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28/08/2018 - Pecuária

Temple Grandin, a americana que desenvolveu o manejo racional do gado


Só é possível manejar aquilo que pode ser medido. Controlar o barulho, o espaço físico, o emprego excessivo da voz , eliminar os choques são medidas que a americana Temple Grandin adotou em seu metódo e que revolucionaram a pecuária, criando assim o manejo humanitário do rebanho.

Em julho, ela esteve no Brasil a convite de empresas do setor para reforçar ações de bem-estar nos animais de criação. Conduziu palestras concorridas em São Paulo. A principal de suas invenções na área talvez seja o curral curvo. “A importância do manejo racional e do curral curvo é tirar proveito do comportamento natural do animal, que é o de caminhar para onde ele veio”, diz Temple.

Tema premente na indústria da carne, inicialmente o bem-estar foi adotado como estratégia de redução de perdas econômicas. Em pouco tempo, percebeu-se que o manejo correto era necessário para a conquista de novos mercados graças à conscientização de que animais são seres sencientes. “Sentem angústia e  dor, por exemplo”, explica Mateus Paranhos, professor de bem-estar da Unesp de Jaboticabal (SP) e um dos anfitriões de Temple Grandin no Brasil.

Foi justamente o sentir que permitiu a Temple entender tão bem os animais. Até os 3 anos e meio, ela, criança, não falava. Aos 4, foi diagnosticada como autista. A mãe não permitiu que a filha fosse tratada de modo inferior. “Diferente sim, inferior não”, ela dizia. Temple cresceu querendo ser cientista. Na adolescência, um professor percebeu que a menina tinha uma mente especial. O encontro foi determinante.

“Até os 20 e poucos anos, eu achava que todo mundo pensava por imagens. Depois descobri que esse era apenas o modo como eu enxergava o mundo, um jeito diferente das outras pessoas”, diz.

A partir desse pensamento singular, que favorecia a expressão por gráficos e desenhos, Temple pôde pensar o manejo de forma inédita. Durante as férias num rancho no Estado americano do Arizona, ela percebeu como o gado agitado ficava tranquilo quando preso ao tronco de contenção para tomar vacina. Durante uma crise de ansiedade, Temple experimentou o aparelho e se sentiu tranquila. Foi assim que desenvolveu a “máquina do abraço”, que usava para se acalmar e pensar melhor.

Graduada em psicologia, Temple fez mestrado sobre os mugidos dos bovinos. Foi a primeira medida que avaliou. A vocalização é um dado importante sobre o bem-estar dos rebanhos. Do mugido Temple passou a medir outros dados concretos. “Tudo tem de ser medido continuamente. É como no trânsito. Se as pessoas pararem de medir a velocidade, as rodovias vão virar pistas de corrida”, diz, sempre recorrendo a exemplos concretos.

A compilação de dados mensuráveis permitiu a Temple Grandin ter sua grande sacada: o gado se sentia mais tranquilo se pudesse reproduzir seu comportamento natural nos confinamentos. Assim nasceu o curral curvo, que pode ser atribuído a sua mente especial.

A trajetória fez dela referência tanto no auxílio ao tratamento de crianças com autismo quanto no bem-estar animal. Ela escreveu diversos livros, obteve um PhD, tornou-se professora da Universidade Estadual do Colorado e consultora de importantes empresas da indústria da carne. Hoje, quase metade dos bovinos nos Estados Unidos é manejada com instalações projetadas por Temple Grandin, que teve sua história contada em um filme premiado, produzido para a televisão americana, em 2010.

Por Sebastião Nascimento e Vinicius Galera
Fonte: Globo Rural




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