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30/09/2019 - Outros

Bioproduto recupera fósforo de fertilizantes e pode poupar até US$ 40 bi


O Brasil é um dos países líderes em agricultura. Por isso, seu consumo de fertilizantes é extremamente alto. Boa parte desses insumos vem de fora — em 2018, foram importadas 24,96 milhões de toneladas de fertilizantes NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). Para acabar com essa dependência externa, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram um biofertilizante. Por meio da ação de bactérias, o produto consegue aumentar a absorção do fósforo acumulado no solo e, dessa forma, elevar a produtividade de plantações. Além de ganhos econômicos — estima-se que sob o solo brasileiro haja US$ 40 bilhões de fósforo acumulado —, a tecnologia poderá ajudar a amenizar o impacto ao meio ambiente causado pelo uso de químicos tradicionais.

Desde 2002, a Embrapa se dedica a projetos de aumento da eficiência do fósforo em plantações. Depois de aplicado, grande quantidade desse nutriente fica acumulada no solo, sem executar as funções esperadas. “O fósforo é um elemento pouco móvel no solo. E nos tropicais, fica preso com o ferro. A planta não consegue absorvê-lo e, por isso, perde-se muito nutriente”, explica ao Correio Christiane Paiva, uma das autoras do trabalho e pesquisadora da área de microbiologia do solo da Embrapa Milho e Sorgo, em Minas Gerais.

A cientista explica que esse mineral é indispensável para o crescimento e a produção vegetal, pois está relacionado aos processos de fotossíntese, respiração, armazenamento e transferência de energia. “Saímos em busca de formas de gerar maior absorção do fósforo e de garantir que essas funções fossem realizadas”, diz.

Inicialmente, a equipe selecionou 450 bactérias para identificar aquelas que fossem capazes de impulsionar a ação do fósforo acumulado nas plantas. Após a triagem, os cientistas chegaram a dois micro-organismos promissores. “Vimos que a Bacillus subtilis e a Bacillus megaterium conseguem fazer com que maior quantidade de fósforo seja absorvida pelas raízes”, relata Christiane Paiva.

Selecionadas as bactérias, a Embrapa firmou uma parceria com a empresa Bioma para a formulação do biofertilizante, que recebeu o nome de BiomaPhos. Em testes iniciais, ele teve resultados extremamente positivos. “Observamos uma alta produtividade, de cerca de mais de 10 sacas de milho por hectare. Já de soja, foram de cinco a sete sacas”, detalha a pesquisadora. Segundo Christiane Paiva,  a economia gerada com o uso do produto é um dos pontos mais positivos. “Ele vai custar cerca de uma saca de soja. É muito pouco para uma série de benefícios que poderá gerar”, compara. 

Pelo mundo
Celso Luis Moretti, presidente da Embrapa, destaca que o biofertilizante pode revolucionar o uso de um nutriente que é crucial para os produtores brasileiros. “Publicamos um estudo que mostra como US$ 40 bilhões de fósforo presente no solo estão indisponíveis. É uma entrega estratégica para a agricultura brasileira”, frisa. Outros países também poderão ser beneficiados, diz Moretti. “Veja o continente africano, um dos lugares com o maior percentual de pessoas que passam fome no mundo. Um dos limitantes da produção alimentícia é a disponibilidade de fósforo para desenvolver culturas. Esse produto pode contribuir para mudar esse cenário”, ilustra.

Benefícios ao meio ambiente também são esperados pela equipe da Embrapa. Christiane Paiva explica que, além de poluir o solo, o fósforo não é um recurso renovável. “Há  um volume grande de jazidas de minerais contendo fósforo no mundo, mas elas são finitas”, frisa. “Aumentar a eficiência das adubações com esse tipo de produto biológico é, portanto, fundamental. Não tenho dúvidas de que o uso desse tipo de insumo fará parte das atividades do agricultor em um futuro bastante próximo.”

Moretti ressalta que reduzir os impactos gerados ao meio ambiente pelo uso do fósforo é algo buscado por líderes de diferentes países.“A maioria das nações tomou a decisão de investir, de forma consistente, em ciência, tecnologia e inovação em conjunto com a preocupação ambiental. Elas têm colhido resultados positivos. Sempre falo da Coreia do Sul que, ao investir em educação e, principalmente, na área de tecnologia, além de parceria com empresas, conseguiu se tornar uma das maiores do mundo. Acredito que podemos fazer o mesmo aqui. Somo uma das potências em produção de alimentos.”

Importações em alta 
Dados divulgados pela GlobalFert, um dos principais provedores de informações estratégicas relacionadas à agricultura, mostram que o Brasil importou 24,96 milhões de toneladas de fertilizantes NPK, volume 4% maior que o de 2017. Segundo o grupo, os adubos fosfatados representam cerca de 5,69 milhões de toneladas importadas no período. 

Por Vilhena Soares
Fonte: Correio Braziliense




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