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14/06/2019 - Tecnologia

Com oferta crescente de dados agrícolas, campo vê boom de plataformas digitais


A tecnificação cada vez maior do agronegócio, com oferta de soluções e dados sobre condições do solo, das plantas, georreferenciamento, clima e até de gestão financeira e de pessoal, tem levado os produtores rurais – que ainda mal absorveram o uso de todas essas tecnologias da agricultura de precisão – a um novo dilema: como lidar com tanta informação ao mesmo tempo? São dados que, além de tudo, precisam ser cruzados para ajudar o agricultor a tomar as decisões do que fazer na lavoura. Pensando nisso, grandes empresas e cooperativas estão apostando nas plataformas digitais integradas, uma solução inovadora que tem por função cruzar bancos de dados e oferecer de maneira mais facilitada os resultados literalmente na palma da mão do usuário, ou seja, no smartphone.

Um dos mais recentes lançamentos nesse sentido é a SigmaABC , plataforma lançada ontem (13/5) pela Frísia Cooperativa Agroindustrial em parceria com a Fundação ABC durante a Digital Agro 2019, feira de inovação tecnológica que ocorreu em Carambeí, região dos Campos Gerais do Paraná. De acordo com Emerson Moura, CEO da Frísia, a função da plataforma é conectar várias soluções onde o produtor rural possa acessá-las em um único local, sem precisar mudar de uma plataforma para outra para conseguir a informação. “O tempo do produtor hoje é muito escasso e ele não pode perdê-lo com o que não seja produção. Com a Sigma ele vai conseguir gerenciar melhor a sua propriedade, de forma mais eficaz”, afirma.

A plataforma reúne, entre outras coisas, informações geradas pelos equipamentos em campo, dados de georreferenciamento, mapas de satélite, informações meteorológicas, do solo e da condição das plantas, além de um banco de pesquisas da Fundação ABC, conforme explica o líder de Agrometeorologia da fundação, Rodrigo Tsukahara. “Ao acessar a base de dados o produtor cooperado terá todo o seu histórico de produção, tudo o que foi programado para os seus talhões em termos de sementes, adubação, fungicidas, herbicidas e inseticidas cadastrados no sistema, que podem ser acessados via celular ou em uma página na internet (nuvem). Além disso, vai acessar também tudo o que o agrônomo dele recomendou, monitorar as variabilidades da lavoura e até receber alertas sobre o surgimento de doenças nas proximidades da sua fazenda”, detalha. As pesquisas para desenvolver a plataforma digital foram testadas previamente por 1 ano com 60 produtores beta usuários.

Primeiramente, a SigmaABC vai estar disponível apenas para os cooperados da Frísia, Castrolanda e Capal, mas posteriormente deve ser disponibilizado para outros produtores e cooperativas. Ao todo são 28 módulos com informações diferentes que poderão ser acessados dentro da plataforma. “O que difere ela das que já existem aqui no Brasil e lá fora são os módulos direcionados à pesquisa. A Fundação ABC é uma empresa de pesquisa privada, sem fins lucrativos, e toda e qualquer recomendação de produtos ela parte de uma base de 56 mil parcelas de experimentos por ano. Produtores e agrônomos podem consultar esse módulo para determinar quais as melhores ações a serem tomadas”, diz Tsukahara.

Falta conectividade
Um dos principais problemas enfrentados pelos produtores é a falta de conectividade na lavoura em decorrência da ausência de sinal das operadoras de telefonia. Uma forma de driblar esse problema no caso da SigmaABC foi desenvolver uma ferramenta que permite ao sistema fazer o trabalho de coleta de dados off-line e quando houver conectividade eles são transmitidos para a nuvem.

“A tecnologia anda na frente da conectividade, então a conectividade vai ter que melhorar para oferecer para o produtor rural lá no meio do talhão uma forma de acessar a internet. E esse acesso não é mais feito pelo computador ou notebook, mas principalmente via smartphone. Se tiver o acesso para coleta e transmissão de dados, que consomem pouca internet, não precisa ter uma conexão altamente veloz no campo, mas uma que consiga apenas transmitir esses dados para os equipamentos e plataformas. As empresas estão começando a investir pesado, conjuntamente. Acredito que em pouco tempo isso vai estar sanado nas principais regiões produtoras do país”, afirma Emerson Moura.

Um dos desafios para o avanço das plataformas digitais integradas é a resistência de alguns produtores em utilizar esse tipo de tecnologia avançada. Para Moura, no entanto, essa característica vem diminuindo até pela pressão que o produtor tem para ser mais eficiente. “Os custos de produção estão aumentando e as margens de lucro, diminuindo. A informação hoje ajuda muito para aumentar a eficiência. Se o produtor ainda resiste à tecnologia é mais por uma questão cultural do que por desconhecimento. Mas ele vai entrar nisso e o sucessor dele com certeza já está dentro dessas novas tecnologias.”

Um exemplo de como a tecnologia ajuda a não perder dinheiro é evitar o desperdício de insumos, como herbicidas ou fertilizantes. “Hoje você ainda vê produtores aplicando um produto de alto valor para controle de praga ou doença na lavoura e atrás dele tem uma nuvem negra de chuva. Com certeza ele vai perder esse produto se aplicar. Hoje ele pode olhar no celular e dizer ‘opa! Vai chover daqui a cinco minutos. Não vou aplicar. Vou esperar a chuva passar e depois eu aplico’, explica Moura.

Outras soluções tecnológicas
Há 3 anos no Brasil, a plataforma Climate Fieldview, desenvolvida pela gigante Bayer, tem como foco o cruzamento de dados dos equipamentos de campo para dar ao produtor um retrato exato do que está ocorrendo, em tempo real, na lavoura. Luiz Gustavo Vincenzi, representante de vendas de tecnologia da empresa The Climate Corporation, que comercializa a Climate Fieldview, explica que a ideia é gerar informações com melhor qualidade. “Será que o agricultor sabe a velocidade com que o operador da colheitadeira está trabalhando no campo? Será que a plantadeira dele está entregando a população de sementes ideal em cada linha? A plataforma ajuda a entender a parte operacional e a parte agronômica, pois a gente integra também análises de solo, de produtividade. Com isso o produtor não trabalha a plantação mais pela média, mas em cada talhão, identificando as áreas de maior e menor produtividade”, afirma.

Um dos destaques dessa tecnologia é um dispositivo de drive que é colocado nas máquinas armazenar os dados de operação dentro do ambiente da FieldView. Esse dispositivo transfere via Bluetooth as informações para um iPad na máquina, que, havendo conectividade, envia os dados para a nuvem. Mas se não houver conectividade no campo, um aplicativo de celular – desenvolvido aqui mesmo no Brasil – consegue copiar esses dados para um smartphone ou tablet via bluetooth ao passar próximo da colheitadeira. O pacote tecnológico do FieldView custa a partir de R$ 1,5 mil para o produtor, por 12 meses.

Para Vincenzi, a tecnologia e a facilidade de visualização dos dados numa plataforma digital ajudaram os produtores a entenderem que a agricultura digital vai ajuda-los a maximizar sua produtividade. “Muitas vezes o agricultor pega um talhão que dá uma produtividade de 60 sacas por hectare numa safra ok e pensa que está bem. Só que ele não sabe que dentro daquele talhão tem áreas que poderiam melhorar. E às vezes é até por causa de uma questão operacional, como a velocidade errada de plantio, e não por falta de adubação, por exemplo, conforme pode pensar o produtor”, afirma. Nesse sentido, a plataforma pode mostrar de forma clara onde está o erro, segundo ele.

Outra multinacional que está investindo na integração dos dados a partir de uma ferramenta integrada e digital é a Basf, que lançou recentemente a plataforma xarvio, com uma tecnologia adaptada à realidade brasileira, mais especificamente para o controle de plantas daninhas no cultivo da soja por meio do Field Manager (sistema de monitoramento que identifica a localização e a quantidade de plantas daninhas nas lavouras) e na identificação de doenças e plantas infestantes com o scouting. Este último é um aplicativo gratuito com o qual o agricultor tira foto com o celular para identificar plantas daninhas. A partir daí o app reconhece doenças e analisa danos foliares.

Para Samyra Baldassin, engenheira agrônoma e pesquisadora de produtos digitais da Basf, o que se vê atualmente é “muita tecnologia de diferentes maneiras ajudando em diferentes pontos, mas não tem nada conectado. Então o produtor precisa de várias ferramentas para ajudar em cada ponto. Mas o que se busca no futuro, na agricultura 4.0, é que tudo seja integrado”, disse a pesquisadora durante o Showseed, evento organizado pela Basf em Foz do Iguaçu (PR). Desde informações de big data até o uso de inteligência artificial, que analisa os dados e toma uma decisão, recomendando diretamente ao produtor o que ele deve fazer: tudo deve estar integrado. Segundo Samyra, no futuro, a inteligência artificial estará embarcada nos próprios pulverizadores e não haverá necessidade de um mapa de cada talhão. “A própria máquina vai reconhecer a planta daninha em tempo real e fazer a pulverização adequada”, exemplifica.

Na opinião de Emerson Moura, da Frísia, o futuro das plataformas digitais será a integração entre elas, envolvendo startups e a troca constante de informações. “Essa flexibilidade é importante. Quem tem a informação hoje não detém o poder, quem compartilha o conhecimento é que tem o poder de mudar as coisas. Quem retiver informação vai morrer com ela”, conclui.

Por João Rodrigo Maroni
Fonte: Gazeta do Povo




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