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24/11/2017 - Outros

Modelo de crédito rural está com os dias contados, diz diretor do Banco Central


Executivo diz que mudança deve ocorrer, porque o volume dos depósitos à vista teve uma queda real, descontada a inflação, de 25% nos últimos cinco anos.

O modelo de crédito rural vigente no país há quase 40 anos, que libera recursos a taxas subsidiadas para todos os produtores, está com os dias contados. O alerta foi dado na última terça-feira (21/11) em palestra a dirigentes de cooperativas por Claudio Filgueiras Pacheco Moreira, diretor do Banco Central responsável pelo Derop (Departamento de Regulação, Supervisão e Controle das Operações de Crédito Rural). A palestra integrou o evento “O Poder do Cooperativismo”, que foi organizado pelo Sicoob-Credicitrus  e reuniu mais de 300 lideranças em Bebedouro, no interior paulista.

O Plano Safra deste ano prevê a liberação de R$ 188,4 bilhões em financiamentos até junho de 2018, sendo R$ 116,25 bilhões com juros controlados (6,5% a 8,5% ao ano) e R$ 34 bilhões com juros livres, que dependerão de negociação entre o produtor e a instituição financeira. Do total anunciado, 13%, o equivalente a R$ 25 bilhões, já foram contratados no bimestre julho-agosto ante os 11% emprestados no mesmo período do Plano Safra anterior.

Segundo o representante do Banco Central, a mudança no crédito rural terá que ocorrer porque o volume dos depósitos à vista que ainda são a base dos recursos teve uma queda real, descontada a inflação, de 25% nos últimos cinco anos. “Como fazer o dinheiro do crédito rural crescer? Será que a tutela é realmente necessária para todos? O grande produtor rural que contrata crédito de R$ 800 milhões precisa da mão do Estado como o pequeno que financia R$ 50 mil? Essas questões foram colocadas como desafio aos cooperativistas pelo palestrante, alertando que, talvez, o Estado deva “segurar nas mãos” apenas os pequenos produtores.

Moreira disse que o conceito de crédito rural tem que evoluir e que cabe ao Estado dar segurança para o mercado operar, mas não necessariamente liberar dinheiro com taxas subsidiadas para todos os produtores. Segundo ele, os recursos provenientes de outras fontes têm crescido e devem ser mais utilizados. No caso das LCA (Letras de Crédito Agrícolas), o volume dobrou em dois anos e, hoje, praticamente ninguém contrata pelo teto das taxas. O juro pode ser mais alto para o pequeno produtor, mas para o grande fica quase equivalente ao do crédito subsidiado e é liberado de forma muito mais fluída e logo pode ser feita até eletronicamente.

O diretor ressaltou que qualquer alteração no crédito rural tem que ser aprovada por cinco setores: Banco Central, ministérios do Planejamento, Fazenda, Agricultura e Casa Civil. Disse ainda que uma mudança que já está em curso é a redução, com o uso da tecnologia de ponta, dos custos de observância e vigilância para concessão do crédito rural que, atualmente, em alguns casos chegam a ser maiores que o crédito concedido.

Lição de casa
No Brasil, 420 cooperativas operam crédito rural, segundo o Banco Central, mas a participação delas no mercado é de apenas 14% do volume, ante os 51,6% (já foi 82%) dos bancos públicos e 33,4% dos bancos privados. Segundo Moreira, um dado levantado na última sexta-feira pelo seu departamento, com base nos 3 milhões de contratos do crédito rural da última safra, o surpreendeu muito: as cooperativas de produção só buscaram 2,7% dos recursos nas cooperativas de crédito. Isso significa que há muito espaço a ser conquistado por esse segmento.

Marcelo Martins, porta-voz da Sicoob Credicitrus, anfitriã do evento, disse que o “puxão de orelhas” do diretor do Bacen foi motivador para o setor. “A cooperativa sabe como fazer o crédito rural porque está próxima do produtor, conhece as necessidades e os detalhes da operação do cooperado. Esse alerta vai nos motivar a conseguir quebrar algumas barreiras e avançar nesse segmento.” 

Martins afirma que a Sicoob Credicitrus, com 34 anos de atividade e patrimônio líquido de R$ 1,3 bilhão, tem atualmente aproximadamente R$ 1,1 bilhão em crédito rural e o sistema Sicoob, R$ 11 bilhões. “Nós já estamos buscando aproximação com a cooperativa de produção para que ela foque realmente na produção e a cooperativa de crédito fique com a operação financeira.” A Sicoob Credicitrus é a maior cooperativa de crédito do país, com 81.613 cooperados e ativos totais de R$ 5,4 bilhões. Vai inaugurar em dezembro sua 60ª unidade, atingindo todo o interior paulista e mineiro.

Por: Eliane Silva

Fonte: Globo Rural




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