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17/09/2018 - Cana

Califórnia investe para limpar matriz de combustíveis


Em meio ao intenso tráfego no centro de San Francisco, na Califórnia, não é difícil encontrar carros elétricos disputando espaço com os velhos conhecidos veículos a gasolina ou diesel. Em um Estado onde os transportes respondem por cerca de 50% das emissões de gases-estufa, o governo liderado pelo democrata Jerry Brown tem realizado pesados aportes na eletrificação da frota e redesenhado seu programa de combustíveis de baixo carbono para ampliar a meta de descarbonização do setor até 2030. E, diante desse esforço, autoridades do governo avaliam que o espaço para os biocombustíveis conquistado até agora não necessariamente está garantido. Dependerá, em grande parte, da eficiência de sua produção.

O mercado californiano é de extrema importância para o Brasil. O Estado responde por cerca de 90% das exportações brasileiras de etanol para os EUA, que no ano passado alcançaram US$ 520 milhões. Embora o etanol brasileiro, produzido a partir da cana, já se beneficie do programa federal americano Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS), o programa californiano Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS, em inglês) oferece um "prêmio" pelo fato de o etanol de cana emitir menos gás carbônico equivalente do que a média dos biocombustíveis nos EUA, produzidos a partir do milho. Os produtores de combustíveis mais limpos recebem créditos na Califórnia que podem ser vendidos às companhias que não conseguem atingir o mesmo padrão.

O programa de incentivo aos combustíveis com baixas emissões, que existe desde 2011 e inspirou a criação do programa brasileiro RenovaBio no ano passado, está alinhado à meta estabelecida pelo Conselho de Recursos do Ar da Califórnia (CARB, em inglês) de redução da intensidade de carbono (quantidade de energia gerada pelo combustível para cada tonelada de gás carbônico emitida) em 10% até 2020 em relação aos níveis de 2010. E, agora, o conselho está a caminho de ampliar essa meta para 20% para 2030.

Tal iniciativa integra um conjunto de medidas de combate às mudanças climáticas promovidas pelo governo Brown. O democrata tornou-se uma figura badalada pelas lideranças ambientais ao redor do mundo por sua tentativa de alinhavar esforços em todo o território americano para garantir que os EUA cumpram as metas assumidas no Acordo de Paris, em uma queda de braço com Donald Trump. Sua liderança nessa área tende a ser reforçada ao hospedar o Global Climate Action Summit (GCAS), evento promovido pela ONU Meio Ambiente nesta semana que Brown se dispôs a abrigar em San Francisco.

A mudança regulatória do programa da Califórnia, o LCFS, está em andamento e ainda depende de audiências públicas e avaliações dentro do governo estadual. Mas a expectativa é que o novo plano de redução de emissões nos transportes na Califórnia esteja em vigor em 2019, afirmou ao Valor Emily Wimberger, economista-chefe do CARB.

A expansão dessa meta deve reduzir o consumo de combustíveis fósseis em 45% até 2030, segundo Wimberg. No entanto, não há garantia de um espaço maior para os biocombustíveis no mercado de fontes renováveis da Califórnia, disse. "O programa tem a lógica de buscar uma emissão neutra. Então, se o biocombustível tiver menos emissões, ou emissões negativas, e isso pode ser feito, por exemplo, através do uso de biodigestores na produção, ele pode ser usado".

O desafio para os biocombustíveis será competir com as novas medidas de incentivo que também estão previstas na reforma do LCFS para os carros elétricos, observou. Uma das novas regras deve permitir que as empresas de carregamento de baterias de carros elétricos também possam emitir créditos, o que deve incentivar ainda mais a eletrificação da frota.

O governo da Califórnia já anunciou que pretende chegar em 2030 com 5 milhões de veículos elétricos nas ruas e, em 2050, com emissão "zero" (desde a geração da energia até o consumo) para toda a sua frota. E está investindo US$ 740 milhões na construção de uma infraestrutura de carregamento de baterias de veículos elétricos.

Desde que o programa de baixo carbono foi implementado, o etanol já respondeu por 45% dos créditos gerados. Para Wimberger, "ainda há espaço para os biocombustíveis" no programa da Califórnia, mas não é possível avaliar se ele será maior ou menor dentro do horizonte de 2030 proposto pela nova meta de emissões. "Como há muitos combustíveis e muitas combinações de intensidade de carbono na produção, é difícil prever o que vai acontecer", disse.

Da mesma forma, não está assegurada qual pode ser a contribuição específica do Brasil para que a Califórnia alcance as novas metas de redução de emissões, indicou. "Depende se for econômico trazer o etanol brasileiro para a Califórnia. Se o preço for atrativo, se for eficiente, vai acontecer", afirmou Wimberger.

Uma das propostas que está no bojo das mudanças regulatórias do programa californiano, ressaltou ela, é a inclusão dos combustíveis para aviação dentro das metas, o que pode abrir mais uma porta para o uso de biocombustíveis no setor.

Por sua vez, os produtores brasileiros continuam descrentes quanto ao potencial de ameaça dos carros elétricos sobre o mercado conquistado até agora pelo etanol de cana. Para Leticia Phillips, representante da União das Industrias de Cana-de-Açúcar (Unica) nos Estados Unidos, as metas estabelecidas pela Califórnia para a eletrificação de sua frota até 2030 são pouco exequíveis. "Acho que isso não condiz com a realidade do Estado. Ainda existe muito carro de combustão interna", afirmou a executiva, de Washington.

A repórter viajou a convite da UN Foundation
Por Camila Souza Ramos
Fonte: CanaOnline




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