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01/11/2018 - Outros

Rochagem para reduzir custos


O Brasil importa entre 80% e 90% da matéria-prima de fertilizantes que utiliza. Essa dependência impacta os custos de produção do agricultor, uma vez que o insumo é cotado em dólar, moeda que saltou de R$ 3,20 no início do ano para mais de R$ 4 às vésperas do primeiro turno das eleições.

A greve dos caminhoneiros também pesou na conta: resultou no tabelamento do frete e elevou os preços dos fertilizantes no mercado interno, o que levou uma parcela de produtores – aquela que tinha falta de recursos e deixou para comprar na última hora – a reduzir a quantidade aplicada. “O adubo mais usado na soja, que é a formulação 18-18 de fósforo com potássio, teve um aumento, em reais, de mais de 50% no custo da tonelada”, diz Antônio Galvan, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja – MT). “Em média, os fertilizantes respondem por cerca de 20% a 25% do custo do hectare de soja”, complementa.

O insumo é essencial para a agricultura tropical, em que a alta intensidade de chuva lava os terrenos, e o uso intensivo da terra torna os solos lixiviados. Neste contexto, os agricultores têm buscado alternativas para evitar que o lucro porteira adentro seja corroído pela alta dos adubos. A rochagem, também conhecida como remineralização do solo, é a mais promissora e tem sido alvo de pesquisas da Embrapa e do Serviço Geológico do Brasil, conhecido como CPRM, desde o final da década de 90. Trata-se da utilização do pó de rochas regionais como fertilizantes nas lavouras.

O insumo foi batizado como agromineral e reconhecido pelo Ministério da Agricultura como fertilizante na Lei 12.890, de 2013, regulamentada em 2016. Até então, a legislação só considerava os adubos químicos solúveis, o conhecido NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). “Os remineralizadores fornecem nutrientes e melhoram a qualidade do solo. Eventualmente, podem substituir adubos, mas, em geral, são complementares aos produtos usados para manejar a fertilidade”, diz o geólogo Éder de Souza Martins, pesquisador da Embrapa na área de Agrogeologia. “Uma das consequênciasdo uso de agrominerais é aumentar a eficiência de nutrientes, que é muito baixana agricultura brasileira”, explica Martins.

VANTAGEM AMBIENTAL
A função do pó de rocha é remineralizar o solo, ou seja, repor os minerais que o terreno perdeu e que podem disponibilizar nutrientes para plantas. É bom lembrar que tanto os fertilizantes solúveis quanto os agrominerais são provenientes de rochas. No primeiro caso, o fósforo e o potássio são extraídos com o emprego de ácidos. Depois, a indústria prepara o produto na formulação demandada pelo cliente. Por um lado, os adubos solúveis são facilmente absorvidos pelas plantas. Por outro, devido à solubilidade, tendem a ir embora com a primeira chuva, enchendo de nutrientes os cursos d`água e causando a eutrofização, nome dado à grande quantidade de algas que tornam os rios e os lagos verdes.

Os agrominerais, por sua vez, têm uma vantagem ambiental: podem ser resíduos da mineração. “Em qualquer lugar do Brasil há uma pedreira, de onde se retira brita para revestimento asfáltico e construção civil, e o pó vai se acumulando no pátio. Se a rocha for interessante como remineralizadora, este subproduto pode trazer um ganho a mais”, aponta Andrea Sander, geóloga do CPRM. No entanto, a ação do pó de rocha não é imediata. Depois de aplicado ao solo, ele precisa reagir para soltar nutrientes. “A rocha é um conjunto de minerais e está sujeita à chuva, à temperatura e a uma série de agentes na superfície da terra para se degradar. Ela vai sofrer a ação da matéria-orgânica e dos microrganismos do solo que vão acelerar esse processo”, diz Magda Bergmann, geóloga do CPRM.

RESISTÊNCIA ÀS PRAGAS
Embora a liberação de nutrientes seja mais lenta, o pó de rocha tem algumas vantagens. Ele permanece no solo e fornece micronutrientes que os fertilizantes químicos não contêm. “A planta, além de ficar mais nutrida, se torna mais saudável e melhora a resistência a pragas, porque recebe não só o NPK, mas outros micronutrientes, como boro e selênio”, explica Andrea  Sander. 

O engenheiro agrônomo Rogério Vian confirmou isso na prática. Proprietário de uma fazenda de 1.000 hectares em Mineiros (GO), há 12 anos ele foi “forçado” a migrar para uma agricultura sustentável. “Hoje, faço por amor, mas entrei pela dor, porque minha propriedade faz divisa com o Parque Nacional das Emas, e eles criaram um plano de manejo que proibia quem estava ao redor de aplicar defensivo que não fosse faixa verde, impedia a aplicação aérea e também o plantio de transgênicos nas proximidades do parque”, informa Vian.

Na busca de soluções, há sete anos o agrônomo participou de um dia de campo onde conheceu o pó de rocha. “Naquele evento, percebi que as plantas com adubação química finalizavam o ciclo antes e adoeciam mais, enquanto aquelas que levavam pó de rocha eram mais sadias e tinham menos pragas”, lembra. A constatação levou o agrônomo a fazer um experimento em 54 hectares de soja em sua fazenda na safra 2012/2013. Ele tirou todos os adubos químicos e usou os agrominerais para repor o fosfato. “Coloquei 5 toneladas de pó de rocha por hectare e fiquei cinco anos sem colocar mais nada produzindo acima de 60 sacas de soja por hectare”, explica. 

Segundo Vian, o uso de remineralizadores deixa o sistema mais resiliente. “Onde você usa pó de rocha, a planta consegue ficar mais dias sem chuva e reduz o custo de adubação. No meu caso, reduzi para 20% do que representam os custos de fertilizantes hoje”, diz Vian. No entanto, o pó de rocha precisa estar num raio de 300 quilômetros da propriedade para ser uma alternativa competitiva. Isso porque a quantidade de agrominerais necessária para o manejo da fertilidade do solo é maior do que seria preciso de adubos solúveis. Se a fazenda estiver muito distante da mineração, o frete torna o produto inviável.

INVESTIR EM PESQUISAS
De 2009 para cá, a Embrapa esteve envolvida em cinco pesquisas com foco em pó de rocha. Nestes trabalhos foram feitos testes agronômicos em casa de vegetação, onde se percebeu que a ação de microrganismos presentes no solo é fundamental para que os agrominerais liberem os nutrientes.O próximo passo é definir um protocolo adequado para os experimentos em campo.

Hoje, o Ministério da Agricultura tem 14 agrominerais registrados, mas há potencial para muitos outros. Segundo Bergmann, do CPRM, “há uma ideia do que existe de rochas propícias no País inteiro”, e a CPRM já trabalha com algumas em projetos regionais. Junto com a Embrapa, a CPRM tem como meta desenvolver um zoneamento agrogeológico do Brasil e um raio X detalhado das rochas nacionais que podem ser usadas na agricultura. “Este projeto tem como objetivo revelar áreas produtoras de agrominerais e potenciais consumidoras”, diz Éder de Souza Martins, da Embrapa.

Não há dúvidas de que a rochagem, técnica inicialmente usada por pequenos  agricultores que não tinham condição de comprar fertilizantes químicos, é uma alternativa para baratear os custos da produção agrícola e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros. No entanto, o próximo governo precisará investir recursos em pesquisas. Afinal, o Brasil é um país de dimensão continental, e cada região tem suas especificidades: um tipo de solo, uma tradição de cultivo de determinadas culturas, bem como rochas peculiares àquela localidade. Além de identificaras rochas, é necessário estudá- las. “Nos interessam materiais reativos, que liberem nutrientes no tempo da lavoura cultivada ali”, finaliza Bergmann.

Por Lívia Andrade
Fonte: Caderno Agro - O Estado de S.Paulo




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