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25/03/2019 - Tecnologia

Agricultura 4.0: ferramentas tecnológicas ganham espaço e mercado no campo


Na palma da mão, aplicativos dão estimativa de safra por satélite, identificam pragas nas plantas a longa distância, medem o peso do boi através da leitura da carcaça, e indicam qual o melhor momento para aplicar o adubo ou ativar os equipamentos de irrigação.

São os frutos das Agtechs, empresas de tecnologia aplicada à agricultura, especializadas em desenvolver ferramentas digitais para a área rural.

Não há números oficiais, mas o relatório anual do site Agfunder, especializado em agricultura de precisão, mostrou que houve um crescimento de 43% nos investimentos em Agtechs no ano passado no Brasil. Segundo o estudo, as startups focadas no agronegócio captaram mais de US$ 17 bilhões em 2018.

Por enquanto elas representam apenas 2% das empresas cadastradas na Associação Brasileira de Startups (ABStartups), mas diante das pesquisas que apontam uma demanda mundial crescente por alimentos, estas empresas estão se tornando ainda mais valiosas. A maioria apresenta soluções que auxiliam no aumento da produção agrícola por meio da inovação e da economia de recursos naturais.

Na Bahia, o mercado Agtech está em plena fase de expansão, e começa a estar presente nos lugares mais remotos através de aplicativos voltados para o homem do campo.

Aplicativo protetor
Numa fazenda produtora de soja e algodão no município de Barreiras, Oeste da Bahia, um aplicativo está sendo usado para monitorar a pulverização, que é a aplicação de defensivos químicos para combater pragas e doenças.

Instalado no avião pulverizador, o suporte tecnológico monitora o voo a cada dez mil hectares, e depois transforma os dados em indicadores que traduzem as condições da área e quais pontos ainda precisam ser pulverizados. Se não fosse o aplicativo, os funcionários da fazenda teriam que encontrar outra forma de monitorar as extensas lavouras.

“Ele faz o controle, depois transforma os dados em índices que ajudam a avaliar como está a operação, indicando os pontos que ainda têm problemas. Isso ajuda a economizar tempo e evita que a gente tenha que realizar ações desnecessárias em grandes áreas”, afirma o produtor rural Paulo Schmidt, que está testando o equipamento na fazenda da família.

A ferramenta é o Perfect Flight, desenvolvido para monitoramento aéreo agrícola. Ele tem tecnologia de georreferenciamento e aponta exatamente a quantidade ideal de defensivos que deve ser utilizada, em quais pontos o produto deve ser aplicado, e em quais as áreas de proteção ambiental do entorno que precisam ser preservadas. A aplicação oi desenvolvido há 4 anos por uma empresa especializada em ferramentas tecnológicas para empreendedores rurais.

“Nossa solução para a gestão da aplicação aérea de defensivos agrícolas partiu da percepção da falta de controle sobre a aplicação. Os índices de assertividade prévios ao monitoramento eram de 60%. O Perfect proporcionou índices próximos a 90%, com a preservação de áreas ambientais”, explica Leonardo Luvezutti, gestor de operações da Perfect.

O preço da inovação varia por área percorrida, em média R$ 1,20 por hectare. Desde que foi criado, a ferramenta já foi utilizada para monitorar mais de dois milhões e meio de hectares em cerca de 17 fazendas do Matopiba, área que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Sensores atentos aos detalhes
Antes da máquina começar a percorrer a plantação, um aplicativo instalado na plantadeira indica como está a umidade do solo e as curvas de nível do terreno. Ele traça sozinho linhas de tráfego, e indica o caminho que a máquina, com piloto automático, deve percorrer para evitar a compactação do solo e não sobrepor sementes. O aplicativo é o Agrocad, um software que faz parte de um pacote de soluções tecnológicas agronômicas, chamadas de Farm Solutions. O pacote inclui ainda a plataforma Inceres, que, instalada no celular, coleta dados e analisa a fertilidade do solo.

As duas ferramentas de agricultura de precisão foram desenvolvidas pela AGCO, fabricante e distribuidora mundial de equipamentos agrícolas, em parceria com a Tecgraf e a Inceres, empresas especializadas no controle de tráfego de máquinas, plantio, colheita e gerenciamento do solo.

“Com a demanda crescente por alimentos, é preciso fazer uma agricultura mais eficiente. Como nós estamos em um clima tropical, existe uma preocupação com a compactação do solo. Estas ferramentas baixam imagens de satélite, e através de telemetria transfere os dados para o celular. Isso permite fazer um projeto de cada canto onde a máquina vai passar, tem melhor aproveitamento da logística e utilização de práticas conservacionistas e sustentáveis”, afirma o supervisor de marketing da AGCO, Niumar Dutra Aurélio.

As ferramentas digitais estão vindo embarcadas nas máquinas das marcas Massey Fergusson e Valtra. O preço da tecnologia varia de 5 a 15% do valor total dos equipamentos. Para se ter uma ideia, uma colheitadeira média custa cerca de R$ 3,5 milhões.

Ano passado, a AGCO teve receita líquida de vendas de US$ 9,4 bilhões. A marca detém 40% das vendas de colheitadeiras na região do cerrado, e já anunciou que vai lançar novos suportes digitais para aplicação nas culturas de cana de açúcar, soja, milho, algodão, café e citrus, ainda em 2019.

Driblando a desconexão
Na Fazenda Panorama, em Correntina, no Oeste da Bahia, aplicativos de celular estão conectando 23 maquinas agrícolas e 10 coletores de dados, aqueles equipamentos portáteis usados para anotar informações de campo. Assim o técnico que percorre a plantação consegue compartilhar como está a lavoura. O sistema permite acompanhar em tempo real as máquinas que estejam dentro dos 22 mil hectares da propriedade.

Isso tudo está sendo possível em uma área rural onde a conexão celular original é precária, a intensidade de sinal é fraca, e muitas vezes os agricultores se sentem isolados. Problemas que atingem parte dos produtores rurais que atuam em lugares mais distantes das cidades, como o CORREIO mostrou em reportagem publicada semana passada.

A implantação de um sistema eficiente de comunicação dentro desta fazenda está sendo possível graças a um projeto piloto realizado através de uma parceria entra a TIM e SLC Agrícola, dona da fazenda.

Para implantar a tecnologia 4G no campo, o projeto incluiu a instalação de uma torre nova de celular dentro da fazenda, e o chamado backhoul, um conjunto de conexões que inclui suportes em fibra ótica e rádios transmissores para facilitar a comunicação por voz e a conectividade entre as colheitadeiras. O investimento revela a preocupação em atender um setor considerado estratégico para a economia brasileira.

“Percebemos que o agronegócio vem crescendo através do uso de máquinas automatizadas e inteligentes, mas ainda desconectadas. Por isso criamos este projeto para conectar o campo, as máquinas e as pessoas, sejam em grandes ou médias fazendas. Nós usamos o 4G, através de uma frequência mais baixa de 700 Mhz, que permite grandes coberturas em regiões planas”, explica Alexandre Dal Forno, gerente de produtos corporativos da TIM Brasil.

O uso da agricultura digital vem facilitando os negócios da fazenda, uma das maiores produtoras de commodities agrícolas do país, principalmente algodão, soja e milho.

“Os resultados até o momento são surpreendentes. A rede nos possibilita fazer videoconferências em alta velocidade e com qualidade, diretamente das colheitadeiras, onde antes não tínhamos qualquer tipo de sinal celular. A conexão das máquinas em tempo real e a comunicação da equipe deve trazer agilidade e maior produtividade aos nossos processos, em linha com o nosso objetivo de contribuir para o crescimento do Agronegócio brasileiro através da inovação de novas tecnologias”, explica Angelo Castiglia, Diretor de Tecnologia do grupo SLC Agricola.

Aliados da Ciência
O desenvolvimento de aplicativos voltados para a agricultura vem ganhando força também entre os cientistas e pesquisadores das ciências agrárias. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já possui no portfólio 32 aplicativos criados para auxiliar o trabalho no campo e a produção de alimentos. Ideais para tablets e smartphones, e compatíveis com sistema operacional para Android, IPhones e IPads, os suportes possuem funções variadas. Desde nutrição animal, acompanhamento da meteorologia, orçamento, produção de gado de corte, até para gestão informatizada de produção de leite.

Um dos mais procurados é o “Doutor Milho”, que identifica o estágio de desenvolvimento das plantas, acompanha a lavoura e auxilia no aumento da produtividade.

Outro muito utilizado é o “Custo Fácil”, uma ferramenta simples que ajuda os produtores rurais na gestão e na assistência técnica de granjas. Através dele dá para estimar o custo de produção e a rentabilidade do negócio, seja de frangos ou de suínos.

Uma das ferramentas mais recentes, o SIMPmamão, foi criado no ano passado pelos pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, para monitorar pragas do mamoeiro, cultura abundante no estado.

“É um conjunto de ferramentas que se tornam grandes aliadas do saber. Porque esta é a lógica da informática da agricultura. Os aplicativos se baseiam na alimentação de dados vindos do conhecimento humano. Eles permitem que se tenha acesso a muitas informações rapidamente, e a instrumentos capazes de interpretar os dados que foram pesquisados durante muitos anos. Assim, nós programamos a máquina para interpretar os sinais, mostrar, por exemplo, que há algo errado com a planta”, afirma Alberto Duarte Vilharinhos, Pesquisador e Chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura.

“Estamos desenvolvendo agora três novos aplicativos para identificação de doenças, um para adubação, e aprimorando o SimpMamão”, completa Vilharinhos.

Fonte: jornal Correio (Bahia) - 




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