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10/09/2019 - Outros

É preciso comunicar a sustentabilidade do agro brasileiro


Em entrevista à revista Agroanalysis, a ministra comenta assuntos atuais de grande importância para o agronegócio brasileiro, como: a crise comercial entre os Estados Unidos e a China; o Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2019/2020; a celebração do acordo entre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a União Europeia (UE) e de outros pactos previstos para os próximos anos; e a necessidade de mostrar a sustentabilidade do agro.

AGROANALYSIS: COMO ENCARAR A GUERRA COMERCIAL ENTRE OS ESTADOS UNIDOS E A CHINA?
TEREZA CRISTINA: Devemos ter uma posição estratégica de permanecermos neutros na guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas mundiais que são os Estados Unidos e a China. Enquanto eles discutem as suas diferenças, precisamos manter boas relações e fluxos comerciais com ambos. O melhor caminho a ser seguido consiste na busca de levar os produtos agrícolas brasileiros para o maior número possível de mercados. Embora não seja ministra do Ministério das Relações Exteriores, sou da opinião de que devemos ficar fora dessa briga.

Esses dois países são negociadores duros. Fica difícil e parece um tanto prematuro para traçar qualquer previsão sobre o resultado das conversas entre eles. O Brasil não seria capaz de substituir totalmente os EUA como fornecedor de alimentos para a China. Ainda é cedo para fazer projeções sobre as possíveis alterações na demanda por conta da guerra comercial. A nossa possibilidade fica no campo de avaliar o impacto desses desdobramentos sobre o cenário global do agronegócio. A produção excedente nacional alimenta 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo.

CELEBRAMOS O ACORDO ENTRE O MERCOSUL E A UE?
TC: Passamos dezenove anos em negociação. O acordo entre os dois blocos pegou de surpresa muita gente. Foi uma boa caminhada, apesar dos ajustes que ainda precisam ser feitos. Teremos pela frente um processo para aprovar esse pacto comercial entre os quatro países do MERCOSUL e os 27 países-membros da UE. Aqui no Brasil, precisaremos debater com o Legislativo o melhor momento para aprovar o documento. Haverá ganhos dos dois lados, mas haverá cadeias produtivas sensíveis, como a de lácteos nacional. Estamos diante de um ciclo de acordos em formatação com os Estados Unidos, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA, na sigla em inglês), o Canadá, a Coreia do Sul, Cingapura, entre outros.

A AGENDA DE VIAGENS INTERNACIONAIS INTENSIFICA-SE?
TC: Ainda no primeiro semestre, montamos uma comitiva com autoridades governamentais e executivos da iniciativa privada para realizar uma viagem ao continente asiático com fins comerciais. Escolhemos os países interessados em fazer negócios com o Brasil. No Vietnã, com uma população de 100 milhões de habitantes, vimos uma oportunidade para exportar bovinos e importar camarões de pesca no mar. No Japão, conversamos com empresários interessados em investir em infraestrutura no território nacional, enquanto, na Indonésia, tratamos sobre a venda de carne bovina e a compra de frutas.

Para o governo chinês, apresentamos a lista com os nomes de trinta frigoríficos brasileiros indicados a exportar para o país, apesar de a aduana chinesa ter solicitado a escolha de vinte empresas. Atualmente, estão habilitados dezesseis exportadores de carne bovina, nove de carne suína mais trinta e cinco de carne de aves. Não há data para responder quais e quantos serão os novos habilitados. De qualquer forma, conseguimos encaminhar as solicitações e, agora, aguardaremos os exames deles.

ENTRAMOS NA SAFRA 2019/20?
TC: Formulamos o Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2019/2020 de forma muito similar aos anteriores. O nosso esforço é dar ao produtor previsibilidade na hora de tomar crédito. Precisamos caminhar para um modelo permanente. Como ficou muito grande, o agronegócio brasileiro precisa de uma política agrícola definida. Não dá para o produtor ficar, a cada temporada, preocupado com a taxa de juro e a subvenção. Procuramos fazer um plano moderno e atrativo, que servirá de degrau para o PAP da safra 2020/21.

Como o orçamento estava apertado, demos prioridade para os pequenos e os médios produtores e deixamos uma parcela menor para os grandes. Como sinal para o futuro, privilegiamos a subvenção para o seguro rural. Estamos numa fase de transição, com redução no crédito rural a taxa de juros controlados e transferência de recursos do mercado de capitais para empréstimos a taxa de juros livres. Esse desmame da dependência da agricultura não pode ser feito de forma abrupta.

A MÍDIA DENUNCIA UM AUMENTO NO REGISTRO DE DEFENSIVOS?
TC: Criticamos as notícias que colocam a produção do alimento brasileiro como insegura e destacamos que o uso sustentável de recursos naturais no País deve ser reconhecido. Temos a convicção de estar cumprindo da melhor maneira os nossos esforços em benefício do nosso País. O fato de a fila de registros dos defensivos andar mais rápido traz tecnologia e segurança. O objetivo é justamente aprovar novas moléculas, com menores toxidade e impacto sobre o meio ambiente, de modo a oferecer alternativas melhores aos produtos mais antigos.

Na verdade, isso significa ganhos de eficiência em função das medidas desburocratizantes implementadas pelo MAPA, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nos últimos anos. O processo de autorização de produtos no mercado segue normas rígidas acompanhadas por técnicos competentes. A única mudança foi a celeridade. O Brasil está muito atrasado em relação a outros países. Se exportamos alimentos para mais de 160 países, é porque oferecemos segurança aos consumidores.

A DEMANDA POR ALIMENTOS É CRESCENTE NO MUNDO?
TC: De fato, segue vivo o desafio de aumentar a produção de alimentos para atender a demanda crescente de alimentos no mundo. Nos próximos dez anos, o consumo aumentará 35%. A previsão da população mundial para 2030 aponta para 8,5 bilhões de pessoas. Tudo isso acontece junto à intensificação do processo de urbanização, da longevidade da vida e da melhoria de renda. A agricultura deve responder a esses cenários. Estamos diante da necessidade de o País fazer a preparação para antecipar e modelar futuros possíveis para o agro brasileiro e mundial.

O recente acordo entre o MERCOSUL e a UE, por exemplo, abre um vasto conjunto de oportunidades para as cadeias produtivas. Não podemos perder a oportunidade de não perder essa oportunidade. Os Estados Unidos e a China devem seguir como protagonistas e forças globais predominantes ao longo da próxima década. Já a economia japonesa terá de superar, sobretudo, as fortes pressões demográficas, enquanto a Índia, em função de questões geopolíticas e domésticas, precisará desdobrar-se para se colocar como uma potência mundial.

E A QUESTÃO DA SUSTENTABILIDADE NO BRASIL?
TC: Para o Brasil, cabe ampliar a sua capacidade de produção com ganhos de produtividade. Isso aumentará a sua competitividade no comércio internacional. É importante mostrar o tamanho da sustentabilidade brasileira em comparação à de outros países do mundo. O MAPA trabalha com foco firme no tema ambiental para abrir, e não reduzir, mercados aos nossos produtos. Em suas propriedades rurais, os produtores precisam cumprir as regras de um Código Florestal extremamente rigoroso. A expansão de área de produção, daqui para frente, dar-se-á pelo avanço das lavouras de grãos sobre pastagens degradadas. Essas realidades precisam ser conhecidas e reconhecidas aqui e no exterior.

Conforme um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), confirmado pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA, na sigla em inglês), do território nacional, cultivamos apenas 7,8%, e cerca de 30% são Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas (TIs). O Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que a região da América Latina e do Caribe possui a maior área protegida do mundo: quase 5,00 milhões de quilômetros quadrados. Cerca de metade está no Brasil – país com o maior sistema de terras protegidas do mundo –, com 2,47 milhões de quilômetros quadrados.

ENTRAMOS NO CAMPO DA TECNOLOGIA DE PONTA?
TC: É evidente que sim. A competitividade virá de diversas praticas. Podemos começar pelas técnicas de edição genômica (New Breeding Technologies – NBT, na sigla em inglês). Desenvolveremos a bioeconomia, como o uso intensivo de bioinsumos, química verde, fármacos e compostos bioativos, derivação da biomassa. Intensificaremos o uso sustentável dos recursos naturais, com a redução do desperdício de alimentos. Aprimoraremos a gestão de risco climático e a capacidade de agregar valor à produção. Já podemos sentir a chegada e o potencial de avanço da agricultura digital, que movimentará US$ 90 bilhões em 2030, seguindo uma ten- dência de crescimento de 16% ao ano.

Assistimos ao crescente uso de sensores, drones, internet das coisas, inteligência artificial e análise de dados. Tudo isso acompanhado do estudo e do conhecimento aprofundado dos microbiomas, da agricultura de precisão e da convergência tecnológica (bio, nano e geotecnologias). No setor agrícola, vemos o aumento do número e o crescimento em participação das chamadas agritechs (start-ups ligadas ao agro). Esse conjunto amplia a competitividade, a sustentabilidade e a produtividade no campo. Com tecnologias de ponta, o Brasil será o maior produtor sustentável de alimentos do mundo em 2030.

Por Agroanalysis/FGV
Fonte: Notícias Agrícolas




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