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29/10/2018 - Mercado

Recuperação de florestas também pode ser um bom negócio rural


Reconstruir uma floresta é um trabalho delicado, mas a pesquisa está apontando caminhos para tornar o processo mais simples e barato. A recuperação pode até se transformar num bom negócio.

Esta é a próxima etapa depois do cadastramento das propriedades rurais, que vai até o fim de dezembro, segundo as regras do Novo Código Florestal.

Exemplo do Acre
Com quase 100 propriedades rurais cadastradas, o Acre foi um dos primeiros a entrar nessa nova etapa. A agropecuária no estado se desenvolveu, principalmente, a partir da década de 1980 e se concentra na faixa leste.

Técnicos já trabalham com um sistema integrado ao novo PRA. O sistema indica as áreas irregulares e os proprietários rurais escolhem como fazer a recuperação.
A fazenda Colônia Futuro, em Acrelândia, foi uma das primeiras a entrar na fase de recuperação. Os técnicos observaram pela base cartográfica que havia mais de um curso d’água na propriedade e que o dono teria que recuperar mais ou menos 1,7 hectare.

A fazenda fica em um antigo assentamento da reforma agrária. Nas ocupações antigas, dos anos 1970, 1980, a pecuária é quase regra e sobrou pouca mata nativa.

Os desmatamentos anteriores a 2008 foram perdoados pelo Novo Código Florestal, mas beiras de rios e córregos têm que ser recuperadas obrigatoriamente.

O projeto para recuperar um dos córregos da fazenda Colônia Futuro tem 10 anos para ficar pronto. E foi desenhado pela equipe de Meio Ambiente, que apoia imóveis pequenos, e por um biólogo que orienta o proprietário.

O primeiro passo para a recuperação foi isolar uma área próxima ao curso do rio para que o gado não pisoteie. Agora, a fase é de observação, deixar a natureza agir.
Depois, se preciso, haverá introdução de mudas.

“Áreas que não foram muito danificadas, geralmente mantém isso que nós chamamos de regeneração natural. Embaixo da braquiária, há um banco de sementes. E, se a gente tirar o gado, ele vai se expressar”, diz Ricardo Rodrigues, biólogo da Esalq.

Nesses casos, o custo para recuperar, segundo ele, é de menos de R$ 1 mil por hectare. No córrego da Colônia Futuro, serão recuperados 5 metros de cada lado. O antigo código exigia 30 metros.

Exemplos em São Paulo
O estado de São Paulo tem algo como 1 milhão de hectares de terras ruins para a agricultura, com morros e pedras, mas sem vegetação nativa porque foram tomados pelo fogo.

É uma área quase do tamanho do Rio de Janeiro e do Espírito Santo juntos. São terrenos pobres para a agropecuária, mas ótimos para florestas.
O laboratório de ecologia e restauração da Escola de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq) testou com sucesso técnicas para reconstruir a Mata Atlântica na fazenda Capoava, em Itu, que se encaixava nessas condições.

A primeira medida foi cercar áreas de baixa produtividade. Nos morros de pedra, a vegetação voltou sozinha. Em outras áreas, foi preciso plantar.

Novas técnicas
Até então, para reflorestar uma área usava-se o conceito de espécies pioneiras - árvores que crescem mais rápido, e não pioneiras, as mais lentas, que chegam depois. Mas a Esalq ampliou esse conceito e criou mais etapas.

Além das árvores altas, as pioneiras, o solo na fazenda Capoava também está coberto por uma “adubação verde”, no caso, feijão guandu, gergelim, crotalária. São espécies que enriquecem o solo e são ainda mais rápidas que as nativas pioneiras.

As pioneiras e as de adubação verde são plantadas ao mesmo tempo, e só depois vêm as espécies mais lentas, que enriquecem a mata.
Num plantio com técnica moderna, em 2 anos a floresta começa a ganhar corpo e, em 5, já é um bosque forte.

Plantio direto
A restauração florestal também se vale de técnicas consagradas na agricultura. Um exemplo é o plantio direto. Já tem plantadeira que serve para soja, milho e também para espécies nativas. Em uma linha, planta sementes arbóreas nativas e, em outra, a adubação verde.

No sistema antigo de plantio de floresta, o custo médio era de R$ 20 mil por hectare. Nesse modelo da Esalq, cai para R$ 8 mil e a manutenção é bem menor.
Na fazenda Capoava, hoje, 60% da propriedade é ocupada por reflorestamento - muito além dos 20% de reserva legal exigidos pelo Código Florestal para a Mata Atlântica.

Depois de passar por ciclos da cana de açúcar, do café e da pecuária, ela agora é uma pousada rural que, pela lei, pode arrendar a mata extra para outros proprietários. É uma espécie de crédito de floresta.

“Essa região pode servir de compensação de reserva legal das propriedades que estão aqui no entorno e que são de alta produção agrícola, como por exemplo a cultura canavieira aqui do lado”, diz Ricardo Rodrigues, da Esalq.

Servidão florestal
Na chamada servidão florestal, o proprietário não perde o direito de uso da área e pode investir também no aproveitamento econômico da mata nativa, com espécies frutíferas, como a aroeira-pimenteira, que dá a pimenta rosa, ou madeira nobre. Tudo em sistema de rodízio.

É o que acontece em 300 hectares da fazenda Guariroba, em Campinas. Lá, tem plantados Araribá, que em 10 anos chega no ponto de corte, e o Jequitibá e Pau-Rosa, que demoram cerca de 20 anos.

Tem também Canafístula e Tamboril, duas espécies de madeira boa, aproveitadas para movelaria e infraestrutura da casa - e que estarão no ponto de corte em 3 anos.

A madeira é uma renda extra, já que está na reserva legal, área que não pode ter outra atividade.
A recuperação é obrigatória e, segundo os cálculos da Esalq, pode gerar um bom lucro: a cada R$ 10 mil investidos no plantio, o ganho seria de R$ 1,5 mil por ano.

Mas a exploração demora, para madeiras médias, 10 anos, e, para as madeiras finais, 18 anos. Por isso a importância de se ter uma política pública, uma linha de financiamento que permita que o agricultor faça isso.

Desmatamento
Desde 1985, o Brasil abriu 74 milhões de hectares em diferentes regiões. A maioria de forma ilegal e pelo menos 10% disso após o Novo Código Florestal, segundo o projeto de monitoramento do solo MapBiomas.

“Os números mostram que o desmatamento não caiu. Aliás, no caso da Amazônia, ele subiu. 2012 foi o ano com menor desmatamento: 4 mil quilômetros quadrados. E os últimos números falam em 8 mil quilômetros quadrados, então, dobrou”, afirma Tasso Azevedo, engenheiro florestal do MapBiomas.

Fonte: Globo Rural




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