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09/09/2019 - Outros

Agronegócio inicia novo ciclo, mais sustentável e tecnológico


Na última sexta-feira, Marcello Brito, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e diretor-executivo da Agropalma, compôs uma mesa incomum. Estavam ao seu lado representantes do Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM), do Ministério Público Federal (MPF) do Pará e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) para o lançamento da campanha “Seja legal com a Amazônia”, que tem o apoio de diferentes entidades ligadas à pesquisa e à produção no campo.

No site da campanha, é possível aderir ao manifesto que será encaminhado ao procurador-geral da República e ao Ministério da Justiça pedindo providências para combater ações ilegais na Amazônia. Segundo dados do IPAM, no ano passado cerca de 40% do desmate na Amazônia ocorreu em florestas públicas, como são classificadas as unidades de conservação, terras indígenas e florestas públicas não destinadas (terras públicas em poder da União, mas que não tem um uso específico).

Durante o evento, Brito alertou para os efeitos que o Brasil ainda pode sentir com o problema de desmatamento e queimada na região amazônica, como os incêndios criminosos que aconteceram no que foi chamado de “Dia do fogo” – um movimento convocado por redes sociais para incendiar áreas de floresta.

“Temos algo que acompanha o Brasil: desmatamento, agroquímicos e indígenas. Mas todos os países usam agroquímicos. Só que existe uma questão de percepção. Quando se somam essas coisas ao que vem acontecendo, isso é personificado em forma de campanha contra o país”, diz Brito.

Segundo o representante do agronegócio, a atual campanha contra o Brasil pode ser considerada a pior da história. No entanto, Brito pondera ao falar das empresas que disseram que boicotariam os produtos brasileiros. “Não vi nenhum contrato sendo cancelado em nenhum setor. As exportações continuam, mas a luz vermelha está piscando aceleradamente. Se as providências não forem tomadas, a situação pode piorar. Cabe a todos nós dizer que houve um erro de percurso, que começou (com o aumento do desmatamento) em 2012, deu um sinal e agora explodiu porque a retórica foi mais exacerbada e há um jogo de poder no mundo. O Fla-Flu é mundial em termos políticos”, analisa. 

Qual é o retrato que pode ser feito do momento do agronegócio brasileiro, tanto do ponto de vista interno quanto para aqueles que observam de fora?
Vou usar a mensagem que recebemos de um grande amigo, muito culto, inteligente, no auge dos seus mais de 80 anos, com pelo menos 60 deles dedicados ao agronegócio. Ele diz que daqui a cinco anos, quando olharmos para trás, agosto de 2019 terá sido o ponto de inflexão do agronegócio brasileiro. Será um período quando o agro enxergou que o paradigma de produção e de percepção deveria ser mudado. Começamos a partir de agora um novo ciclo de 40 anos do agro, que será completamente diferente do passado. Ele será tecnológico, sustentável e adotará um modelo mais próximo da sociedade.

De que forma será possível chegar a esse modelo para o setor?
O poder de convencimento a ser usado será o do consumidor. Essa é a grande novidade que veio com a democratização e popularização das mídias sociais. O acesso hoje é global. Não é mais o que eu quero produzir e entregar ao mercado, mas sim o que o mercado quer que eu produza para que ele compre. Se você conversar com todas as grandes empresas de produção de alimentos, seja no campo ou na indústria, o foco hoje é entender o que o consumidor quer, como ele quer e transportar isso para o modelo produtivo.

Como conseguir adesões do setor produtivo?
Alguns podem espernear e dizer “não, esse é o meu modelo de negócio”. Mas, se ele não mudar, no curto prazo estará fora do mercado, que hoje é muito mais competitivo e vigiado. Nós temos 40, 50 satélites que monitoram o Brasil todos os dias. Se não for governamental, é não-governamental, é Google, é Nasa, é todo mundo que está observando desde a placa do carro até as condições da sua planta, a fertilização, se desmatou ou não. Não é mais uma questão de como eu quero fazer, mas sim como eu vou fazer para acessar o meu mercado. Nasce aí o poder do mercado traduzido na disseminação das mídias sociais.

Nessas primeiras semanas depois da divulgação da notícia sobre o “Dia do fogo”, foi possível sentir algum tipo de mobilização nas redes sociais?
Precisamos entender que quem concorre com o Brasil, seja qual for o produto, não fica sentado numa mesa, com um grupo de pessoas, pensando em como fazer uma campanha contra o concorrente brasileiro. Eles ficam monitorando as mensagens e a percepção que estamos passando. Quando passa a percepção de queimada em excesso, que pode até não ser verdadeira, de desmatamento crescente, que é verdadeira e vem acompanhando desde 2012, você passa para o seu concorrente a ferramenta que ele precisa para te criticar, para te derrubar naquele mercado.

Qual é o impacto do que está acontecendo do ponto de vista dos concorrentes internacionais?
Há quem diga que os jornais no exterior estão falando isso porque querem demonizar a produção brasileira. Esse é um jogo comercial. Ou o Brasil pensa que os seus competidores internacionais vão sentar, aplaudir e dizer “façam o que vocês quiserem e mandem seus produtos porque que vou comprá-los?” Não é assim que funciona. Cabe a nós ter inteligência comercial e entender que política ambiental é ferramenta comercial e não dar aos nossos concorrentes sequer a opção de levantar uma palavra de boicote ao produto brasileiro.

Qual foi o papel dos órgãos governamentais até agora?
Não foi o governo que fez o “Dia do fogo”, assim como as ONGs não foram colocar fogo em nada. Nesse assunto, quanto mais ágil você for, mas rápido se consegue contornar os problemas causados. Lamentavelmente, nós não fomos ágeis o suficiente.

“Nós” quem, o governo?
O governo e a sociedade como um todo. Chegou em um ponto grave, todas as áreas do governo se mobilizaram em torno da questão. Mas nós já sabemos que tem queimada todo ano. Existiu alguma campanha preventiva? Por exemplo, o pessoal do açúcar e álcool da região de Ribeirão Preto (interior paulista) faz campanha de prevenção a incêndios todos os anos porque sabe que é um problema recorrente. Nós fizemos isso na Amazônia? Não, não fizemos. O desmatamento não aumentou neste ano, ele vem aumentando há sete anos seguidos. O que foi feito a respeito?

O que tem influenciado a atual situação da Amazônia?
Tivemos uma campanha presidencial no ano passado e todos os candidatos apresentaram seus planos de governo. Será que não existia plano de combate ao desmatamento nessas propostas? Todos eles tinham, mas aí entra na questão da crise que o país enfrenta, que é muito grande. O Brasil, infelizmente, entrou numa espiral econômica tão ruim que acabou quebrando todo mundo, os governos nas três esferas. Aí não se consegue fazer uma operação federal porque o estado não consegue apoiar. O estado não consegue fazer o mesmo porque os municípios ou mesmo a União não conseguem apoiar. Surge a necessidade de uma nova reorganização desse processo.

A iniciativa privada vai ter de puxar essa fila, ao lado das ONGs?
A sociedade é quem vai ter de puxar, porque esse é um direito do cidadão. O fato de exigirmos daqueles em que votamos e elegemos que faça cumprir a lei é só um direito do cidadão. E esse direito tem de ser exercido. Uma campanha como a que foi lançada por nós, que reúne dezenas de entidades do agro e representantes da sociedade civil clamando para que a lei seja cumprida, é só um acender da luz verde da sociedade, mostrando que ela está, sim, preocupada com os rumos e que algo efetivamente precisa ser feito.

É preciso desmatar mais para produzir mais? Ou a solução está no aumento de investimentos em novas tecnologias para ganhar em produtividade?
Sou a favor do que chamamos de “teoria dos estoques”. Se olharmos nossas vidas como cidadãos, só precisamos de uma roupa para usar no dia, mas temos mais do que isso porque podemos precisar um dia. Temos nesse país, dádiva da natureza, terra, solo, clima, água, sol. Podemos entregar tudo agora a um custo muito barato para a sociedade mundial ou podemos guardar. E um dia isso será demandado pela sociedade mundial. E quem sabe será dado o devido valor à terra e à floresta brasileira. Se seguirmos os fluxos da demanda, temos condições de ganhar muito mais. Quando falamos, por exemplo, em tecnologia, não podemos deixar de fora a bioeconomia. O Brasil está 100 anos atrás de países que não têm 1% do ativo biológico que nós temos. O que foi feito nessa área?

Qual será o papel da Embrapa nesse contexto?
Não dá para esperar alguma coisa da Embrapa. Hoje, dos seus R$ 3,7 bilhões anuais de orçamento, gasta-se uns R$ 25 milhões, R$ 30 milhões em pesquisa. O restante é custeio e salário. É uma entidade fantástica, que contribuiu maravilhosamente para o desenvolvimento desse país, mas o momento dela é de total reorganização. A sua contribuição atual não é boa, é de muito gasto e de um custo muito pesado para o Estado brasileiro. O rearranjo da pesquisa, com foco em bioeconomia, em aumento de produtividade, em tecnologia e agricultura 4.0 vão proporcionar ganhos com a mesma área plantada.

Por Paula Pacheco
Fonte: Estado de Minas




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