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08/10/2020 - Outros

Alvo de pressões, Brasil estaria pronto melhorar a rastreabilidade da agricultura


Com o desmatamento da Amazônia cada vez mais no foco da agenda ambiental mundial, cresce também a pressão para que o Brasil, uma das maiores potências agrícolas do planeta, melhore a rastreabilidade da sua agricultura. A tecnologia para dar esse passo já existe – mas os avanços esbarram na omissão do governo e em resistências dentro do próprio setor.

A maior transparência quanto à origem dos produtos que levamos à mesa é uma demanda mundial e, em especial, europeia. No novo Green Deal, ou Pacto Ecológico Europeu, apresentado este ano, o rastreamento “do pasto ao prato” ganha destaque, ao contribuir para o esforço do bloco em chegar à neutralidade de emissões de carbono nos próximos 30 anos. Poderão entrar neste cálculo as emissões geradas em ítens importados – e é aí que as commodities brasileiras acabam visadas. Um estudo publicado em julho na revista Science mostrou que 17% da carne e 20% da soja exportadas para a Europa vinham de áreas desmatadas ilegalmente.

"Essa preocupação da legalidade tem que ser nossa, brasileiros, e não vir de fora. O fato de ela vir de fora pode dar a impressão de que o brasileiro pode comer uma carne ilegal e a legalizada é para o estrangeiro”, afirma Pedro de Camargo Neto, produtor e ex-dirigente de entidades do setor como a Sociedade Rural Brasileira (SRB). "Eu, como brasileiro, quero não só me alimentar dentro da legalidade, como quero que o Brasil seja visto como um país que a respeita.”

Cadeia segmentada dificulta controle
Cerca de 80% das áreas desmatadas na Amazônia e mais de 50% no Cerrado viram pastagem para a pecuária – em uma cadeia de produção que, de tão segmentada, se torna pouco transparente. O Brasil é o líder mundial de exportações de carne bovina, com a projeção de 2 milhões de toneladas vendidas em 2020. 

"Entre um bezerrinho que nasce num assentamento, onde ele vai crescer e engordar, onde ele vai ser ‘acabado’ e onde ele termina, tem um trânsito na mão de vários atores. A indústria só tem a informação do último ator, e não dos demais, porque a cadeia não oferece essa transparência para a indústria”, explica Arnaldo Carneiro Filho, pesquisador sênior aposentado do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e um dos maiores especialistas do país em rastreabilidade na agricultura. "No fundo, é um setor muito tacanha, muito careta, que não sabe lidar com a transparência a seu favor”, sublinha.

Cientes do impacto econômico dessas falhas, as grandes exportadoras de carne bovina têm se esforçado para implementar sistemas de monitoramento de produção em áreas desmatadas. Em setembro, prometerem a adoção de um "cadastro positivo da pecuária” até 2025, com a garantia de desmatamento zero na Amazônia.

A iniciativa, porém, encontra resistência dos fornecedores indiretos, já que muitos atuam em áreas ilegais. Do lado do governo, predomina a omissão – as iniciativas que existem são tomadas pelos próprios frigoríficos, que têm insistido na necessidade do poder público aumentar a certificação ambiental na agropecuária.

Uso da tecnologia
O primeiro passo, na opinião de Pedro de Camargo Neto, é acelerar a regularização fundiária dos pequenos produtores, para que eles tenham acesso ao Cadastro Ambiental Rural. Camargo Neto avalia que a rastreabilidade do produto, ou seja, da carne embalada no supermercado, ainda é um desafio distante. Mas a territorial, com a identificação de produções em áreas de desmatamento ilegal, está ao alcance.

“Nós podemos fazer mais. Hoje, com fotografias de satélite, inteligência artificial, você consegue identificar com uma grande precisão o que ocorre”, nota. "Você não precisa estar lá: o satélite está. Então, nós precisarmos fazer mais para quebrar esse estigma, essa imagem que a agricultura brasileira não merece."

Para o pesquisador do Inpa, o Brasil se encaminha para oferecer mais transparência na produção em grande escala de carne bovina, nos próximos cinco anos. Entretanto, o problema do gado ilegal vai permanecer enquanto os pequenos produtores não forem incentivados a migrar para outros setores.

“Se o governo fosse esperto e inteligente, atuaria nessas duas frentes: resolver os problemas da cadeia da pecuária, levando tecnologia e assistência técnica, e para os excluídos da pecuária, que são os pequenos, propor alternativas de renda que são inclusive melhores do que a pecuária pode oferecer”, indica Carneiro Filho. "Para mim, no médio prazo, é o que vai acontecer. Um produtor de cacau, de castanha, de açaí, ganha muito mais do que um pequeno produtor de bezerros. Tem muitas outras alternativas hoje em dia.”

No caso da soja, a dificuldade tende a ser maior, explica o consultor, que atua em plataformas internacionais de monitoramento territorial e transparência da agricultura. "Se você pega a cadeia da soja, ela não tem segregação, ou seja, o grão não tem identidade. As empresas têm dificuldade em provar que a origem é segura, que não tem trabalho escravo, desmatamento e nenhuma outra ilegalidade associada”, constata.

Falhas também na Europa
Pedro de Camargo Neto frisa ainda que o novo Código Florestal, em vigor desde 2012, estabelece percentuais de desmatamento legal da Amazônia para a agricultura – um detalhe que costuma ser esquecido pelos críticos do Brasil.

"Os problemas que têm ocorrido na agricultura são, percentualmente, muito pequenos. Quase todos os países têm e, se eu for na Europa, eu também encontro”, ressalta o produtor. "Há outros problemas na Amazônia, que não são nem agrícolas, como a mineração, o garimpo, a exploração madeireira, a grilagem, que é um roubo de terras públicas. Mas a pressão só sobra sobre nós."

Residente atualmente na França, Carneiro Filho concorda que o desafio da rastreabilidade é mundial. A mesma Europa que aponta o dedo para o Brasil ainda não consegue oferecer total transparência sobre a procedência de produtos como a carne.

Por Lúcia Müzell
Fonte: RFI - Radio França Internacional




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