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21/12/2018 - Mercado

Cenário de incertezas para o próximo ano


Segundo o engenheiro agrônomo André Pessôa, diretor da consultoria Agroconsult, a disputa entre Estados Unidos e China e a peste suína africana podem definir o mercado de grãos para 2019. A guerra comercial travada entre EUA e China alavancou as exportações de soja brasileira este ano. A expectativa da Agroconsult é que os embarques da oleaginosa finalizem 2018 com um recorde de 82,1 milhões de toneladas, quase 20% a mais que em 2017. No entanto, o cenário para 2019 está incerto. Tudo vai depender do embate entre americanos e chineses e também dos impactos da peste suína africana na China. Confira na entrevista abaixo.

Qual é sua avaliação de 2018?
Foi um ano positivo, com uma safra de verão boa principalmente na soja, que atingiu um novo recorde de produção, mas houve quebra de safra na segunda safra de milho. Outras culturas, como o algodão, tiveram um bom desempenho.

Como se comportou o preço da soja durante o ano?
Os preços internacionais na Bolsa de Chicago da soja, que é o nosso principal produto, caíram de forma bastante expressiva. Antes da guerra comercial, os preços do bushel [27,2 quilos] tiveram uma queda de US$ 10,5 para US$ 8,5. No Brasil, houve uma compensação por causa dos prêmios pagos pela China, tendo em vista que só havia disponibilidade de soja aqui no Brasil. A Argentina registrou quebra de safra.

O Brasil ocupou o lugar dos americanos?
O País teve o papel de abastecer os chineses principalmente neste final do ano. Os produtos que foram e serão entregues na China em outubro, novembro e dezembro seriam entregues pelos americanos. Em volume, o Brasil teve um excelente desempenho nas exportações este ano, mas, quando se somam os preços praticados no mercado local, notamos que, no mercado internacional, tivemos preços, em média, menores do que tínhamos antes da guerra comercial. Os preços do meio do ano para cá não foram suficientes para compensar financeiramente os custos da greve dos caminhoneiros e a consequente tabela de frete. A rentabilidade da soja ficou prejudicada, e a do milho, mais ainda.

A tabela de frete inviabiliza o milho em 2019?
Não necessariamente; depende da taxa de câmbio. Hoje, a competitividade brasileira do milho no mercado internacional está baixíssima, e a principal razão é o frete. O Brasil vai entrar em 2019 com 20 milhões de toneladas de milho em estoque. Em condições normais de clima, a produção da safra verão deve ser 27 milhões de toneladas. Como a soja foi plantada cedo este ano, a colheita deve ser cedo no próximo ano, o que facilitará o plantio do milho safrinha. A tendência é ter um crescimento de área. Se não houver problemas climáticos, o Brasil deve produzir entre 65 milhões e 70 milhões de toneladas, mas o País consome 60 milhões. Se somar safra verão, safrinha e estoques e subtrair o consumo, o Brasil terá que exportar acima de 30 milhões de toneladas de milho. Mesmo assim, os estoques ainda ficarão altos. Mas, com a tabela de frete, o Brasil não conseguirá uma performance exportadora adequada para o equilíbrio do mercado local, porque perdeu competitividade. A alternativa para evitar o desequilíbrio no mercado do milho seria a desvalorização acentuada do real. Outra possibilidade seria uma quebra de safra em grandes concorrentes, como os EUA. Mas, se não tiver problema climático lá fora, só o câmbio salvaria o milho no ano que vem.

A demanda chinesa pela soja brasileira continuará aquecida?
Só duas pessoas podem responder a essa pergunta: Trump e Xi Jinping. Nós temos duas incertezas em relação a 2019. Se, de fato, vamos ter a vigência da guerra comercial novamente. E qual será a consequência da peste suína africana presente na China para a produção de carne suína do país.

Como a peste suína pode impactar a soja?
A maior parte do consumo de soja na China é destinada ao farelo, que vai para a produção de suínos, a principal carne produzida no país asiático. Se a peste impactar a produção, afetará também a demanda chinesa por soja.

O que aconteceria se a guerra comercial terminasse?
Depende de quando seria o ponto-final da guerra. Antes ou depois do plantio americano? Na vigência da guerra comercial, o plantio americano de soja no ano que vem tende a ser reduzido, porque os estoques estão altos e não há estímulo para os agricultores repetirem a área plantada. É a tendência hoje, e significaria uma menor oferta de soja americana no segundo semestre do ano que vem. Mas, se a guerra comercial acaba este mês, as decisões de plantio poderão ser alteradas, porque são tomadas até o mês de março. O plantio de milho lá começa em abril, e o de soja, entre abril e o início de maio.

E os preços?
Quando se fala na chance de acordo entre China e EUA, os preços da soja em Chicago sobem. Quando há um retrocesso, os preços caem. Se houver um acordo, os preços vão subir. Os preços mais altos podem estimular a manutenção da área americana ou uma redução pequena, o que ainda promoveria uma boa oferta de soja americana no segundo semestre, porque os estoques deles estão altos.

Os ataques de Bolsonaro à China podem afetar as relações comerciais?
Acredito que não; foram atos de campanha. A China é o principal parceiro comercial brasileiro. Na agricultura é de longe o mais relevante. Não acredito que seja do interesse da China ou do Brasil criar problemas na área comercial.

O Supremo Tribunal Federal pode reverter a lei do frete?
Espero que sim. É uma lei idiota e vai na contramão do que o Paulo Guedes tem dito. Além de não fazer sentido teórico, no sentido prático é uma perda gigantesca de produtividade. Um custo absolutamente desnecessário num país que tem um custo de logística mais alto que os concorrentes. Espero que o Supremo tenha clareza da inconstitucionalidade da institucionalização de um cartel com o aval do Congresso. O governo podia ter errado, mas o Congresso não poderia ter sancionado a lambança. Resta ao Judiciário consertar o que está feito.

Por Livia Andrade
Fonte: Caderno Agro - O Estado de S.Paulo




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