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31/07/2019 - Outros

Embrapa abre banco de dados


A Embrapa pretende estimular o avanço da agricultura digital com o objetivo de fomentar as agtechs, startups do agronegócio, e multiplicar o número de soluções em solo brasileiro. “Temos um número reduzido de agtechs. Precisamos mudar esse cenário”, afirma Celso Moretti, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa que assumiu interinamente a presidência da instituição no dia 17 de julho.

O primeiro passo envolveu a criação de uma plataforma para compartilhar informações sobre culturas, sistemas de produção e zoneamento de risco climático, batizada de AgroAPI. Trata-se de banco de dados, armazenado em sistema de computação em nuvem, disponível para empresas, pesquisadores e empreendedores interessados na agricultura digital. A iniciativa coloca a Embrapa no papel de articuladora, munindo soluções digitais com o conhecimento gerado em seus laboratórios. Traz para o setor um ambiente de colaboração equivalente ao encontrado nos Estados Unidos, França e Austrália. “As startups possuem um enorme potencial para transferir conhecimento ao mercado”, diz Moretti. O acesso gratuito à plataforma é limitado, mas o suficiente para testes. A ideia é rentabilizar a plataforma, por meio de assinaturas, garantindo verba para atualização constante e crescimento da base.

O sistema criado pela Embrapa ataca um problema comum: a escassez de dados organizados, padronizados e confiáveis. A questão das informações foi abordada no relatório mais recente da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) sobre o uso de tecnologias digitais na agricultura e nas zonas rurais. Segundo o estudo, a falta de padrão é fator crítico para o avanço das soluções. Outro ponto relevante é a propriedade do dado, importante para definir quem terá acesso e o que pode ser feito com ele. “As séries históricas da Embrapa balizam as políticas públicas e a pesquisa para o agronegócio no Brasil”, diz a pesquisadora Silvia Massruhá, que chefia a unidade de informática agropecuária da Embrapa.

Fomentar a agricultura digital é um movimento importante para o Brasil. A Embrapa, que – por meio da geração e transferência de conhecimento – tem participado ativamente dos avanços na agropecuária brasileira, desembarca de vez na chamada revolução digital, que, segundo a FAO, transformará o sistema alimentar, afetando agricultores, fornecedores de insumos, empresas de processamento, varejo e consumidores. A digitalização também é vista como alavanca para a inovação e deve resolver a difícil equação de levar tecnologia a propriedades rurais de todos os portes. Não é à toa que programas de estímulo para agtechs pipocam pelo globo.

Segundo relatório da FAO, a União Europeia está empenhada no estímulo aos ecossistemas de inovação – conectando startups, empresas, investidores, aceleradoras e universidades. Em 2017, a entidade contou 830 mil empresas orbitando os 20 principais centros europeus de startups. Juntas, elas geram 4,5 milhões de empregos e faturam 420 bilhões de euros. O avanço econômico dessas empresas depende do sucesso das novatas. O capital de risco também acordou para a revolução digital agrícola. Em 2018, as agtechs atraíram investimentos de US$ 16,9 bilhões, 43% superior ao registrado em 2017. De acordo com a FAO, o Brasil tem atraído recursos.

O estudo calcula – com base na produção agrícola global de US$ 1,2 trilhão (2015) – que a tecnologia vai promover aumento de 70% no rendimento do agronegócio até 2050, gerando ganhos de US$ 800 bilhões. O número depende da capacidade do setor em adotar, de forma gradual, soluções como drones, internet das coisas, robótica, blockchain, inteligência artificial e big data.

O estudo calcula – com base na produção agrícola global de US$ 1,2 trilhão (2015) – que a tecnologia vai promover aumento de 70% no rendimento do agronegócio até 2050, gerando ganhos de US$ 800 bilhões. O número depende da capacidade do setor em adotar, de forma gradual, soluções como drones, internet das coisas, robótica, blockchain, inteligência artificial e big data.

Na visão de Silvia, o banco de dados da Embrapa é uma ferramenta capaz de engajar o setor produtivo e ampliar o número de agtechs no país. “O conhecimento vai se espalhar com maior facilidade.” Ela estima em 600 as startups ligadas ao agronegócio no Brasil (não há um censo sobre agtechs). Nossa preocupação é com a cobertura dos serviços de telecomunicações. No Brasil, 65% das propriedades rurais não possuem conectividade. Este é um grande entrave”, lembra Moretti.

Outro movimento é a conexão entre os agentes do ecossistema de inovação, aproximando startups, empresas de grande porte e instituições de ensino. Em junho, durante o I Encontro de Negócios para Agricultura Digital, realizado em Campinas, a Embrapa lançou um programa de aceleração em parceria com a Venture Hub e apoio da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec). Silvia diz que a instituição sempre participou de iniciativas com startups, em ações dispersas, “no varejo”. Mas percebeu a necessidade de agir de forma integrada e assertiva. “Nos posicionamos no fomento desses negócios”, reforça.

Os dados vão servir para projetos ligados diretamente aos processos de produção no campo, além de abastecer startups de outros segmentos. Um bom exemplo é a Gira – sigla para gestão integrada de recebíveis do agronegócio. A empresa nasceu no segmento financeiro e agora se define como agfintech. Gianpaolo Zambiazi, CEO da Gira, é advogado e, há quatro anos, enxergou mudanças na matriz de crédito do agronegócio. “Produtores e bancos querem indicadores que vão além da avaliação da propriedade. A composição do orçamento deve incluir os riscos de produção.”

A Gira nasceu em 2016, com a finalidade de ampliar a segurança nas operações de crédito rural, a partir de modelos estatísticos capazes de avaliar os riscos da produção. A varredura de informações e a auditoria da propriedade contam com um aplicativo que replica o modelo do Uber para o agronegócio. O sistema localiza vistoriadores próximos à propriedade rural. Estes profissionais vão até o local e coletam os dados necessários para a análise de crédito, anotando a situação real da lavoura. No país, mais de mil profissionais (advogados, engenheiros e técnicos agrônomos) estão cadastrados no aplicativo. Em 2018, a empresa recebeu aporte de R$ 6 milhões da Cedro Capital.

Os próximos avanços da agfintech – que já ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão em operações de crédito – contarão com o acesso dos dados organizados e armazenados pela Embrapa ao longo de quatro décadas. A Gira assinou um acordo de cooperação técnica para usar o AgroAPI. “Queremos revolucionar a gestão de recebíveis na cadeia produtiva do agronegócio”, diz Zambiazi. A estratégia envolve o desenvolvimento de algoritmos que – alimentados pelos modelos de produtividade, dados de clima e informações sobre lavouras como soja, milho, arroz, feijão e trigo – serão capazes de prever os riscos da produção em cada safra. A análise levará ainda em conta os dados anotados no aplicativo pelos vistoriadores, cruzando um conjunto robusto de variáveis no processo de cessão de crédito. “Queremos precificar a produção e utilizá-la como lastro.”

Na produção agropecuária, a novidade está no acordo de cooperação firmado entre a unidade de meio ambiente da Embrapa, o Instituto de Pesquisas Eldorado e a operadora de telecomunicações Claro. O objetivo, afirma Diego Gomes, gerente de negócios de internet das coisas de Claro, é atender à demanda agropecuária por soluções de conectividade. O projeto vai além da instalação de torres e antenas e prevê uma arquitetura de informática capaz de receber informações de sensores e armazená-las em sistema de computação em nuvem – automatizando a coleta, em tempo real, de dados. A ênfase está em projetos que unem bioeconomia e internet das coisas (IoT). O desenvolvimento e os testes das soluções serão realizados no campo experimental da Embrapa em Jaguariúna (SP), uma fazenda conectada. “Vamos espalhar sensores pela propriedade.”

A expectativa é que o experimento defina caminhos e técnicas para coletar os dados que vão alimentar soluções de aprendizado de máquina e de inteligência artificial, resultando em aplicativos e sistemas capazes de auxiliar o agricultor a tomar decisões. Entre as tendências, Gomes aponta as startups que têm se dedicado a analisar os impactos ambientais. “A ideia desses negócios é preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ampliar a produção de alimentos.”

O gerente-executivo de inteligência analítica da Tereos, Marcos Scalabrin, afirma que avançar no uso de inteligência artificial e aprendizado de máquinas é uma meta relevante do agronegócio. “Não é possível analisar o volume de informações que temos sem ajuda dos computadores.” Nas propriedades brasileiras, exemplifica, tudo é heterogêneo: do solo ao regime de chuvas. “Muda de talhão para talhão. Cada hectare apresenta um microclima.”

A Tereos, que gerencia 300 mil hectares no Brasil, espalhou 300 tablets para coletar dados no campo. A ideia é captar informações e enviar para a recémcriada área de ciência de dados da empresa. “Estamos montando nosso banco de dados para analisar os indicadores de produção e de operação.” Para as startups, ele dá uma dica importante: “Entendam a estrutura de análise dos produtores e ofereçam dados padronizados e prontos para serem consumidos”. Segundo ele, as grandes companhias são assediadas por fornecedores de soluções digitais, aplicados em vender seus produtos, sem entender a demanda. Os grandes produtores, no entanto, estão mais interessados em sistemas abertos, sem amarras. “Nem sempre precisamos da plataforma, mas das informações que ela é capaz de capturar.”

Outro fator importante é a visão sistêmica. Quem atua no agronegócio tem de pensar em como os insumos do campo fluem na cadeia produtiva. A agricultura e a indústria 4.0 andam de mãos dadas, e a informação coletada na lavoura vai influenciar a planta fabril. Segundo Luciano Lafuente, gerente de engenharia, manutenção e controle técnico da Veracel, as fábricas conectadas – que monitoram, em tempo real, equipamentos e indicadores de produção – vão se integrar, cada vez mais, à lavoura. Na Veracel, o planejamento industrial conta hoje com informações sobre a qualidade, o volume e a composição da madeira que vai chegar. “Os dados nos permitem preparar a fábrica para processar o lote, influenciando na produtividade.” Com o avanço dos sistemas dentro e fora da fábrica, será possível melhorar o desempenho e a disponibilidade da planta.

Além da digitalização, o Brasil precisa manter os investimentos em genética, ramo no qual tem competência. Viler Janeiro, diretor de assuntos corporativos do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), destaca resultados do estudo e aplicação da transgenia no Brasil. O CTC lançou no mercado duas variedades de cana transgênica. As plantas são resistentes à broca, praga responsável por perdas anuais estimadas em R$ 5 bilhões. “Utilizamos a tecnologia para proteger a lavoura e também para adaptar as plantas a diferentes solos e climas.” Outro desafio está na mecanização. “Algumas plantas são mais propícias ao corte mecânico.”

Fonte: BeefPoint - http://tempuri.org/tempuri.html




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