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05/03/2018 - Pecuária

Tamanho nem sempre é documento na pecuária


Fazendas com áreas inferiores a 600 ha, consideradas pequenas para o Brasil Central, demonstram eficiência no uso dos recursos produtivos, com alta rentabilidade

Como diz o ditado popular, nem sempre quem é grande tem capacidade nem quem é pequeno deve ser previamente julgado como não a tendo. No caso da pecuária, o recado que está por trás do ditado também é válido. Quem tem área pequena pode muito bem ser eficiente na atividade, o que, a cada dia, se mostra mais necessário.

O conceito de pequeno não é uma unanimidade. Consultorias ouvidas por DBO expressaram essa divergência: pode ser determinada pelo tamanho da área, pelo tamanho do rebanho, pela capacidade de entrega do que se propõe a produzir, pela proporção entre o que tem de estrutura e o que fatura....

Para facilitar as coisas, DBO optou pela escala física como sendo o parâmetro para classificar o pecuarista como pequeno, médio ou grande. Alcides Torres Júnior, o Scot, proprietário da Scot Consultoria, de Bebedouro, SP, lembra que o último Censo Agropecuário do IBGE, de 2006, aponta que 2,5 milhões de propriedades com bovinos possuíam até 500 ha de área produtiva. Isso representa quase 95% do total com bovinos (ou seja, apenas 5% estavam nas mãos de médios e grandes).

André Aguiar, engenheiro agrônomo e sócio da Boviplan, de Piracicaba, SP, ressalta que “a partir do tamanho, fica mais fácil avaliar todas as variáveis”. A consultoria adota como parâmetro de pequena propriedade de bovinocultura de corte área produtiva de até 600 hectares para o Centro-Oeste e de até 1.000 ha para os Estados do Norte. As duas regiões, juntas, detêm aproximadamente 55% do rebanho bovino brasileiro, estimado em 212,3 milhões de cabeças (IBGE 2016).

Parâmetros necessários - Produção de carne acima de 12@/ha/ano, capacidade de suporte nos pastos superior a 1,5 UA/ha, ganho de peso médio diário (GMD) do gado acima de 450 gramas e um custo de produção da arroba nunca superior a 60% do valor da arroba comercializada. Estes são os indicadores tomados como referências principais pelo Instituto Terra de Métricas Agropecuárias (Inttegra) – uma espécie de franquia de consultoria originada da empresa Terra Desenvolvimento Agropecuário, com sede em Maringá, PR –, para que uma propriedade pequena possa almejar eficiência na atividade.

Segundo Rodrigo Patussi Nascimento, gestor do Inttegra, outra especialidade que os gestores de fazendas com esses indicadores devem cultivar é a capacidade de produzir alimento de sobra. “O aumento da lotação deve estar ligado à disponibilidade de forragem, que deve incluir uma boa estratégia para a entressafra”, diz ele, citando como exemplo a reserva de uma área para confinamento, que deve ser utilizada pontual e habilmente, para atender situações circunstanciais provocadas por agentes externos como clima (secas) e mercado (insumos extremamente baratos).

Ele considera a cria, em seu modelo tradicional, como o sistema de produção pecuário mais complexo para ser adotado em uma propriedade com disponibilidade de área limitada: “Exige lotes diversificados, com diferentes categorias e necessidades distintas. Numa emergência, haveria grande dificuldade para reduzir a lotação. Não é impossível, mas desafiador”, define.

A Inttegra presta serviço atualmente a 263 propriedades no Brasil e 22 no Paraguai, somando 888.000 ha de área produtiva e um rebanho de pouco mais de um milhão de cabeças. Levantamento feito com exclusividade para DBO revela que deste total de fazendas, 39 têm área produtiva de até 500 ha, sendo 27 em sistema de recria-engorda. A maioria (22) não possui confinamento e está voltada para a produção comercial de carne (35). Este grupo de fazendas apresenta um lucro líquido médio (chamado de resultado gerencial global) de R$ 341/ha/ano, obtido em uma área de pastagem (média) de 259 ha com uma produção global de 17,84 @/ha/ano e um GMD global de 494 gramas.

Para André Aguiar, da Boviplan, a propriedade eficiente, independentemente do tamanho, é aquela que atinge o ponto de equilíbrio entre produtividade e rentabilidade, com tendência a manter ascendente a curva dos dois. “Nem sempre a fazenda mais produtiva é a mais rentável”, diz o sócio consultor da Boviplan, que presta serviço a 32 fazendas de pecuária (19 no Brasil e 12 na Bolívia), que representam uma área produtiva de 83.000 ha e um rebanho em torno de 105.000 cabeças.

Aguiar destaca que a gestão de procedimentos geralmente é menos complicada para as propriedades de pecuária consideradas pequenas. “No entanto, para serem bem-sucedidas, elas têm de estar abertas a oportunidades e não devem se fixar num sistema único de produção”, recomenda o consultor, apontando como exemplo a Fazenda Ledacara, de Selvíria, MS, um dos três clientes da Boviplan com área produtiva de até 600 ha, que deixou o ciclo completo para se dedicar à recria- -engorda e este ano concentrou o trabalho mais na recria e menos na engorda, sempre mantendo uma elevada rentabilidade (veja reportagem à página 60).

Trata-se de privilegiar a rápida tomada de decisões, algo que se tornou prerrogativa para a sobrevivência de muitos pecuaristas, especialmente em anos de incertezas e de margens apertadas, como este 2017.

Localização também conta - Alcides Torres, da Scot Consultoria, pondera que, no mercado agropecuário, a produção de alimentos a baixo custo só é viável em grande escala, sejam eles soja, milho, trigo, arroz ou carne bovina. Nesse sentido, ele tenderia a sugerir a produtores detentores de áreas pequenas que partissem para outras atividades, mais compatíveis com essa realidade, como horticultura, fruticultura ou pecuária leiteira. Mas ressalva: “Se a propriedade estiver localizada numa região onde o forte é a bovinocultura de corte, ela poderá tranquilamente apostar na atividade, desde que aprenda a ser tope em tecnologia”.

Este imperativo, segundo ele, vem da necessidade de se intensificar ao máximo o sistema produtivo. Neste sentido, classifica a informação como primeiro e essencial insumo. “Uma propriedade de até 600 ha produtivos no Brasil Central consegue gerar renda no mesmo patamar que um trabalhador urbano de classe média consegue. Dinheiro público para financiar os ajustes necessários existe. O mais complexo é o acesso ao conhecimento. As informações técnicas estão disponíveis, mas só isso não basta. Carecemos de mecanismos de difusão”, observa o consultor, lembrando o sucateamento pelo qual passaram as empresas públicas de extensão rural nas últimas décadas. “Este papel está hoje praticamente a cargo das empresas fabricantes de insumos”, completa.

Para ganhar força e competitividade, Torres sugere que pecuaristas desse porte se organizem em torno de núcleos regionais de produção ou em cooperativas. “No Paraná, onde ainda existe um esforço de extensão rural por parte da Emater (Empresa de Assistência Técnica Rural), as cooperativas de produtores de carne funcionam muito bem, algumas reunindo microprodutores, cada um com seus 50 a 80 hectares de área disponível na propriedade”, lembra (veja mais sobre o Paraná na página 56)

“Risco de extinção” - Professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), Júlio Otávio Jardim Barcellos lembra que, nesses casos, a diferenciação de produtos – para atender a nichos de mercado – garante a sobrevivência de quem tem menor escala de produção. “Nela, é possível um maior controle de procedimentos ligados ao bem- -estar, ao que se convencionou chamar de ‘atividade limpa’ e à sustentabilidade”, diz ele, apontando o sistema de recria-engorda como o que apresenta melhores possibilidades.

Fora desse perfil e com dependência exclusiva da renda da pecuária, o professor se mostra bastante pessimista: “A produção em escala limitada, em pequenas propriedades, cujo dono busca se manter exclusivamente da bovinocultura de corte, está com seus dias contados.” O motivo: a incapacidade delas de competir com as grandes empresas na aquisição de tecnologias que levem ao aumento da produtividade, o que exige grande quantidade de capital. “O desaparecimento desse pessoal é uma questão de tempo”, prevê.

Barcellos acredita, no entanto, que a pecuária de corte em pequenas áreas continuará existindo, mas sob a gestão do que ele chama de “novos pecuaristas” – aqueles marcados pela aura de investidores, como os profissionais que já trabalham com outras atividades e que têm vínculos com o meio rural. “Seriam exatamente os que, por sucessão familiar ou por investimento no negócio, compartilham parte do seu tempo com a fazenda”, esclarece.

O professor da UFRGS também concorda que a escala física em hectares não determina, por si só, o resultado de produção em uma propriedade. Diversos fatores como qualidade de solo, região, logística, acesso à tecnologia e mercado devem ser considerados. “Uma área de 500 hectares com solos de boa qualidade e que tenha condições de passar por uma intensificação, poderá ter uma escala de produção superior a uma fazenda de 5.000 hectares dentro de uma região como o Pantanal do Mato Grosso do Sul”, exemplifica.

Cooperativismo, uma das saídas - Agrupar-se numa cooperativa, de preferência que participe ou esteja empenhada em conseguir fazer parte de um programa de carne de qualidade. Essa é uma das estratégias possíveis para pecuaristas de pequenas áreas. Um bom exemplo vem da Cooperativa Maria Macia, de Campo Mourão, região noroeste do Paraná. Desde 2005, como uma aliança de produtores, e a partir de 2008, como cooperativa, seu foco é a produção de carnes consideradas especiais, oferecendo ao mercado 24 cortes, entre populares (patinho, picanha, alcatra, etc.) e gourmet (t-bone, prime rib, etc.).

Boa parte dela vem de um contingente de aproximadamente 20 produtores que têm área de até 300 ha, de um total de 170 pecuaristas e abate mensal médio de 1.300 cabeças. Segundo o veterinário Paulo Emílio Prohmann, diretor- -secretário da cooperativa, há fazendas até menores, de 170 ha, mas também aquelas com até 3.000 ha. “A média fica em 700 ha de área produtiva”, informa ele, apontando os 300 ha como parâmetro para ser considerado pequeno.

Ele enumera três grandes vantagens para esses associados, no que diz respeito a reunir condições para uma melhor produtividade: compra de insumos mais baratos, assessoria técnica e comercialização a preços acima dos de mercado. “Conseguimos descontos de até 30% na aquisição de suplementos minerais e de 5% em medicamentos. Na compra de lonas, brincos, calcário e sementes, varia de 5% a 30%”, revela Prohmann.

Na comercialização, cita o exemplo recente, do início da segunda quinzena de setembro: “Nosso produtor recebeu R$ 153 à vista, pela arroba do macho, enquanto que o mercado da região não pagava mais do que R$ 145”. Para ter direto à bonificação, é necessário que o pecuarista entregue o animal dentro das características específicas de tipificação de carcaça. Dentre elas, fêmeas com peso acima de 400 kg, machos acima de 480 kg (ambos com idade de até 24 meses), além de cobertura de gordura mínima de 5 mm.

Para indústria, tamanho não interessa - No longínquo município de Rolim de Moura, no leste de Rondônia, distante 483 km da capital, Porto Velho, produtores com minúsculas áreas entre dois a cinco hectares são fornecedores de gado para abate. “São os chamados “chacareiros”, que vendem de três a quatro animais, eventualmente, para os frigoríficos.

Para Fabiano Ribeiro Tito Rosa, gerente executivo de compra de gado do Minerva Foods, esse pequeno terminador costuma apresentar algum tipo de problema, como documentação incompleta, por exemplo. Mas isso não significa que a porta da empresa estará fechada para ele. “O tamanho da propriedade não limita nosso negócio. Existem soluções para tudo, mesmo que a quantidade de animais seja ínfima. Muitas vezes tenho de mobilizar um caminhão para recolher os bois em mais de uma propriedade, até formar uma carga de 18 animais”, conta, considerando pequeno quem entrega até 400 cabeças/ano para o frigorífico.

Questionado sobre quanto percentualmente esse grupo representaria para o negócio do Minerva, Fabiano diz tratar-se de “informação estratégica”. Procurado, o frigorífico Marfrig alegou não pode atender à reportagem.

Equipe deve ser enxuta e generalista - Contratação de tratorista, capataz, campeiro, gerente geral, gestor de compras, inseminador, serviços gerais e motoristas definitivamente não deve constar da agenda de uma pequena fazenda voltada para a bovinocultura de corte. O alerta é do zootecnista Rodrigo Gomes, pesquisador nas áreas de nutrição e alimentação animal da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande, MS, para quem o produtor deve focar em medidas que possam reduzir os custos de produção. “A equipe de trabalho deve ser bem enxuta, bem capacitada e generalista. Se o sistema adotado for o de recria e engorda, com um rebanho entre 600 e 900 cabeças por exemplo, duas ou três pessoas são suficientes”, diz ele. Ou seja, a relação razoável é de 1 funcionário para cada 300 cabeças.

Ainda que não descarte a possibilidade de se trabalhar com cria em áreas pequenas, Gomes também considera a recria como atividade mais adequada para os pequenos, desde que haja uma oferta forrageira abundante para aproveitar o melhor momento do animal em eficiência de ganho de peso: “Não se pode perder de vista que o recurso em potencial é o pasto e que a recria é a fase mais propícia para se fazer arrobas em quantidade e a um custo bem barato”.

Na semana que vem, publicaremos as histórias de duas fazendas que conseguiram aliar elevada rentabilidade e área de menos de 600 ha no Brasil Central. 

*Matéria publicada originalmente na edição 444 da Revista DBO. 

Por: Ariosto Mesquita

Fonte: Portal DBO




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