número de aplicações e misturas de tanque.

“Estima-se que o mercado de inseticidas em algodão deve cair em valor nos próximos cinco anos, porém deverá voltar ao patamar atual em função de novos produtos”, diz Erica. Em média, são feitas mais de 15 aplicações de inseticidas na cultura do algodão, o que demanda grande investimento em tecnologia de aplicação de defensivos. uma vez que a produção se concentra em poucos produtores com grandes áreas, a busca por soluções economicamente viáveis para o controle de pragas é uma constante.


O manejo para melhor controle do bicudo consiste da realização de seis atividades principais durante o ano agrícola

1) Monitoramento de entressafra
As fêmeas do inseto, ao saírem dos abrigos, são atraídas pelos feromônios dos machos e após a cópula se alimentam por aproximadamente três a cinco dias com pólen antes de iniciarem a oviposição, pois precisam desse substrato para desenvolver seus ovos. É preciso, portanto, conhecer o tamanho da população que sobreviveu à entressafra e que, consequentemente, influenciará na taxa de crescimento populacional na próxima safra. A forma do produtor obter essa informação é por meio do armadilhamento na entressafra.

As armadilhas com feromônio para monitoramento da população de entressafra são instaladas normalmente 90 dias antes do início da nova safra. As leituras são semanais.

2) Pulverizações  localizadas na bordadura
Da fase V2 (plantas com duas folhas verdadeiras) até a fase C (ocorrência da primeira maçã firme) a aplicação localizada de inseticida em faixa de 30 a 40 metros ao longo do perímetro das lavouras de algodão é incentivada. Esta medida permite o controle de população recém-chegada  à  lavoura  e  não detectada pelas armadilhas ou nas amostragens visuais.

3) Pulverizações  na fase  B1  e cut-out com  base  no grau de infestação
Estas fases são críticas. Na primeira, a emissão de estruturas reprodutivas estimula a migração dos insetos do refúgio para a lavoura. Aplicações sequenciais de inseticidas neste momento visam controlar insetos da primeira geração pós-entressafra e evitar que eventuais insetos adultos oriundos da primeira oviposição possam sobreviver.

Com base nos resultados do armadilhamento de entressafra são classificadas as áreas de acordo com o grau de infestação (medido pelo número de bicudos coletados por armadilha por semana – BAS). Assim, capturas iguais ou maiores que 2 BAS definem as zonas vermelhas, faixa de captura entre 1 a 2 BAS definem as zonas amarelas; a captura de até 1 BAS define áreas azuis. No momento da emissão do primeiro botão floral (fase F1), momento da movimentação do inseto das áreas de refúgio para a lavoura, três pulverizações sequenciais a intervalos de cinco dias entre si são efetuadas em zonas vermelhas; duas pulverizações em zonas amarelas e uma pulverização em zonas azuis.

4) Pulverizações com  base  no nível de controle
Quando o nível de controle de 5% de plantas com estruturas atacadas para alimentação ou oviposição ou com presença da praga for atingido, efetua-se o controle químico.
Atenção para a rotação de princípios ativos, uma medida importante para reduzir a possibilidade de evolução da resistência dos insetos aos inseticidas.

5) Desfolha do algodoeiro com inclusão de inseticida
No momento do uso do desfolhante (quando 60% das maçãs estiverem abertas e as que ainda não estiverem abertas estiverem com mais de 25 dias), usa-se o desfolhante misturado ao inseticida. O desfolhamento reduz o suprimento alimentar do bicudo (principalmente no ponteiro) e antecipa a colheita. Os insetos que permanecerem nas plantas desfolhadas entram em contato com o inseticida aplicado.

6) Destruição da soqueira
Uma destruição eficiente e, se utilizada a destruição físico-química, a mistura do inseticida ao herbicida dessecante complementa a ação química de redução da população que iria para os refúgios na entressafra, reduzindo sobremaneira as próximas gerações de início de safra seguinte.


Fonte: Revista KLFF - 12ª edição





Mantenha-se atualizado com o Agro KLFF

Cadastre-se e recebe diariamente as novidades do mercado

2016 Portal KLFF. Todos os direitos reservados.

Termos de uso. Política de privacidade.