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15/10/2018 - Algodão

Algodão: O ressurgimento da produção no semiárido


O semiárido brasileiro já foi grande produtor de algodão. A partir da década de 80, no entanto, a cultura no Nordeste entrou em decadência, se concentrando, sobretudo, na região Centro-Oeste. Para resgatar essa produção, dessa vez sob um novo modelo de cultivo, o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos vai beneficiar duas mil famílias agricultoras em cerca de 50 municípios do semiárido nordestino com a produção do algodão em consórcio com outras culturas alimentícias - como milho, feijão e gergelim. Iniciativa do Instituto C&A em parceria com a Embrapa Algodão, Universidade Federal de Sergipe (UFS) e organizações não governamentais (ONGs), o projeto vai fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) - associações que representam famílias de agricultores e certificadas a emitir o selo de produto orgânico.

Com investimento de R$ 5,1 milhões, o projeto vai alcançar o Sertão do Pajeú e do Araripe (PE), o Sertão do Cariri (PB), a Serra da Capivara (PI), o Sertão do Apodi (RN), o Alto Sertão de Alagoas e de Sergipe. Atualmente 5,8 mil famílias produzem algodão agroecológico em todo Nordeste.

“Mas com a estratégia de fortalecer as OPACs, a gente quer chegar, ao longo de cinco ou seis anos, a 40 mil famílias”, revela Fábio Santiago, engenheiro agrônomo que coordena o projeto pela ONG Diaconia. A produção agroecológica é a feita sem nenhuma aplicação de produto químico manufaturado pelo homem. “Sem agrotóxico, sem fertilizante sintético, e resgatando uma cultura que é extremamente importante para a região e fez parte da cultura nordestina”, afirma. 

O investimento do Instituto C&A visa fomentar a produção de matérias primas sustentáveis, fortalecendo a produção familiar e conservação do meio ambiente. “Nosso objetivo é tornar possível a inclusão gradativa do algodão sustentável na indústria da moda, por meio de iniciativas que beneficiem o setor como um todo, abrangendo pequenas, médias e grandes marcas”, responde a empresa.

De acordo com o Instituto, menos de 1% do algodão produzido no mundo é orgânico. “No Brasil, esse número não chega a 0.01%. Por conta disso, entendemos a importância de investir em projetos como este”, comenta. “A nossa pesquisa sobre o impacto ecológico do cultivo de algodão orgânicona Índia, indica que, para cultivar 1 tonelada métrica de algodão orgânico em caroço se utiliza aproximadamente 93% menos água. Além disso, o impacto do algodão orgânico no clima é quase 50% menor do que o algodão convencional”, explana.

Uma das frentes para melhorar o processo de produção e fortalecer as OPACs é a pesquisa. “O cultivo do algodão demanda uma mão de obra muito grande. Esse é um dos gargalos para que a cultura não se expanda. Temos o desafio de avançar em tecnologias poupadoras de mão de obra, e principalmente tecnologias de plantio, manejo e colheita”, resume Fábio Santiago.

“As ONGs assessoram tecnicamente os projetos, de modo que as famílias ficam na linha de frente e sejam os protagonistas”. A Embrapa Algodão e a UFS trabalham ativamente para promover as pesquisas. 

Um exemplo disso são as técnica de transformação dos produtos. “Vamos criar primeira unidade de beneficiamento de outros produtos do roçado, fazer um trabalho de avanço”, detalha Santiago. Por se tratar de uma commodity, o milho é vendido a preço baixo. Para agregar maior valor ao produto, as organizações estudam estimular a criação de uma linha orgânica de derivados do milho: como a fubá e o cuscuz. A iniciativa agrada os agricultores beneficiados, como Maria de Fátima Souza, 43.

“Além do valor, financeiro tem a questão da nossa alimentação. Todo milho que a gente compra no mercado é transgênico e é produzido por adubo químico. E com nossa produção vamos conseguir contornar isso”, contou.

Em 2010, Maria de Fátima foi acompanhada em uma das primeiras etapas do Projeto. Hoje, com a produção estabelecida, ela compõe a Associação dos Produtores e Produtoras Agroecológicos do Semiárido Piauiense (APASP), atuando a favor da comunidade de assentamento em que vive.

“Em relação à vida da gente, cada projeto traz capacitação. A gente aprende melhor a manusear a nossa produção. E deixa um conhecimento. Ter conhecimento na mão é uma forma de poder. Com esse projeto a gente vai melhorar bastante a infraestrutura da nossa comunidade”, conta.

Por: Maria Lígia Barros
Fonte: Folha de Pernambuco




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