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08/01/2019 - Mercado

Chance de recessão em 2020 é grande, diz Mendonça de Barros

Com novo governo e incertezas no mercado internacional, sócio da MB Associados recomenda atenção principalmente ao câmbio em 2019

Os cenários para este ano de 2019 são de incertezas tanto no Brasil como no mercado internacional. Essa é a opinião do economista José Roberto Mendonça de Barros. A desaceleração no crescimento da economia mundial, com risco de recessão nos Estados Unidos no próximo ano, e seus impactos no mercado de commodities agrícolas vão exigir uma atenção redobrada dos players brasileiros quanto à paridade do dólar norte-americano em relação às moedas de outros países. É preciso ficar de olho também na volatilidade do câmbio no mercado interno, pois a posse do novo governo, com uma proposta diferente do que foi feito nos últimos anos, gera expectativa positiva, mas também incertezas. Ele prevê que, ao longo deste ano, o dólar pode recuar a  R$ 3,70 e também ultrapassar os R$ 4, de acordo com o humor do mercado em relação ao andamento da reforma da Previdência.

Quais são as perspectivas para 2019?
Mendonça de Barros: Temos uma desaceleração na China e a Europa enfrenta uma série de questões como a saída da Inglaterra do bloco, a crise política na Itália e os protestos contra o governo na França, além do fim da carreira da chanceler Angela Merkel. Há incertezas de todos os lados. O Japão também está desacelerando e vários países emergentes, como Turquia, África do Sul e Argentina, estão vivendo um período bastante difícil.

E os Estados Unidos?
Mendonça de Barros: A novidade é que os Estados Unidos estão numa virada de ciclo, que vai se caracterizar por uma redução do crescimento. Em 2018, graças ao incentivos fiscais concedidos pelo presidente Donald Trump, a economia norte-americana deve ter crescido acima de 3%, o que não acontecia há muito tempo. Agora, as taxas de juros crescem – e também as incertezas. Uma grande ressaca financeira vai afetar os negócios. Durante uma década de juros muito baixos, quase zero, muitos agentes nos Estados Unidos, sejam famílias ou empresas, se endividaram até as tampas. Agora, a taxa de juros está subindo e pressionará os custos das empresas.

Existe risco de uma crise mundial como a de 2008?
Mendonça de Barros: Nós na MB estamos relativamente pessimistas. Para 2019, achamos que não, mas não é fora de propósito que em 2020 os americanos enfrentem uma recessão. A chance é grande, por causa da alavancagem financeira. Uma lição que vale tanto para o fazendeiro como para a maior economia do mundo é que não há desalavancagem suave. O ajuste é feito com lágrimas e com sangue. Quem já incorporou isso foi a bolsa norte-americana, que em dezembro caiu 15%.

E o comércio internacional?
Mendonça de Barros: Infelizmente, a guerra comercial que Trump declarou ao mundo inteiro e particularmente à China vai continuar. O que não é bom para o mundo como um todo, mas tem suas vantagens, como o Brasil ter aumentado suas exportações de soja. Mas uma coisa é certa: o mundo vai crescer menos em 2019 e isso pode significar menores preços de commodities em geral. Existe uma terceira variável para quem exporta, principalmente commodities agrícolas, que é o valor relativo do dólar em relação a outras moedas. Se (o dólar) enfraquecer nos Estados Unidos, deve cair nos outros países. Sempre que o dólar enfraquece, o preço das commodities (em dólar) sobe um pouquinho. O preço terá uma pressão baixista porque o mundo está crescendo menos e haverá alguma compensação, porque lá fora o dólar vai desvalorizar. Os preços não serão ruins, porque o mundo continuará comendo.

Como está o cenário no Brasil?
Mendonça de Barros: O novo governo quer avançar nas reformas, em particular a da Previdência. Se ele conseguir aprovar uma proposta que seja razoável, achamos que o Brasil vai voltar a crescer. O prêmio vai ser esse. Entretanto, como a resistência à reforma por parte do funcionalismo público e de outros grupos de pressão vai ser furiosa, achamos que vai demorar e em determinado momento haverá indefinição sobre a aprovação. Esta é uma questão importante para o agronegócio, porque a taxa do dólar vai oscilar ao sabor das expectativas. Se houver entusiasmo, o dólar pode ficar entre R$ 3,70 e R$ 3,80. Mas, no momento em que houver incerteza sobre a aprovação, o pessimismo pode elevar o dólar acima dos R$ 4.

Qual será o impacto dessa volatilidade no agro?
Mendonça de Barros: Esse aspecto é importante porque a comercialização será difícil, para travar posição e vender futuro. Se nós estivermos certos, os preços não serão ruins, mas os operadores, sejam produtores ou cooperativas, têm de estar prontos para fechar um pedaço da posição em certos momentos quando o dólar tangenciar os R$ 4.

Qual sua opinião sobre o tabelamento do frete?
Mendonça de Barros:  A tabela de frete é uma pedra pontuda no sapato. É uma questão política. Sem dúvida devia ser abolida. Podia ser uma coisa indicativa, sugestiva. É impossível colocar um preço mínimo obrigatório num país tão grande como o Brasil, com tantas estradas, distâncias e cargas tão diversas. Acho que o novo governo vai aproveitar a queda do preço do petróleo no mercado internacional para zerar o subsídio do diesel. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, são favoráveis aos preços livres.

A queda do preço do petróleo era esperada?
Mendonça de Barros: O petróleo é uma prova de que em mercado não tem doutor. Quando o Petróleo Brent atingiu U$ 80 o barril, os grandes bancos e corretoras internacionais, todos, sem exceção, disseram que a cotação iria para US$ 100. Um mês depois, recuou para US$ 60. Isto é bom para a gente ficar humilde. O que mais influenciou o mercado foi a mudança na percepção sobre o crescimento da economia mundial. Para o ano que vem, achamos que o preço do petróleo continuará relativamente baixo, o que significa menor pressão de custo, como dos fertilizantes e dos transportes.

O Brasil crescerá em 2019?
Mendonça de Barros: A economia brasileira neste ano deve crescer 2,2% e ficar acima do 1,4% de 2018. A razão para não crescer mais é o desemprego, que é muito alto. A construção civil continua de joelhos, o que é muito ruim. O efeito positivo da reforma da Previdência se dará para 2020, porque será aprovada ao longo de 2019, que terá crescimento moderado.

Como o senhor vê a possibilidade de o Brasil deixar o Acordo do Clima?
Mendonça de Barros: Infelizmente, se isso acontecer, vai atrapalhar muito. Quero chamar a atenção para uma característica do novo presidente. Ele tem demostrado uma percepção das coisas mais aguda do que seus auxiliares. Muitas coisas ditas durante a campanha serão revistas, isso inclui a questão da China, o relacionamento com os países árabes e a posição em relação à questão do aquecimento global. Se o país sair do Acordo do Clima, o impacto negativo sobre as vendas do agronegócio será significativo. O consumidor do mundo inteiro quer saber o que está comendo e se a produção é sustentável. Temos de avançar na questão da sustentabilidade.

Por: Venilson Ferreira

Fonte: Globo Rural




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