Notícias

29/05/2019 - Tecnologia

"O uso de dados vai salvar a agricultura", diz cientista global da Microsoft


Big data, inteligência artificial e internet das coisas (IoT) são algumas das tecnologias que estão revolucionando diferentes setores da economia. Mas, segundo Ranveer Chandra, cientista-chefe global da Azure, a plataforma de computação em nuvem da Microsoft, existe uma área que ainda resiste a essas transformações.

“Um estudo mostra que, entre 23 setores, a agricultura está na última posição em termos de transformação digital – atrás até mesmo da caça”, diz Chandra. Para ele, o maior problema é a escassez de dados, fundamentais para criar algoritmos. “Conexão é o maior desafio do agronegócio. Precisamos desses dados para fazer uso das tecnologias disponíveis." 

Chandra é responsável pela criação do FarmBeats, programa da Microsoft que coleta grandes quantidades de dados das fazendas usando sensores terrestres, drones, tratores, câmeras e espaços em branco de TV - ou seja, canais de TV que não são ocupados e onde normalmente só aparece uma tela em branco. Esses espaços podem ser usados para criar uma conexão semelhante ao wi-fi, mas com maior alcance e mais resistente. No Brasil essa tecnologia ainda não é permitida, mas em alguns países como Estados Unidos (EUA) e Cingapura, já é bastante comum.

Segundo Chandra, o custo desse sistema de coleta é reduzido pela junção dos dados recolhidos por todos os dispositivos. "Os dados dos sensores se conectam com os dados dos drones e das câmeras, tornando mais fácil a criação de algoritmos." 

Nos últimos quatro anos, o FarmBeats foi aplicado em fazendas nos EUA, Índia, Nova Zelândia e Quênia. Entre os resultados alcançados, estão a redução de 30% no consumo de água, e de 44% no tempo de controle de PH.

A previsão é que, até o final do ano, o sistema comece a ser produzido comercialmente - e o Brasil não pode ficar de fora. "O Brasil é um dos primeiros países que vem a mente quando pensamos em agricultura", afirma. "Desenvolvemos o FarmBeats de maneira que sua tecnologia pudesse ser aplicada aqui e em outros países em desenvolvimento". 

De passagem pelo Brasil, Chandra conversou com Época NEGÓCIOS sobre as dificuldades de aplicar novas tecnologias no campo, e sobre como os dados devem mudar a agricultura do futuro.

Como o uso de dados pode ajudar o agronegócio?
A alimentação é um dos grandes problemas da humanidade. Até 2050, a produção precisa aumentar em 70%, para sermos capazes de alimentar a população mundial. Não só precisamos ser mais produtivos, mas também criar alimentos mais nutritivos e sustentáveis. O único caminho que vejo é por meio dos dados. Muito do trabalho feito na agricultura hoje toma como base apenas a experiência dos agricultores. Se combinarmos esse conhecimento com dados, poderemos desenvolver algoritmos de IA que tornem o agronegócio mais produtivo. Um campo mais conectado não só fornece dados para o agora, mas ajuda a criar previsões mais efetivas para o futuro.

A tecnologia torna a produção mais sustentável?
Sim, porque os dados ajudam a criar uma agricultura mais precisa. Por exemplo, ao mapear uma fazenda, você consegue medir a umidade, o índice de PH, a temperatura e os nutrientes do solo em cada área. Em vez do agricultor aplicar a mesma quantidade de água, fertilizantes e pesticidas de forma homogênea por todo o campo, aplica somente onde for necessário. Dessa forma, você aumenta o rendimento, reduz o custo e reduz o impacto ao meio ambiente.

Como avalia o uso da tecnologia na agricultura brasileira?
O Brasil, como o restante do mundo, precisa se transformar para chegar ao próximo estágio.  O movimento tem sido lento. Muitos países estão usando satélites para recolher dados sobre o agronegócio. Mas essa opção não é acessível e por isso não pode ser aplicada em larga escala. Os governos precisam subsidiar a tecnologia, da mesma forma que fazem com fertilizantes e agricultura. Os órgãos públicos já entendem que esses produtos são necessários para a produtividade do agricultor, mas não perceberam que os dados precisam ser colocados no mesmo pacote.

Qual a maneira mais ágil e eficiente para recolher os dados do agronegócio?
É comum nas fazendas havermuitos canais de TV que não são ocupados. Por meio desses espaços de TV brancos, conseguimos criar uma rede de wi-fi que abrange largas distâncias. Dessa maneira, aproveitamos um sistema já existente nos campos e reduzimos os custos. Ao juntar essas informações com aquelas coletadas pelos sensores e pelos drones, conseguimos criar algoritmos que preveem acontecimentos em outras partes do campo. Assim você não precisa instalar muitos sensores, o que não é acessível para muitos agricultores. Além disso, os drones podem ser substituídos por balões de hélio. Em campos no Quênia, a câmera de um smartphone em um balão criou imagens aéreas de toda a fazenda.

O uso de IA vai substituir o conhecimento dos agricultures?
Acredito que não. Todos os agricultores com quais conversei têm um conhecimento único sobre a sua produção. Eles sabem dizer quais são as condições do solo apenas pegando a terra na mão. Nosso objetivo é combinar esse conhecimento com os dados que vamos recolher, para que ele possa tomar melhores decisões.

Você ainda sente resistência por parte de agricultores em aplicar tecnologia?
Pela minha experiência, agricultores de países desenvolvidos e em desenvolvimento realmente estão interessados em trabalhar conosco. Eles sabem que não têm dados suficientes e por isso estão abertos para esse relacionamento.

Como expandir essa tecnologia levando em conta as diferenças dos meios de produção em cada país?
Entendemos que a única maneira de levar essa tecnologia para todos os tipos de agricultores é por meio de parcerias. Para coletar os dados de maneira eficiente, o FarmBeats precisa ser customizado de acordo com cada região. Por isso é importante fazer parcerias com empresas e agritechs locais. Muitas vezes, essas empresas já têm um relacionamento com os agricultores, mas ainda sofrem com a falta de dados. Nós queremos preencher esse gap. Esse procedimento funcionará em fazendas grandes. Para as pequenas, ainda estamos estudando algumas possibilidades. Na Índia, por exemplo, trabalhamos com ONGs para criar um aplicativo que prevê quando o agricultor deve realizar a colheita.

Por Érica Carnevalli
Fonte: Épopca Negócios




Mantenha-se atualizado com o Agro KLFF

Cadastre-se e recebe diariamente as novidades do mercado

2016 Portal KLFF. Todos os direitos reservados.

Termos de uso. Política de privacidade.