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09/07/2019 - Mercado

Otimismo e desafio: os impactos do acordo Mercosul-União Europeia para o Paraná


Em 1998, as exportações do Paraná para a União Europeia representavam 11,1% do total dos bens vendidos pelo Brasil ao bloco europeu. Vinte anos depois, a parcela paranaense nesse bolo caiu para 9,8%. Em valores nominais, as vendas de produtos paranaenses aos europeus cresceram – de US$ 1,7 bilhão há duas décadas para US$ 4,1 bilhões no ano passado –, mas outros estados tiveram expansão maior.

Com a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, no último dia 28 de junho, setores produtivos paranaenses veem surgir uma grande oportunidade para ampliar as exportações do estado e conquistar uma maior fatia no bolo de produtos brasileiros vendidos para os parceiros europeus.

Do agronegócio à agricultura familiar, passando pela indústria e o comércio, todos ressalvam que o estado precisa melhorar em competitividade. A avaliação geral, no entanto, é que o Paraná está bem posicionado para obter ganhos com a liberação de tarifas dos dois lados. Alguns setores menos competitivos poderão sofrer com a concorrência de produtos importados, situação que poderá ser contornada a médio prazo com medidas governamentais para reduzir encargos sobre a produção, o que permitiria aumento de produtividade e também da qualidade dos produtos.

Além da expectativa de ampliação das vendas para a União Europeia, que reúne cerca de 500 milhões de consumidores, os produtores do Paraná apostam que o acesso às prateleiras dos mercados de países do bloco abrirá as portas para a entrada em outros mercados com alto grau de exigência, os quais hoje restringem as compras de produtos brasileiros.

Agronegócio comemora
Entre os setores exportadores do Paraná, o agronegócio é de longe o mais otimista com o acordo. A expectativa é de expansão e de recuperação do mercado europeu como grande comprador dos produtos da agricultura e da pecuária do estado. Em décadas passadas, a participação das vendas do agronegócio para a União Europeia era maior, mas perdeu espaço para países asiáticos.

Um levantamento do economista Luiz Eliezer Ferreira, da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), mostra que dos US$ 100 bilhões exportados pelo agronegócio brasileiro no ano passado, US$ 17,7 bilhões foram para a União Europeia. Isso representa apenas 15% das exportações da agricultura e pecuária do país. Em 1997 a situação era bem diferente: 51% das exportações do agronegócio brasileiro iam para a União Europeia. No caso do Paraná, há 20 anos as exportações do agronegócio para o bloco europeu representavam mais de 20% do total exportado. Hoje essa participação caiu para 10%.

“Tivemos poucos acordos comerciais importantes. Agora, o acordo Mercosul-União Europeia prevê, num horizonte de 10 anos, cotas e tarifa zero para nossos produtos. Por exemplo, a cota de frango, que é nosso carro chefe em proteína animal, será de 180 mil toneladas com tarifa zero. Isso abre perspectiva de aumento das nossas exportações, já que o Paraná exportou para a UE 100 mil toneladas de carne de frango em 2018. Da mesma forma ocorre com outros produtos, como carne suína e açúcar”, diz Eliezer Ferreira.

Mas há setores que deverão sofrer, pelo menos num primeiro momento. O de lácteos é um deles. “Os queijos europeus vão acessar mais facilmente o mercado brasileiro e paranaense. O mesmo vale para o leite em pó, que terá uma cota de 10 mil toneladas de origem europeia. Há uma perspectiva de aumento da importação desses produtos, o que causará impacto na cadeia de produção local”, ressalva o economista.

Desafios para a indústria
O setor industrial paranaense tem potencial para provocar um grande impacto nas exportações para a União Europeia, mas o acordo representa um grande desafio. Um dos líderes que se empenharam nos últimos anos em defesa da abertura comercial, o presidente da Federação das Indústrias do Estados do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, está otimista, mas diz que agora será preciso fazer o dever de casa.

“Aí entram as reformas importantes, como a da Previdência e a Tributária. Essas mudanças são necessárias para nos colocar em condições de competir. Hoje pouquíssimos setores estariam prontos para competir”, avalia.

Na opinião de Campagnolo, o custo Paraná e o custo Brasil têm que ser resolvidos em ritmo acelerado para que os efeitos positivos que o acordo poderá trazer não sejam anulados. “A gente não exporta impostos. Temos hoje que fazer uma peregrinação para restituir créditos de impostos, como é o caso dos créditos de ICMS. Não dá para ficar ouvindo que o Congresso tem outro ritmo que o Governo. O Congresso tem que se adaptar ao ritmo do Brasil, ao ritmo que os brasileiros necessitam”, afirma.

Com relação às áreas específicas da indústria, o presidente da Fiep ressalta que existem realidades diferentes no estado. “Nossa indústria de alimentos, especialmente na área de carnes, não há dúvida de que será competitiva. Temos de resolver alguns problemas sanitários, mas estamos em condições de competir. O agronegócio nos últimos 20 anos foi um dos setores em que tiveram os maiores avanços tecnológicos, investiu em pesquisa, e a produtividade cresceu muito”, observa.

O problema, segundo Campagnolo, está na indústria de manufaturados. “Nesse setor, o aumento de competitividade não aconteceu. A indústria continua tendo dificuldades. Não temos crédito, falta inovação. Temos problemas tributários, custos embutidos na produção que encarece nossos produtos. Então vamos ter que tomar medidas para conseguir competir. E o resultado só vem a médio e longo prazo”, prevê ao apontar os setores de vestuário e calçado com grande potencial de serem beneficiados.

As cotas e prazos estabelecidos no acordo são fundamentais, na avaliação do presidente da Fiep.  “Nas condições atuais hoje, se fossem abertos totalmente, nós seríamos aniquilados”, alerta. Apesar disso, ele vislumbra uma injeção de ânimo na economia com o novo cenário.

Incremento do comércio
O vice-governador do Paraná, Darci Piana, que também é presidente da Federação do Comércio do Paraná (Fecomércio), atuou durante oito anos como coordenador empresarial brasileiro do Fórum Econômico Social do Mercosul. Piana lembra que faz 23 anos que os setores produtivos dos países do Mercosul vinham tentando chegar a um acordo, mas sempre encontravam barreiras, principalmente na área alimentícia, devido à resistência dos agricultores europeus. Agora, com a assinatura do acordo, ele prevê um incremento das trocas comerciais, o que impacta não só a indústria e o agronegócio, mas também o comércio.

“Não acredito que nós vamos ter no Paraná algum tipo de entrave, dificuldade ou prejuízo com esse acordo. Muito pelo contrário. O Paraná deve ganhar em questão de investimento, principalmente por ser um estado que tem uma estrutura mais saudável na economia em relação aos demais estados do Brasil. Nós temos aqui uma grande população descendente de europeus, com ligações familiares, comerciais, industriais e históricas com os europeus e isso vai facilitar”, diz.

Um dos ganhos apontados por Piana é o melhoramento da qualidade da produção paranaense. “Vamos ter que melhorar nossos produtos para atender as exigências dos europeus. Com produtos melhores, nós também poderemos exportar para outros países exigentes. Vamos conseguir uma expansão mundial, exportar para outros países que têm controle de qualidade rigoroso, como Japão e Canadá”, avalia.

O vice-governador lembra que entre 2008 e 2010, com o incremento do fluxo comercial internacional, o Brasil conseguiu vender mais e também importar mais. “Nós chegamos a ter 30% de produtos importados na prateleira do comércio. Isso gerava lucro, emprego, propiciava crescimento do comércio do Paraná. Depois, com as dificuldades que o país passou a enfrentar, como a alta do dólar, isso foi caindo e hoje está entre 10% e 12%. E esses produtos importados hoje vêm, em grande parte, de países que oferecem qualidade duvidosa, produtos sem tecnologia, em função de preço. Os impostos da União Europeia encarecem os produtos vendidos ao Brasil. Agora, com o acordo pode ser possível trazer produtos melhores com preços competitivos.”

Agricultura familiar
Apesar do temor da entrada de produtos europeus de alta qualidade e a preços reduzidos, os pequenos agricultores também vislumbram possibilidades de ampliar seus negócios com a abertura comercial. A inspiração vem da própria Europa, onde grande parte dos produtos da agricultura e da pecuária vem de pequenas propriedades e são de alta qualidade.

Para o Presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais e Agricultores Familiares do Paraná (Fetaep), Marcos Brambilla, um bom número de pequenos agricultores do estado está integrado às cooperativas, às grandes indústrias, que levam os produtos para fora, principalmente carne de frango. “Esses vão ganhar, vão ser mais competitivos com o fim das barreiras na Europa”, diz.

Na avaliação de Brambilla, a agricultura familiar também pode se beneficiar com soja e milho, produtos que entram na cadeira de alimentação de animais para produzir proteína animal, além de mel, que é exportado para a Europa. Sobre os problemas, ele aponta os produtores de leite e derivados, como queijos, os quais podem sofrer com a entrada de importados.

“Para os pequenos produtores, o acordo só trará resultado se houver organização. Tem que formar cooperativas, grupos de produtores. Se não fizer isso não vão conseguir os benefícios que o acesso a esses mercados europeus pode oferecer. Vão continuar vendendo produtos baratos, deixando os ganhos pelos caminhos, para terceiros”, alerta, ao defender que os pequenos devem empreender no meio rural e criar agroindústrias para agregar valor e qualidade aos produtos.

O representante dos pequenos agricultores também faz um chamado ao governo para dar atenção ao setor. “Temos cerca de 250 mil famílias produtoras rurais no Paraná, que vivem no campo produzindo. São propriedades pequenas, de 5 alqueires, que mesmo com pouca terra produz suínos, aves, peixe, soja, milho, frutas.”

Por Célio Martins
Fonte: GAzeta do Povo




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