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17/01/2020 - Mercado

Guerra comercial: como o acordo entre China e EUA afeta o produtor rural?


A China e os Estados Unidos assinaram a primeira fase do acordo para ultrapassar as disputas da guerra comercial entre os dois países, após quase dois anos de uma crise que abalou a economia mundial. Desde 2018, o impasse entre as duas potências gerou uma escalada de tarifas impostas pelos EUA a US$ 360 bilhões de produtos chineses e retaliações por parte de Pequim, com reflexos na economia mundial. 

Apesar do cenário tenso mundialmente, o Brasil foi um dos beneficiados pela guerra entre os dois gigantes. De acordo com a Insper Agro Global, nossas exportações aos chineses saltaram de US$ 24 bilhões em 2017 para US$ 35 bilhões em 2019. Enquanto a dos EUA, no mesmo período, caiu de US$ 26,6 bilhões para US$ 13,2 bilhões.

Pensando em tirar algumas dúvidas do produtor rural brasileiro, o Canal Rural preparou um conteúdo especial com os fatos que o agricultor deve saber sobre o acordo histórico, assim como os possíveis impactos na agricultura. Veja abaixo:

O que diz o acordo?
A China se compromete a importar um total de US$ 200 bilhões em bens e serviços oriundos dos Estados Unidos, incluindo produtos agrícolas, nos próximos dois anos, além de não manipular o valor da moeda e a proteger a propriedade intelectual das empresas norte-americanas.

Em troca, os EUA cancelaram uma nova leva de tarifas que entraria em vigor e anunciaram a redução de 15% para 7,5% a sobretaxa a US$ 110 bilhões imposta em setembro. Confira aqui a íntegra do documento assinado!

Compra de produtos agrícolas dos EUA pela China
Durante a assinatura, Trump afirmou que a China compraria até US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos Estados Unidos em dois anos. No entanto, o documento assinado entre os países prevê a compra de US$ 32 bilhões de produtos agrícolas. Destes, US$ 12,5 bilhões seriam comprados no primeiro ano e no segundo, US$ 19,5 bilhões.

Quais itens estão dentro do acordo?
O tratado prevê a compra de diversos produtos, como itens manufaturados, da agricultura, energia e em serviços. Para o agronegócio, o acordo prevê a compra de soja, carne bovina, suína, de aves, de ovinos e de caprinos (frescas, refrigeradas e congeladas). Além disso, outros subprodutos da pecuária, como miúdos, gorduras e embutidos.

Também podem ser adquiridos animais vivos dos Estados Unidos, como suínos, bovinos, ovinos, caprinos, cavalos, jumentos e mulas. No acordo, também há previsão de compras de lácteos (leite, queijo, manteiga entre outros).

Tarifas sobre produtos chineses vão continuar
O acordo, no entanto, não anula a maior parte das taxas punitivas impostas pelos Estados Unidos. Os norte-americanos vão manter taxas adicionais de 25% sobre US$ 250 bilhões de dólares de bens importados da China e de 7,5% sobre mais US$ 110 bilhões.

Trump, afirmou que as taxas ainda em vigor são uma forma de manter as negociações para a segunda fase do acordo, mas disse que está pronto para retirar todas as sobretaxas assim que os dois países chegarem a um acordo final.

Reflexos no agronegócio brasileiro
Para Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, o acordo marca uma nova era de negócios administrados no mundo, mas também pode impactar negativamente o agronegócio do Brasil. 

Ele explica que em 2019, a China foi um dos principais destinos das exportações dos produtos brasileiros. Neste cenário, a assinatura do acordo comercial poderia impactar os negócios do Brasil em 2020, principalmente o mercado de soja já que os chineses poderiam voltar a comprar o grão dos norte-americanos. A expectativa dele é que a China não deixe de comprar, mas a aquisição poderia ser menor.

“Ou seja, enquanto a China e EUA estavam em conflito comercial, o Brasil conseguiu conquistar essa lacuna no mercado chinês. Com esse acordo, o Brasil tem como consequência perder parte desse mercado”, afirma.

Já para para o comentarista do Canal Rural e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Benedito Rosa, o acordo assinado nesta quarta-feira não impactará o agronegócio brasileiro no curto prazo.

“O acordo prevê que as exportações agrícolas alcançaram esse montante até o fim de 2021. No curtíssimo prazo, metade da safra de soja do Brasil já está vendida e as exportações de carnes continuam muito aquecidas. No geral, a trégua é boa para ativar a economia mundial, o que também beneficiará as exportações”, argumenta.

Ainda para Benedito Rosa, a disputa entre americanos e chineses pela hegemonia do comércio continuará por vários anos. “A China tem muito claro que as exportações agrícolas são importantes para os Estados Unidos e por isso está fazendo concessões de forma lenta e gradual. Ela não fará grandes concessões, em volume, principalmente para carne de frango que os EUA têm disponível para expandir”, diz.

Por fim, o analista Michael McDougall, da consultoria Paragon, analisa que neste momento, a China prefira comprar soja do Brasil já que os produtores estão colhendo a safra. Ele destaca que as ofertas do grão brasileiro começam a ficar mais competitivas no exterior com o começo dos trabalhos de campo. “O mercado já está favorecendo o Brasil”, afirmou.

Ele afirma, no entanto, que o milho dos EUA poderá ser favorecido. “A China deu uma pausa por enquanto no plano de etanol (mistura do biocombustível na gasolina), porque os estoques de milho estão muito baixos. Os EUA têm uma brecha, mas por enquanto o milho da Ucrânia ainda está agressivo (no mercado internacional)”, disse. McDougall acrescentou que etanol de milho e trigo podem ser alternativas para a ampliação das compras chinesas nos EUA.

Segunda fase do acordo
O fim da negociação entre os dois países ainda depende de uma segunda fase do acordo. No evento de assinatura, Trump disse que começará a trabalhar ‘assim que a poeira assentar’ e disse esperar que não haja uma terceira fase. 

Anteriormente, ele havia afirmado que a fase dois do acordo deveria sair após as eleições dos Estados Unidos, em novembro deste ano.

Guerra ainda pode continuar
Para o economista Carlo Barbieri, o acordo não deve acabar com a guerra comercial entre os dois países. “Em primeiro lugar, porque a disputa é muito mais estratégica do que comercial e há outros interesses em jogo, principalmente o domínio mundial pela China através da logística, como tem sido divulgado na imprensa mundial”, explica.

O especialista comenta que Trump precisava assinar o acordo por conta das perdas de mais de US$ 10 bilhões em exportação na área agrícola. A China, no entanto, não teria interesse em fechar um acordo definitivo antes de ter uma segurança que Trump será novamente eleito ou não. “Porque assim como para o Irã, a China não quer que o atual presidente norte-americano seja reeleito”, ressalta.

Com essa situação, uma negociação inicial se tornaria mais simples para a China. “Por outro lado, se ficar claro que Donald Trump será reeleito, é melhor assinar antes que ele se fortaleça em relação a um segundo mandato”, ressalta.

Fonte: Canal Rural




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