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20/11/2018 - Soja

Em guerra comercial com a China, soja americana vai se acumulando


É época de colheita na Dakota do Norte (EUA), momento do ano em que Kevin Karel verifica o computador logo pela manhã para saber quanto da sua soja as empresas chinesas compraram.

Os agricultores de Cass County prosperaram nas duas décadas mais recentes cultivando mais soja do que qualquer outro condado americano, enviando a maior parte dessa soja pelo Oceano Pacífico para alimentar porcos e galinhas na China.

Mas, este ano, os chineses praticamente pararam de comprar. O governo da China impôs uma tarifa à soja americana em resposta às tarifas impostas pelo governo Trump aos artigos chineses. Dados do governo federal atualizados até meados de outubro mostraram uma queda de 94% nas vendas de soja americana à China em comparação com a colheita do ano anterior.

Karel, gerente da Arthur Companies, que opera seis elevadores de grãos, começou a acumular 25 mil toneladas de soja no chão diante dos silos de armazenamento de grãos. A esperança é que os preços aumentem antes que a soja apodreça.

O presidente Donald Trump enxerga as tarifas como forma de forçar mudanças no relacionamento econômico dos Estados Unidos com a China e outros países. Ele diz que sua abordagem dura vai injetar vida nova nas indústrias americanas que perderam espaço para rivais estrangeiras. Mas essa estratégia tem um custo altíssimo para algumas indústrias, como a agricultura.

Os EUA exportaram US$ 26 bilhões em soja no ano passado, e mais da metade dessa produção foi destinada à China. Alguns agricultores da Dakota do Norte dizem confiar em Trump. Karel afirmou que muitos de seus fregueses estão dispostos a sofrer agora para que seus filhos possam colher os benefícios posteriormente.

Outros demonstram menos entusiasmo. Greg Gebeke, que cultiva 5 mil acres perto de Arthur, disse que teve dificuldade para compreender os objetivos do governo. “Estou tentando acompanhar a disputa e entender quem são os vencedores dessa guerra tarifária", disse Gebeke. “Já sei quem está entre os perdedores: nós.”

A indústria da soja da Dakota do Norte foi criada pela demanda chinesa pelo produto, usado no consumo humano e na produção de ração animal. A China é de longe a maior importadora mundial de soja. O país consumiu 110 milhões de toneladas em 2017, e 87% dessa soja foi importada - principalmente do Brasil e dos EUA.

Embora a soja seja cultivada em todo o Meio-Oeste dos EUA, os campos da Dakota do Norte fazem parte de uma região dedicada a soja mais próxima do Oceano Pacífico, o que significa que a maior parte de sua produção é destinada à China.

Em meados da década de 1990, a soja ocupava 450 mil acres na Dakota do Norte. No ano passado, eram 6,5 milhões de acres. Os produtores de soja gastaram milhões de dólares cultivando o mercado chinês.

Os agricultores da Dakota do Norte e de outros estados contribuem com uma porcentagem fixa de sua receita para um fundo federal que paga por programas como missões comerciais e pesquisas, com o objetivo de convencer pecuaristas chineses que os porcos criados com soja americana crescem mais rápido e ficam mais gordos.

A propaganda da indústria americana enfatizava a estabilidade política e a infraestrutura confiável dos EUA. O recado era que os agricultores americanos poderiam oferecer soja de alta qualidade.

“Visitei a China 25 vezes nos dez anos mais recentes para falar do quanto eles poderiam depender da soja americana", disse Kirk Leeds, da Associação de Produtores de Soja de Iowa. Para ele, ao enfraquecer essa reputação, “causamos um estrago na indústria que não será superado nem no médio prazo".

Enquanto a China absorve a produção mundial de soja não americana, outros países estão comprando mais soja dos EUA, principalmente países europeus que costumam importar sua soja do Brasil.

Alguns países produtores como o Canadá estão vendendo a própria soja para a China a preços altos e comprando soja americana a preços mais baixos para atender à demanda doméstica. Numa tentativa de aproximação, Taiwan assinou um acordo para comprar mais soja americana nos próximos dois anos.

Nada disso é suficiente. Durante as primeiras seis semanas da temporada atual de exportação, iniciada em setembro, a exportação dos EUA para a China estava seis milhões de toneladas abaixo do volume do ano passado, enquanto as exportações para outras regiões do mundo tinham aumentado à razão de apenas três milhões de toneladas.

O governo Trump disse que distribuiria US$ 3,6 bilhões aos produtores de soja para compensar a queda nos preços. Alguns analistas preveem que a China será obrigada a comprar mais soja americana depois de exaurir as demais fontes. 

Outros esperam que China e EUA possam chegar a um acordo para suspender as tarifas. Mas a espera traz seus riscos. A soja pode apodrecer, e a colheita do Brasil amadurece na primavera, criando uma concorrência direta. Nas palavras de Nancy Johnson, diretora executiva da Associação de Produtores de Soja da Dakota do Norte, “infelizmente, a esperança é um péssimo plano de marketing".

Por Binyamin Appelbaum
Fonte: The New York Times/O Estado de S.Paulo




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