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10/03/2017

Algodão: Fibra ecológica conquista o mundo

Pequenos produtores da região Nordeste investem em produção orgânica e exportam para Europa

Algodão: Fibra ecológica conquista o mundo

De uma pequena cidade do interior do Piauí sai o algodão que chega ao mercado têxtil europeu. Pequenos produtores do assentamento Novo Zabelê, a 10 quilômetros de São Raimundo Nonato (PI), apostaram na produção orgânica da fibra e encontraram o caminho da exportação, modificando a realidade local.

Os agricultores adotam o sistema de consórcio agroecológico e a rotação de culturas com o feijão, amendoim e milho.
Segundo Maria de Fátima Conceição Sousa, presidente da APASPI (Associação dos Produtores Agroecológicos do Semiárido Piauiense), o consórcio e rotação de culturas permitem o maior controle de insetos como o bicudo, praga que já dizimou a produção local há cerca de 20 anos. “É um resgate do plantio de algodão na região. Além disso, o consórcio com outras culturas traz muitos benefícios. O milho deixa palhada para uma boa cobertura do solo e o feijão fixa o nitrogênio na terra”, diz Maria de Fátima.

Segundo Fábio Aquino de Albuquerque, entomologista da Embrapa Algodão, o sistema de cultivo em consórcio tem como base o plantio de diversas culturas, distribuídas em faixas, num mesmo local. Aquino explica que, para cada cinco faixas de algodão, outras cinco são plantadas de outras culturas. “Quanto mais diversificado  for  o  consórcio,  melhor para o controle de pragas, pois aumenta a biodiversidade fazendo com que as pragas do algodoeiro sejam controladas pelos seus inimigos naturais, mantendo o equilíbrio do ecossistema”, afirma.

No caso dos produtores da APASPI, além do algodão são plantados mandioca, batata doce, melancia, abóbora, entre outras culturas. “Trabalhamos desde 2005 com produção orgânica, mas não tínhamos noção correta sobre o que era agroecologia. Estudamos, fizemos várias oficinas de produção e agora temos a consciência de que é possível preservar o máximo possível e obter uma convivência harmônica com o meio ambiente”, diz Maria de Fátima.

De acordo com Albuquerque, a diversificação amplia a renda do produtor e traz ganhos ambientais, econômicos e sociais. O pesquisador explica que existem duas teorias sobre  a  eficácia  desse  sistema.  A diversificação de culturas pode confundir visualmente os insetos, já que o milho é mais alto que o algodão, por exemplo. Outro aspecto é que as plantas consorciadas proporcionam grupos de insetos diferentes, o que significa que alguns insetos controlam determinadas pragas, fazendo isso naturalmente, sem a interferência humana.

O cultivo em faixas funciona como uma barreira que evita a dispersão das principais pragas do algodoeiro, entre elas, o bicudo, a mosca-branca e o pulgão. Segundo a Embrapa, o bicudo, por exemplo, é um inseto que tem uma dispersão relativamente lenta. Portanto, se o algodão está cultivado entre faixas com outras culturas, primeiro ele vai se dispersar dentro dessa faixa, para depois se dispersar em outra, diferente do que ocorre quando se tem o monocultivo. “Se você tem um hectare cultivado apenas com algodão, o bicudo tem campo livre para dispersar e causar mais danos. No caso das faixas, há uma tendência dele se concentrar numa faixa para depois passar para outras”, acrescenta Albuquerque.

“A melhor cultura para o consórcio é aquela mais adequada para produtor. Ou seja, não se pode pensar somente como manejo de controle de pragas, mas como o produtor vai aproveitar essa produção – seja para consumo próprio ou para uma boa comercialização do produto no mercado”, acrescenta Albuquerque.

As vantagens do sistema agroecológico já foram comprovadas em experimentos da Embrapa Algodão (PB), que verificou a eficácia do consórcio de culturas como feijão, milho, amendoim e o gergelim e também novas variedades de algodão.

Já o custo de produção é variável. Cálculos mostram que o custo do algodão  orgânico  consorciado  fica entre R$ 2,5 mil e R$ 2,8 mil por hectare, enquanto que o custo de produção do convencional fica em torno de R$ 7 mil e R$ 8 mil o hectare. “Mas é preciso lembrar que a produtividade do algodão orgânico é de 1,5 mil quilos por hectare e a produção empresarial é de pelo menos 5 mil quilos por hectare. São números diferentes”, diz Albuquerque.

Além dos ganhos  econômicos  e ambientais, o cultivo em consórcio  estabeleceu uma nova forma de  negociação da pluma.  Conforme a  Embrapa Algodão, o que antes  era  vendido a preços mínimos para atravessadores,  hoje  é  exportado para a  Europa a preços superiores  e com garantia de compra.  A negociação prévia com os compradores foi a alternativa encontrada para assegurar a produção.

As culturas alimentares são para o consumo familiar e o excedente é comercializado em feiras orgânicas e mercados da região. O sistema vem sendo adotado nos estados da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco, onde oito associações de produtores já obtiveram o Selo do Sistema Brasileiro de Conformidade Orgânica em seus produtos de origem vegetal.no caso da APASPI, a retomada da cultura do algodão teve início em 2010, quando os produtores optaram pelo Projeto Dom Hélder Câmara, que, em parceria com a Embrapa Algodão e o Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria, apoiar agricultores familiares na produção de algodão em consórcio agroecológico com o objetivo de geração de renda, produção de alimentos e sustentabilidade ambiental, com ênfase em práticas de conservação do solo. Os incentivos possibilitaram o contrato de compra e venda com a empresa Organic Cotton Colours, da Espanha, que se comprometeu a comprar toda a produção da associação.

Maria de Fátima explica que foi uma longa caminhada entre o resgate de uma cultura que era de seus pais e avós para tornar-se a realidade atual. “Na primeira safra, em 2010, não conseguimos ter um bom resultado. Mas não desistimos e, com a experiência, demos continuidade em 2011. Em 2012, conseguimos registrar a associação e, no ano seguinte, o Ministério da Agricultura nos credenciou para utilizar o Selo do Sistema Brasileiro de Conformidade Orgânica em nossos produtos de origem vegetal”, conta. Desde então, o MAPA faz visitas anuais para verificar as condições dos produtos e se estão em conformidade com a certificação.

Para manter o controle de qualidade orgânica dentro da associação foram criadas as comissões de ética e de avaliação. “São cinco pessoas da associação que visitam 100% da área com um roteiro que observa solo, erosão, se há vestígio de algum produto não permitido ou mesmo de queimada - prática que era muito comum para limpar a área depois da colheita”, explica Maria de Fátima. Além disso, nesses encontros os produtores são sempre orientados sobre os produtos que podem ou não utilizar na lavoura, a importância de manter a fertilidade do solo e a troca de experiências sobre o que está e o que não está dando certo na produção.

“Esse é um dos nossos diferenciais. Trabalhamos juntos e ninguém aqui ganha mais que o outro. É uma mão de obra justa, solidária e que valoriza o meio ambiente”, afirma.

No entanto, ainda existem muitos desafios. Maria de Fátima destaca que um dos maiores gargalos da produção é o longo período de seca no Estado, que as vezes prejudica a produtividade da lavoura. No ano passado, não conseguiram produzir na faixa de 1 tonelada da fibra. Em 2014, a primeira remessa foi quase mil quilos de pluma orgânica para a espanhola Organic Cotton Colours. “Choveu pouco, o que comprometeu o resultado da produção. A expectativa é que na safra 2016/17 tenhamos uma boa produção”, diz a presidente da APASPI.
 

Novos mercados
Além do algodão e das culturas de milho, feijão, gergelim, mandioca, batata doce, melancia e abóbora, os produtores da APASPI se preparam para entrar no mercado de hortaliças. Segundo Maria de Fátima, a associação está em fase de conclusão de um contrato para fornecer legumes e verduras para o Instituto Federal do Piauí, que trabalha com educação do Ensino Médio e superior. “É um volume grande de pessoas que trabalham e estudam na instituição. hoje eles compram de produtores convencionais e, agora, querem comprar produtos orgânicos. A expectativa é fornecer as hortaliças ainda este ano e devemos fechar também para o próximo ano com a renovação do contrato. São 114 sócios cadastrados na associação agroecológica, que não abrange só os produtores do assentamento”, diz a presidente.

Por meio do Programa Ecoforte, que integra o Plano  nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) e visa o fortalecimento e a ampliação das redes, cooperativas e organizações socioprodutivas e econômicas de agroecologia, extrativismo e produção orgânica, a APASPI recebeu recursos de quase R$ 800 mil. O valor foi investido na estruturação das áreas técnicas de campo e na contratação de um coordenador agrônomo e na capacitação de quatro agricultores multiplicadores para dar suporte e auxiliar os produtores com orientações sobre o solo, fazendo curva de nível, evitando queimadas, rotação de culturas, barreiras vegetais e outras medidas.

O recurso também foi utilizado para a aquisição de um caminhão baú para o transporte dos produtos, na compra de duas máquinas para beneficiamento e extração de algodão e gergelim para a nutrição dos animais. O que não é consumido é vendido para outros produtores criadores de gado ou outros animais como cavalos. A verba derivada do Programa Ecoforte também ajudou na compra de equipamentos como computador e roçadeira para tirar o mato e contribuir com a cobertura de solo. “Todas as melhorias tem como objetivo tornar a terra o mais sustentável possível sem abrir novas áreas e melhorando com a rotação de culturas”, afirma Maria de Fátima. 





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