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28/02/2018 - Soja

Carência de nitrogênio na soja brasileira


Confira entrevista com Roberto Berwanger Batista, diretor-técnico da Microquímica.

A constatação de que a soja brasileira está com deficiência de nitrogênio é a informação mais relevante da análise feita pela equipe de especialistas da empresa Microquímica em seu banco de dados, tendo como base a planilha que destacamos no fim desta matéria, conforme informado pelo engenheiro agrônomo Roberto Berwanger Batista, diretor-técnico da empresa, e pelo gerente de marketing, o engenheiro agrônomo Anderson Nora Ribeiro. Eles concederam entrevista para Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, e comentaram causas e efeitos dessa constatação estatística, que tem tudo para ser uma das informações mais importantes do ano em relação à cultura da soja. A visualização dos dados, captados pelo sistema do CheckFolha, explica porque as médias de produtividade em soja não melhoraram nos últimos anos, levando-se em conta o potencial produtivo das cultivares que são hoje utilizadas e do uso crescente de tecnologias de todos os tipos, inclusive a agricultura de precisão.

Agro DBO – A Microquímica lançou o CheckFolha em 2011?
Roberto Berwanger Batista – Não, lançamos o CheckFolha em 2003. A ideia surgiu de uma necessidade de termos uma análise da planta. Inicialmente colocamos os dados em disquetes, depois fomos para CD e aí disponibilizamos para todo mundo via internet. Mais recentemente (em 2011), lançamos um aplicativo para celular. A ideia era dar respostas a perguntas de agricultores do tipo “O fósforo do meu adubo está sendo absorvido?”. E também a questionamentos como “O potássio, com aquela chuva, a planta conseguiu absorver?”. Estas respostas não existiam. Em cima de curvas de absorção de nutrientes pelas plantas, a gente sabe hoje que a planta tem fases do desenvolvimento que precisam mais de fósforo ou de potássio. Resolvemos então, analisar os dados comparando com bases de dados de plantas que produziram muito, de alta produtividade, sempre pela análise foliar.

Agro DBO – Como é que vocês encararam a deficiência constatada de nitrogênio na soja?
Roberto Berwanger – De 2011 até 2017 nós temos um banco de dados de aproximadamente 6 mil amostras, que é muito representativo. Para nós foi uma surpresa constatar isso. A verdade é que nós já entendíamos que havia problema com o nitrogênio, porque houve tentativas de se voltar a usar o N nas adubações de cobertura, muita gente comentava isso, a própria Embrapa fez mais de uma centena de ensaios nesse sentido, e comprovou-se mais uma vez que não se tem respostas significativas na produtividade com o uso de adubações nitrogenadas. A inoculação com a fixação biológica pode fazer isso, desde que seja bem-feita. Esse é que é o detalhe. Em cima dessa amostragem de 6 mil dados do nosso banco de dados, nos dois últimos anos, a deficiência de N pulou de 45% para 55%, ou seja, a deficiência é grande do nutriente chave e essencial. A soja, para produzir uma tonelada de grãos, precisa de 80 kg de nitrogênio. Então, se nós queremos evoluir para 100 sc/ha nós precisamos de 480 kg de N. Isso é mais de uma tonelada de ureia por ha, se formos utilizar o N mineral.

Agro DBO – Na amostra da Microquímica todos usam a fixação biológica?Roberto Berwanger – Sim, todas essas áreas estão sendo inoculadas, foi isso também que nos chamou muito a atenção. Ou seja, mesmo usando a inoculação não estamos chegando a níveis adequados para as plantas. Talvez isso explique porque nós temos tanta dificuldade em melhorar a produtividade. Agora, entendamos que agricultura é uma coisa muito complexa. Trabalhamos com o solo, que é complexo por natureza. Depois vem a parte física, química e biológica. Neste solo colocamos a planta, que tem toda a sua funcionalidade. Como ela funciona? Como que nós vamos colocar essa planta neste ambiente de solo? Daí que temos toda a parte de população de plantas por ha, de espaçamento, de sombreado para a fotossíntese, porque uma planta é como um carro, qual é o combustível da planta? É energia, que vem da fotossíntese, então não pode sombrear. E nessa complexidade nem falamos da proteção das plantas contra fungos, ácaros, insetos, lagartas, e precisamos ainda deixar as plantas no limpo, o que implica num amplo manejo, semear no tempo certo, isso é a complexidade do sistema, e tudo isso envolvido com o clima, que não se resume a água de mais ou de menos, nós temos o estresse oxidativo, radiação ultravioleta, tem muita coisa no processo. Então, olha só o mundo de coisas que nós temos de falar para incrementar a produtividade. E nem falamos de nutrientes nesses fatores de complexidade, ou de onde e quando nós vamos colocar esses nutrientes? Ao lado da raiz, embaixo da raiz? Em que fases do desenvolvimento da planta, na semeadura, no florescimento? Vamos parcelar essas aplicações? E aí volta aquela pergunta “O fósforo do meu adubo está sendo absorvido?”, ou, “quanto disso está na minha planta?”. O CheckFolha começa a tentar explicar algumas dessas coisas, e nos dá um rumo para começarmos a tomar decisões mais acertadas.

Agro DBO – A Microquímica tem disponibilizado esses dados para órgãos de pesquisas?
Roberto Berwanger – O aplicativo é gratuito, o usuário tem os dados de sua lavoura, e a Microquímica tem os dados condensados. Poderemos fornecer esses dados a quem nos solicitar, não haverá nenhum problema nisso.

Anderson Ribeiro – Veja, estamos abrindo esses dados para a Agro DBO em primeira mão. Nós não tínhamos esses dados estatísticos dentro do programa do CheckFolha, a gente tinha dados das amostras individuais, mas não se conseguia fazer uma análise estatística. Na verdade, a gente tinha um bando de dados esparsos, e não um banco de dados. Conseguimos agora em julho/17 desenvolver essa ferramenta, e ainda estamos fazendo análises e interpretações dos dados. A primeira surpresa foram esses dados do N, mas sabemos também que há outras coisas importantes que vão surgir, sejam deficiências e sejam excessos de microelementos.

Agro DBO – Regionalmente, os dados mostram que há também diferenças?Roberto Berwanger – Sim a deficiência de N é maior no Sul do país, que alcança 60%. No Cerrado está em torno de 30%. Isso nos mostra que nós temos um longo caminho a percorrer para melhorar o aproveitamento desse nutriente fundamental para as plantas, porque sem N não tem proteína. Isso pode gerar ainda uma discussão enorme, porque os nutrientes, depois de absorvidos, eles têm que ser assimilados, para que a planta atinja seu potencial produtivo máximo, e isso faz parte do macro fator planta. Como falei, a atividade é complexa, e fica difícil apontar uma tecnologia responsável pelo sucesso ou fracasso de uma lavoura. A gente tem uma tecnologia fantástica em uso, como a inoculação, mas existem tantos gargalos que ela não aparece, e ela é fundamental, mas há coisas maiores que não permitem à planta se expressar de forma plena. A inoculação permite uma economia fantástica de fertilizantes nitrogenados, ela pode ser responsabilizada pela competitividade da nossa soja, além de economizar divisas para o país na importação dos fertilizantes.

Agro DBO – Como se pode preservar e melhorar a tecnologia da inoculação?
Roberto Berwanger – Nós temos de preservar as bactérias. Estamos falando de organismos vivos. Isso passa por maior conscientização do uso. Do melhor uso, de um cuidado maior na armazenagem. Lamentavelmente, nem sempre é assim, faz muito calor na época de plantio, e a bactéria perde eficiência, e também porque o produtor trata a semente e se chove por uma semana, ele tem de esperar para plantar, e com isso perde a eficiência da bactéria. Teria de ser um “aplique e plante”. Para dar solução a isso, nós lançamos um protetor celular dessa bactéria, é um aditivo com emolientes e polímeros, que protegem a bactéria, que faz com que essa bactéria se expresse melhor e possa sobreviver mais tempo, no mínimo por 10 dias a mais. Esses são fatores muito importantes. Há ainda a co-inoculação com o Azospirillum, que é uma prática que está sendo recomendada pela Em brapa faz 3 anos, porque mostrou que aumenta o volume radicular. Aumentando o volume de raízes o que acontece? Aumenta a absorção de água e nutrientes, aumenta a divisão celular, tem mais raiz para formar mais nódulos, e esses nódulos vão absorver mais nitrogênio para a planta. O Azospirillum também é um fixador de N, não tão hábil como o Bradyrhizobium, mas é um fixador de raízes, e veio agregar e a ajudar para que a fixação biológica seja melhorada, e esses números de carências de N são reduzidos, e com isso, em diversos testes realizados, chegamos a obter incremento de até 20% na produtividade.

Agro DBO – Os dados de N e outros microelementos do CheckFolha são apenas para soja?
Roberto Berwanger – Sim, temos dados em menor escala em café, de um aplicativo lançado este ano, mas temos em outras culturas, como algodão e milho. O volume significativo de dados que temos é de soja. Lamentavelmente, a análise foliar ainda é muito pouco usada no Brasil.

Agro DBO – Qual a vantagem da análise foliar, comparada com análise de solo?
Roberto Berwanger – A análise foliar durante o ciclo permite que se tomem medidas corretivas, a tempo de melhorar o desempenho da planta. Informação é vital nessas situações. Temos muitas informações, mas precisamos de sistemas que nos ajudem a interpretar melhor cada um dos dados disponíveis para tomarmos as melhores decisões.

Agro DBO – Há outros microelementos na soja com carência?
Roberto Berwanger – Não temos as porcentagens, mas já avaliamos que há carência de zinco, especialmente no Brasil Central. Na década de 1980 o micronutriente mais utilizado era o zinco, toda fórmula de adubo tinha de ter zinco. Depois, passaram a usar manganês, boro, enxofre. Na soja há outras deficiências, não tão graves como a do nitrogênio, mas são expressivas.

Anderson Ribeiro – O nível de manganês em soja é bom, mas nós detectamos falta expressiva de zinco na soja.

Agro DBO – A análise foliar é o caminho para obtermos a melhoria da produtividade? 
Roberto Berwanger – Em nosso entendimento, como somos uma empresa de nutrição vegetal, é um caminho importante. No caso, a análise permite conhecer a situação de cada talhão, e tomarmos medidas corretivas, se forem necessárias. A situação nos leva a uma situação de debater com qualidade de informações, com dados consistentes que não estão disponíveis no dia a dia do produtor, dos agrônomos e consultores. Eu acho que isso é só o começo, o nitrogênio é realmente importante, um dos mais importantes. Pela química, pela Lei do Mínimo, nenhum elemento é mais importante que o outro, mas o nitrogênio, por ser um macroelemento, por ser estimulado à planta absorver através da fixação biológica, e que é uma tecnologia sustentável, temos de preservar as bactérias. Agora, só isso também não vai dar certo. O produtor precisa ter mais cuidados no momento de usar o inoculante. Tem de errar menos, tem de entender que a bactéria é um organismo vivo. A gente conhece a diversidade de casos específicos de dificuldades no campo, tem produtor que usa na caixa de semeadeira para facilitar o trabalho, e cada máquina de aplicação é uma questão à parte, mas também se trata a semente com processo industrial, ou se faz o tratamento na fazenda, ou se faz aplicação no sulco, mas a bactéria é sensível às temperaturas, a alguns agroquímicos, e esses são cuidados essenciais. Como diz Dirceu Gassen, consultor lá no Rio Grande do Sul, produtividade é conhecimento aplicado por hectare. Mas João K, da Embrapa, resume isso na frase de que temos de fazer agricultura no capricho.

*Matéria publicada originalmente na edição 93 da revista Agro DBO. 

Fonte: Portal DBO




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