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25/07/2019 - Outros

Bayer investe para ampliar vida útil do glifosato no Brasil


Em meio a processos bilionários de indenização movidos por agricultores prejudicados pelo uso do glifosato, a Bayer tem buscado ampliar a vida útil do herbicida mais polêmico do mundo – evitando, desse modo, a perda da sua eficácia na agricultura brasileira devido ao surgimento de plantas daninhas cada vez mais resistentes.

“A gente percebe que isso [a resistência de ervar daninhas ao glifosato] é uma tendência mundial. Aconteceu nos EUA de forma expressiva, na Argentina, e a gente entende que para o Brasil isso se intensifica também”, reconhece Fábio Passos , gerente de lançamento da biotecnologia Intacta 2 Xtend, com lançamento previsto no país em 2021.

O produto, já aprovado pelos órgãos reguladores brasileiros, envolveu 15 anos de pesquisa e desenvolvimento para criar uma semente de soja com resistência ao glifosato, a lagartas e também ao dicamba, um herbicida hormonal para plantas de folha larga que está há décadas em desuso no Brasil.

“Como existe uma tendência de plantas de difícil controle, tanto gramíneas quanto folhas largas, resistentes até mesmo a outros herbicidas, a gente achou importante acrescentar essa tecnologia dentro da soja”, explica André Menezes, líder da estratégia de novos herbicidas da Bayer no Brasil.

Diferentemente do glifosato, o dicamba é um herbicida de ação hormonal, que estimula a planta daninha a crescer a taxas insustentáveis, comprometendo o seu metabolismo e levando-a à morte. A proposta da Bayer é associar o uso dos dois produtos, permitindo eliminar as plantas invasoras que sobreviverem à aplicação do glifosato.

“É um produto que não está no sistema de manejo do agricultor, então vai ajudar a combater a criação da resistência de plantas daninhas. Uma invasora que talvez esteja começando a criar resistência ao glifosato, o dicamba vai eliminar”, avalia Passos.

A Bayer não revela o quanto investiu no desenvolvimento da Intacta 2 Xtend, mas o processo envolveu uma transgenia exclusiva para o Brasil nas sementes de soja, garantindo tripla resistência (diamba, glifosato e lagartas), e também alterações na molécula do dicamba.  Enquanto as formulações antigas do herbicida eram obtidas a partir de sal de dimetilamina, a Bayer patenteou sua fabricação a partir do sal de diglicolamina, reduzindo em mais de 99% a volatilidade do produto.

A volatilidade de herbicidas hormonais tem despertado atenção de autoridades em todo o país devido ao grande potencial de dano a outras culturas. No início de julho, o Governo do Rio Grande do Sul publicou duas Instruções Normativas estabelecendo regras específicas para esses produtos – entre elas, o registro dos profissionais responsáveis pela aplicação.

“Uma particularidade do dicamba é que a soja não-transgênica é hipersensível a ele. Uma pequena quantidade do produto, de um milésimo da dose recomendada, é o suficiente para afetar a cultura vizinha. Então o produtor tem que ter esse cuidado especial no momento da aplicação e se profissionalizar”, lembra o professor sênior da Escola Superior  de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), Pedro Christoffoleti.

Segundo o pesquisador, entre as 10 plantas daninhas de maior incidência no Brasil, seis já apresentam algum grau de resistência ao glifosato. “A tendência futura, se nós não mudarmos a nossa tecnologia, é que essas ervas se expandam e fiquem cada vez mais frequentes”, alerta Christoffoleti. Ele destaca a buva, o amaranthus, o picão preto e a vassourinha como as principais daninhas resistentes observadas hoje no Brasil.

Em testes realizados no centro universitário de Várzea Grande, no Mato Grosso, a aplicação consorciada do dicamba e do glifosato levou a níveis de controle de quase 100% comparados a taxas de 50% a 60% no grupo de controle, onde foi aplicado apenas o glifosato. De acordo com  Anderson Cavenaghi, professor responsável pelos testes, foi realizado o uso de glifosato na pré-emergência seguido da aplicação do dicamba junto com o glifosato na pós-emergência.

“Óbvio que não é um valor fixo, é um valor que depende da sua condição de aplicação, momento de aplicação, estágio da erva daninha… Mas o mais importante é que, em cenários em que o glifosato daria 50% a 60% de controle, essa taxa pode subir para mais de 90% em média”, destaca o pesquisador.

Por enquanto, a Bayer aguarda apenas a aprovação da Intacta 2 Xtend na China para realizar o lançamento comercial da sua nova geração de sementes transgênicas no Brasil. A empresa acredita que o aval chinês ocorra em 2021 e que a disseminação da tecnologia garantirá um novo patamar de produtividade na sojicultura brasileira.

O produto deve ser testado já nesta safra 2019/20, quando surgirão os primeiros números de produtividade oficiais (até então, a semente vinha sendo testada em laboratórios e universidades, sob condições de maior controle). Segundo Passos, a expectativa é de um incremento na produtividade média brasileira semelhante ao observado após o lançamento da tecnologia Intacta, de cerca de 6 sacas por hectare.

“A gente sabe que o cenário de resistência ou de outras complicações em termos de plantas daninhas vai acontecer. Ele é inerente a todas as culturas e de todos os países. Mas a gente precisa estar preparado para atuar quando isso vier a acontecer ou garantir que isso não aconteça, fazendo um tratamento proativo”, explica Menezes.

Por Cleyton Vilarino
Fonte: Portal DBO




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