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19/07/2019 - Milho

MT: milho fora do padrão de exportação é recusado e agricultores questionam


Quase 80% das lavouras de milho já foram colhidas em Mato Grosso e tem muito agricultor questionando a classificação na hora da entrega do produto. A polêmica é antiga e, este ano, como choveu bastante durante a safra e muitas lavouras sofreram com a alta umidade, as discussões estão ainda maior.

Com metade da lavoura colhida, só agora o agricultor Rogério Berwanger conseguiu negociar a retirada de parte da produção da fazenda em Jaciara, sudeste do estado. A entrega dos 40 mil sacos vai abrir espaço no armazém da propriedade pra que a colheita possa continuar. A bronca do agricultor é com uma outra empresa com quem ele negociou antecipadamente a venda de 20 mil sacas de milho. A unidade recusou a carga, alegando que a quantidade de grãos avariados estava acima dos padrões de exportação.

“Um, dois pontos a mais e a empresa não queria nem aceitar o desconto para levar, para o produto cumprir o contrato. Eu corri atrás de empresa aí para padronizar e as empresas nem querem. Não tem milho! Ou tem muito milho com problema e o pouco que tem com qualidade não consegue dosar”, desabafa o produtor.

Quando o assunto é classificação, a polêmica no campo é grande. Em Lucas do Rio Verde, médio-norte do estado, o agricultor Gilberto Eberhardt também reclama da postura de algumas empresas, especialmente quanto aos resultados na hora da entrega da produção.

“Além de pegar o milho que é avariado, eles estão aplicando o desconto além do que é a realidade de avariado! Isso me deixou indignado, fui atrás, estou correndo atrás e vou até o fim, porque todo milho que estiver além da qualidade padrão eu vou querer reembolso”, afirma.

Agricultor e presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Emerson Zancanaro explica que a maior insatisfação é com a falta de regras e métodos mais modernos, o que geralmente expõe os resultados à subjetividade dos classificadores.

“Nós temos que entender que não é toda lavoura que está com este problema, é um percentual da lavoura e mesmo assim algumas destas lavouras quando a carga chega pra fazer a classificação na trading, ela dá avariado… e quando nós levamos o classificador, não dá avariado. Então estamos vendo que existem critérios diferentes para cada empresa que recebe”, comenta.

A diferença de critérios gera desconfiança e fica clara quando entram em cena os classificadores da Aprosoja. Eles são acionados quando os agricultores não concordam com as classificações feitas pelas empresas receptoras. Integrante do time de classificadores da Aprosoja, Huander Moreira demonstra como a diferença é grande em alguns casos. Credenciado junto ao Ministério da Agricultura, o classificador apresenta o resultado de uma das amostras que analisou:

“Nesse caminhão que a gente mandou para uma trading deu 12,4% de avariado no resultado deles, sendo que na minha classificação deu 6,93%, uma diferença de 5,47% lesando o produtor em aproximadamente 2.220 quilos que vai dar aí aproximadamente 40 sacas”, aponta.

Diante da polêmica e dos prejuízos aos agricultores, a Aprosoja cobra mudanças nas normativas que regem a classificação de grãos, com maior foco nos teores de óleo e proteína da carga, como explica o diretor administrativo, Lucas Costa Beber:

“Hoje a Aprosoja tem trabalhado para justamente para tirar o fator humano da classificação, temos buscado parcerias com empresas que tem máquinas desenvolvidas nas quais analisa teor de óleo, teor de proteína, acidez do grão, e mas para frente também no milho o teor de amido, para justamente no futuro o ministério da agricultura mude as normativas para que o grão seja remunerado não pela classificação tradicional de hoje, mas sim pela qualidade dos seus teores para que o produtor possa buscar um pagamento mais justo por aquilo que ele produz”, conclui.

As respostas
Por telefone, o diretor comercial da empresa que não quis receber milho do agricultor Rogério Berwanger, informou que a falta de armazéns próprios na unidade da multinacional em Rondonópolis-MT a impede de ser mais flexível na hora de receber a produção avariada do campo, já que sem a estrutura não é possível fazer o ‘blend’ – misturando grãos avariados e grãos bons. A empresa diz que precisa seguir os padrões de exportação exigidos nos portos de transbordo.

Já a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais , a Abiove, afirma que as associadas seguem a instrução normativa do Ministério da Agricultura para a classificação de grãos, além de regras internacionais. A entidade ressalta também que os classificadores são profissionais capacitados tecnicamente para o serviço e que a determinação de umidade é realizada por equipamentos com padrão do Inmetro e respeitam a portaria específica sobre o tema. A Abiove destaca ainda que os produtores que não concordarem com a avaliação podem optar por não descarregar o produto e solicitar uma nova classificação, que é realizada com o fornecimento da contra-amostra.

Nós também entramos em contato com o Ministério da Agricultura e o coordenador geral de qualidade vegetal, Hugo Caruso, nos enviou algumas informações esclarecendo que a situação mostrada na reportagem se trata de uma questão comercial entre empresas particulares. A norma do Ministério é aplicada na importação e na compra pelo governo. Na aquisição por empresas privadas não é obrigatório seguir os padrões mínimos. Dessa forma, a pasta não tem nenhuma ferramenta que altere essa situação. Mesmo que mudem os padrões, a norma não alcança a relação entre as empresas.

Por Luiz Patroni
Fonte: Canal Rural




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