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03/06/2019 - Tecnologia

Barragens subterrâneas podem acabar com indústria da seca no estado de Alagoas


Três projetos estão em andamento em Alagoas para libertar os sertanejos da indústria cruel e secular, que mantém os sertanejos cativos aos "coronéis", políticos e dos caminhões-pipa. A maioria dos caminhões pertence a políticos e/ou aos seus parentes. O projeto mais novo e mais barato em andamento é o da barragem subterrânea. Ela está modificando o cenário árido das áreas rurais distantes dos mananciais, até então improdutivas e, neste momento, desafia o rentável negócio da seca.

Entre os projetos de combate à indústria fomentada pelas longas estiagens, a construção do Canal do Sertão, capitaneada pelo governo do estado e financiada pelo governo federal, é a estratégia bilionária. Já recebeu mais de R$ 2,5 bilhões para concluir quase 50% da obra. Porém, pode ser a arma mais eficiente contra os que exploram a miséria da população a partir da seca. Dos 150 quilômetros do rio artificial que capta água do rio São Francisco, em Delmiro Gouveia, e leva até Arapiraca, estão prontos 110 quilômetros.

A água é de boa qualidade e já chega ao município de Igreja Nova (distante 220 quilômetros de Maceió). Por falta de fiscalização, parte desta água é roubada e vendida por alguns caminhoneiros por até R$ 200 oito mil litros. Ainda não há data de conclusão do canal, que começou em 1990. Com a crise econômica-financeira do governo federal, o ritmo de construção deve diminuir.

Tem, também, o projeto de construção de 1 milhão de cisternas no Sertão dos nove estados nordestinos pela organização social Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). O projeto prevê a capacitação, treinamento e articulação das comunidades e famílias beneficiadas pela construção das cisternas. É reconhecido e premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como iniciativa relevante na política pública de acesso à água de boa qualidade e no combate a desertificação.

Barragem
A mais recente iniciativa que integra captação da água da chuva, produção agrícola, abastecimento humano e de animais é a barragem subterrânea. O projeto também é de integração e foi desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), nos anos de 1980. A barragem é uma tecnologia de captação e armazenamento de água da chuva para a produção de alimentos com aproveitamento do próprio solo de pedras do Sertão. 

A água fica armazenada em baixo da terra por muitos meses. A tecnologia aplicada é relativamente barata, custa entre R$ 10 mil e R$ 25 mil cada barragem e, nos últimos 10 anos, vem se espalhando pelo Nordeste.

Por ser uma técnica simples, que mobiliza e aglutina famílias de pequenos produtores rurais sertanejos e as tornam independentes dos políticos que mantêm caminhões-pipa, não angariou simpatia da maioria dos gestores municipais. Organizações não-governamentais, entidades como ASA, sindicatos de trabalhadores e de produtores rurais abraçaram o projeto.

Em Alagoas, existem cerca de 20 barragens, 16 delas são projetos desenvolvidos pela Federação da Agricultura e Pecuária de Alagoas (Faeal), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Projeto começa com persistência de um sertanejo pobre
Das 20 barragens subterrâneas construídas no estado, as duas primeiras estão na propriedade do agricultor sertanejo Edésio Melo, o Seu "Dedé", 56 anos, que vive em São José da Tapera, município distante 218 quilômetros da capital. Foi lá que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lançou o Programa Nacional do Leite para combater a desnutrição. 
"Hoje, planto o que quero, a qualquer época do ano, porque tenho água armazenada no poço da barragem. A minha produção não é para juntar dinheiro. É para sobreviver", explicou o sertanejo pobre e persistente. Seu Dedé percebeu que, com a ajuda da ciência, é possível conviver com a estiagem com dignidade.

A determinação deste pequeno produtor o transformou na principal fonte de inspiração para a direção da Federação de Agricultura e do Sebrae. As entidades perceberam a importância prática da tecnologia desenvolvida pela Embrapa e aplicada com sucesso nas terras do sertanejo de Tapera. 

Os técnicos ficaram impressionados com a produção de hortaliças que o agricultor mantém numa região até então inóspita. Tudo é vendido para compor o cardápio da merenda escolar e nas feiras livres de São José da Tapera,

Independentemente das condições climáticas desfavoráveis para o plantio naquela região, a horta de Seu Dedé é sempre irrigada com água da barragem subterrânea. Uma solução simples, barata e capaz de garantir a produtividade e o sustento das famílias que trabalham naquele projeto particular. 

O agricultor construiu a primeira barragem há uma década e praticamente sem ajuda. A estrutura é capaz de armazenar 750 milhões de litros de água. O agricultor conta que a obra foi manual e durou um ano para ser concluída. Em seguida, veio a segunda barragem, com capacidade para 25 milhões de litros.

Todo o esforço foi recompensado. Hoje, o agricultor cultiva cerca de 90 tipos de plantas, entre hortaliças, frutíferas e medicinais, em 66 canteiros, 50 deles de 30 metros e os demais de 8 metros. 

"Do dia 15 de maio de 2008 até hoje, graças a Deus, eu venho arrumando a minha boia e a da minha família", disse Seu Dedé, que é casado e tem cinco filhos e meia dúzia de netos. Mais seis famílias ajudam no plantio em torno das duas barragens e sobrevivem delas.

A experiência chegou ao conhecimento da Federação da Agricultura, por meio de um dos técnicos que identificou o oásis do Seu Dedé. Novamente, ele atuou como protagonista e auxiliou na construção de outras barragens subterrâneas para beneficiar mais famílias na região. Cerca de 15 já foram construídas, uma delas, no povoado Olho d"Água do Padre, por meio do convênio "Sertão Empreendedor", firmado entre o Senar/ AL e o Sebrae. O investimento básico custou R$ 12 mil, revelou a assessoria de comunicação da Federação da Agricultura.

Embrapa mapeou locais para construção de barragens em Alagoas

Alagoas é um dos poucos estados do Nordeste com definição dos pontos ideais para implantação de barragem subterrânea. Como a água no Sertão é salobra e parte do solo está comprometido com sal, é preciso identificar com precisão o ponto onde será construído a barragem que vai armazenar a água da chuva e mantê-la com boa qualidade para plantação e abastecimento humano por meses. Estes pontos já foram identificados e mapeados pela Embrapa.

O presidente da Faeal, Álvaro Almeida, revelou o trabalho de mapeamento da Embrapa e avaliou que existem tecnologias suficientes no Brasil para permitir a convivência do homem com a estiagem com trabalho, produção e dignidade. 

"Nós (o país) temos soluções para minimizar os efeitos da seca e garantir sobrevivência de famílias produzindo", destacou Álvaro. A Faeal, apesar de estar ligada a grande produtores e pecuaristas, há anos estimula a construção de barragens em diversas regiões do estado para suprir as necessidades em momentos de longa estiagem e aos integrantes da agricultura familiar.

Em audiência pública, na Assembleia Legislativa, no último dia 10 de maio, entidades da agricultura familiar, dos grandes agricultores, representantes de prefeituras, governo do estado e oito parlamentares, defenderam a criação de projeto para gestão da água, utilização com múltiplos usos do Canal do Sertão e educação ambiental, principalmente na região semiárida. 

A Federação da Agricultura assumiu a defesa pública das barragens subterrâneas como mais uma solução alternativa de baixo custo para o sertão. "Nós temos um grande projeto em andamento, o Canal do Sertão, que já consumiu muito dinheiro público. Temos muita água num trecho de 100 quilômetros e, agora, precisamos utilizar esta água com gestão eficiente de múltiplos usos. É preciso controle deste manancial. Por outro lado, temos que ter alternativas para os que moram distantes do canal e uma das alternativas é a barragem subterrânea", defendeu o líder dos produtores.

Enquanto a obra hídrica mais importante e mais cara do estado não fica pronta e os projetos de irrigação planejados não são executados, Álvaro Almeida faz questão de "provocar" os governos federal, estadual e municipais para projetos alternativos, baratos, de armazenamento de água e também para diversos usos. " A construção de barragens subterrâneas precisa ser implementada. Já temos cerca de 20, produzindo", afirmou.

O pleito na verdade não é novo. A Federação da Agricultura já encaminhou, há mais de 10 anos, à Secretaria Estadual de Agricultura a proposta de construção de pequenas barragens ao longo dos rios Paraíba, Mundaú, Ipanema entre outros que cortam o semiárido, zonas da mata e litorâneas. Mas, até agora nenhum projeto neste sentido saiu do papel. Álvaro Almeida está otimista com relação ao governo Renan Filho. 

"A primeira manifestação que recebi de governos anteriores era que a construção das barragens no Sertão seriam inviáveis porque salinizaria a água armazenada. A Federação da Agricultura respondeu que é preferível ter a água salinizada, porque há mecanismo técnico para tirar o sal, do que não ter água. Temos que aproveitar este período de chuva para armazenar água e garantir a qualidade do produto armazenado. A Embrapa tem tecnologia para isto e barata, sem salinizar".

Nova técnica
Ao conhecer os resultados práticos da barragem subterrânea do Seu Dedé, de São José da Tapera, a direção da Federação da Agricultura comprou a ideia e participou da construção de projetos experimentais. Em um ano, os resultados superaram as expectativas. Em Alagoas, a tecnologia fica ainda mais interessante, barata e produtiva porque aproveita o terreno de lajedo (o solo formado por pedras), que facilita armazenar a água.

A tecnologia permite o uso da água represada para agricultura de qualquer espécie, consumos humano, animais e promove educação ambiental nas comunidades para evitar desperdício. 

Além de chamar a atenção dos governos, o presidente da Faeal provocou também o conselho técnico do Senar de Alagoas, a direção da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Alagoas - Fetag/AL e o Sebrae/AL para apoiarem a adoção da tecnologia já utilizada em diversos municípios do sertão do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e da Bahia. 

Nos outros estados, a Articulação do Semiárido Brasileiro tem um papel importante ao criar a rede que defende, propaga e põe em prática a política pública de convivência com o semiárido. A ASA é uma entidade é formada por mais de três mil organizações da sociedade civil como sindicatos rurais, associações de agricultores, cooperativas, organizações não-governamentais, entre outras nos sertões dos noves estados nordestino e de Minas Gerais. Além de construir um milhão cisternas, a entidade atua na mobilização e na construção de barragens, inclusive as subterrâneas.

Aqui, em Alagoas, existem iniciativas individuais que já utilizam a técnica de construção das barragens subterrâneas é há dez anos apresentam resultados lucrativos. Um delas é na propriedade do Seu Dedé, numa região árida do município sertanejo de São José da Tapera. Com água armazenada planta o ano todo, tem um poço e assim mantém um oásis numa região arrasada, conforme relato de Álvaro Almeida.

"Fomos conhecer em Tapera a propriedade de Seu Dedé. Fiquei impressionado. Cheguei lá em meados de novembro, com uma temperatura de 40 graus, conhecemos o armazenamento de água da cisterna subterrânea que permite seis famílias viverem com dignidade e sem precisar do poder público", disse o presidente da Federação da Agricultura, ao admitir que foi a partir de duas barragens do agricultor sertanejo que aumentou a convicção naquele projeto simples.

Investimentos
Na fazenda do agricultor, Álvaro Almeida constatou a produção agrícola diversificada, a área verde e a pequena criação saudável. "As barragens subterrâneas não resolvem o problema da seca de forma imediata. Mas, é uma solução alternativa, barata, rápida de construir, eficiente e, a depender da região, cada barragem pode atender várias famílias com emprego e renda". 

O presidente Faeal revelou que, para auxiliar o governo de Alagoas, a Embrapa tem o mapeamento técnico e minucioso dos locais ideais para a construção de barragem subterrânea.

Antes de encaminhar proposta ao atual governo de Alagoas, a Federação da Agricultura, numa parceria com o Sebrae, construiu uma barragem modelo em São José da Tapera, que custou R$ 21.637.03. 

"A tecnologia é simples, barata e queremos provocar as prefeituras e os governos federal e estadual para a execução deste projeto". Depois ajudou na construção de mais 15 barragens.

O governo de Alagoas também já tem informações sobre a nova tecnologia de armazenamento de água da chuva para múltiplos usos. Tanto que, na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa, no último dia 10 de maio, o secretário Estadual de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Semar/AL), Fernando Soares e técnicos da pasta, como Alex Gama, fizeram discurso onde afirmaram que a construção de barragens, sobretudo no Sertão era uma das prioridades da pasta e do governo Renan Filho (MDB). Eles não revelaram, porém, a quantidade de barragens previstas, mas confirmaram o planejamento.

Por Arnaldo Ferreira
Fonte: Portal Gazetaweb.com




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