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09/09/2019 - Outros

Entrevista/Roberto Rodrigues: "Agro brasileiro vive momento de contradições"


O agronegócio brasileiro vive um momento de múltiplas contradições, avalia o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e uma das principais lideranças do setor. De um lado, diz, há a expectativa de que o Brasil seja protagonista do esforço multilateral para aumentar a produção agrícola nos próximos 10 anos, a fim de garantir a segurança alimentar global, saciando a fome para buscar a tão sonhada paz no planeta. De outro, acrescenta, as recentes queimadas e desmatamentos na Amazônia provocaram uma certa aversão aos produtos nacionais no mercado externo. Tal reação, sublinha, é potencializada pelo que considera “terrorismo sobre o suposto exagero no uso de defensivos agrícolas” nas lavouras brasileiras.

Esse cenário criou mais um desafio para o agro superar para poder se manter como um dos mais exitosos setores da economia brasileira, respondendo por mais de 21% do Produto Interno Bruto (PIB), por quase 18,5 milhões de empregos e por cerca de 42,5% das exportações totais do país, pontua  Roberto Rodrigues, hoje coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), professor titular da Cátedra de Agronegócios da Esalq/USP e embaixador da FAO para as cooperativas.

Em entrevista ao AGROemDIA, Roberto Rodrigues diz que o agro tem errado na forma de se comunicar com a sociedade sobre esses temas e que também precisa fazer um profundo diagnóstico sobre as novas tendências de consumo de alimentos:

AGROemDIA: Como o senhor vê o atual momento vivido pelo agronegócio brasileiro?
Roberto Rodrigues: Vivemos um momento cheio de contradições no agronegócio brasileiro.

Por quê?
Por um lado, estão valendo as previsões do USDA [Departamento de Agricultura dos Estados Unidos] de que só haverá segurança alimentar no planeta nos próximos 10 anos se a oferta de alimentos crescer 20%, considerados os aumentos das populações e da renda per capita dos países emergentes. E, para que esse crescimento da oferta global se materialize, o Brasil terá que aumentar a sua própria em 41% no período.

Essa diferença significativa é atribuída a três fatores cuja simultaneidade é rara: temos uma tecnologia tropical sustentável, disponibilidade de terras e, sobretudo, gente empreendedora e capacitada a promover os saltos demandados.

Por outro lado, os recentes incidentes relacionados a incêndios e desmatamentos na Amazônia se transformaram em fatores de rejeição aos nossos produtos agrícolas exportáveis, sem falar num ‘terrorismo’ determinado por um suposto exagero no uso de defensivos agrícolas por parte de nossos agricultores.

O agro tem parcela de responsabilidade pelo desmatamento na Amazônia?
De 2004 – ano do auge de desmatamento na Amazônia – até hoje, a derrubada floresta caiu 72%, embora tenha havido um pequeno aumento nos últimos dois anos. Mas isso não se deve a agricultores. Na sua maior parte, são ilegalidades cometidas por madeireiros, grileiros e até garimpos clandestinos. O setor rural condena vigorosamente todo desmatamento ilegal, compreendendo que só é aceitável aquele permitido pelos organismos governamentais responsáveis. Mas reconhece que houve um aumento nos últimos anos e encarece ao governo as medidas necessárias para que toda ilegalidade seja punida exemplarmente.

As queimadas potencializaram a preocupação mundial com a proteção da Floresta Amazônica?
É sabido que nesta época mais seca do ano sempre acontecem queimadas. A própria NASA teria dito que o número de focos está próximo da média dos últimos 10 anos, embora ligeiramente acima, o que pode ser atribuído à estiagem e também a crimes, além do fato de a queima ser utilizada por agricultores, especialmente pequenos, para limpar terrenos já abertos para preparar o solo para o próximo plantio. Esta é uma prática ancestral, mas é controlada, e não é a responsável pela magnitude dos incêndios.

De novo, os produtores rurais profissionais condenam os incêndios e reconhecem que esforços devem ser empreendidos por governos federal, estaduais e até municipais, em conjunto com o setor privado, para reduzir drasticamente tanto o desmatamento ilegal, que precisa ser zerado, quanto os incêndios, notadamente os criminosos.

Ambientalistas daqui e de outros países apontam o agro brasileiro como o maior consumidor global de defensivos agrícolas. Somos ou não?
O tema do uso de defensivos agrícolas chega a ser risível. O Brasil é mesmo um dos maiores consumidores destes agroquímicos do mundo, o que se justifica plenamente pela extensão territorial cultivada, pelo fato de fazermos duas safras por ano no mesmo terreno, enquanto os países do Hemisfério Norte fazem apenas uma, e por sermos um país tropical, onde as pragas e moléstias são mais numerosas e agressivas. Mesmo com tudo isso, estudos da FAO mostram que usamos muito menos defensivos por hectare cultivado e por quilo de produto agrícola do que o Japão, a Coreia e vários países europeus.

Há má-fé nesse tipo de acusação?
É uma falácia a acusação de que os alimentos brasileiros são produzidos com mais agroquímicos que os concorrentes. O que tem que ser melhorado é a forma do uso. Basta usar todos os equipamentos exigidos por lei, aplicar a dose certa do “remédio” certo para combater a doença ou as pragas certas que não haverá problema.

O movimento ambientalista também tem condenado a liberação de grande número de defensivos agrícolas pelo governo federal nos últimos meses. A crítica procede?
Também se propaga que estamos liberando defensivos demais. Outra falácia. Nos últimos três anos, de fato, licenciamos mais moléculas do que no passado, mas isso é feito com o máximo cuidado quanto a efeitos eventualmente nocivos ao meio ambiente. Na verdade, estamos apenas ‘tirando o atraso’ de anos de burocracia que impedia o registro de defensivos mais modernos e menos agressivos ao ambiente, reduzindo o tempo de avaliação de risco, que chegava a até 10 anos, três ou quatro vezes mais do que nos países concorrentes.

Por que, então, isso ganha força na opinião pública, criando um clima de “demonização” do agro?
Na verdade, onde temos errado demais é na comunicação sobre todos estes temas, e a repetição de notícias distorcidas e até falsas as transformaram em verdades. É essencial corrigir tais “desinformações”. Os consumidores do mundo todo têm o direito de conhecer a verdade dos fatos para decidirem o que vão comprar, e informá-los adequadamente é um dever dos brasileiros, produtores e governos.

Até porque isso tudo pode, de fato, comprometer nosso futuro de grande campeão mundial de segurança alimentar, frustrando aquela expectativa do USDA, que é compartilhada por estudos similares realizados pela OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] em conjunto com a FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura].

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China contribuiu para acelerar a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia?
A guerra comercial entre China e Estados Unidos vinha produzindo uma nova fase de protecionismo por parte dos países ricos, que estava tirando o protagonismo da OMC [Organização Mundial do Comércio] e outros órgãos reguladores, desmanchando avanços duramente conquistados em décadas de negociações diplomáticas. Isso encareceria o preço dos alimentos nos países mais ricos. Talvez este seja um dos elementos determinantes de novos acordos como o anunciado entre União Europeia e Mercosul, que, além de mitigar os efeitos deletérios da guerra comercial, abre um horizonte de progresso para o Mercosul e de fartura para a Europa.

Mas ainda há resistência de alguns países da União Europeia em relação ao acordo com o Mercosul?
Os produtores de alguns países europeus não ficaram felizes com o acordo, e isso é compreensível. Não querem sair de sua zona de conforto para enfrentar uma competição em que podem levar desvantagem. Tal reação preocupou alguns governos no Velho Continente, que passaram a rediscutir o acordo. E aqueles três temas – desmatamentos, incêndios e defensivos – mal explicados e mal comunicados, reforçaram essa posição de rediscussão.

Há como reverter esta situação?
É absolutamente essencial que se promova uma ampla campanha de esclarecimento sobre a extraordinária sustentabilidade de nossa agropecuária para que as coisas voltem aos eixos. E temos uma enorme quantidade de dados e argumentos que nos favorecem inequivocamente no grande mercado global.

Pesquisas recentes mostram que a sustentabilidade está influenciando as tendências de consumo de alimentos. O agro brasileiro está atento a isso?
É preciso realizar uma rigorosa avaliação das tendências de consumo de alimentos. Existem ‘campanhas’ contra as carnes vermelhas, contra o açúcar e outros produtos em que somos altamente competitivos. É importante avaliar com precisão o que tais movimentos produzirão quanto aos hábitos alimentares no mundo todo. Só assim poderemos estabelecer as estratégias adequadas para que a contradição que apontamos inicialmente seja equacionada. Com a verdade sobre a sustentabilidade de nossa produção restabelecida e com o conhecimento das tendências de consumo, o Brasil se posicionará competentemente no cenário da segurança alimentar global, resgatando seu papel de grande campeão da paz, visto que não haverá paz enquanto houver fome.

Por João Carlos Rodrigues e Tito Matos
Fonte: AGROemDIA




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