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17/06/2019 - Outros

Agricultores, ambientalistas e indígenas se unem para reflorestar fazendas em MT


No Mato Grosso, a recuperação das matas ciliares de fazendas de soja é feita por meio de um projeto ambiental que conta com o esforço conjunto de agricultores, ambientalistas e índios. É uma parceria entre a agricultura moderna e o conhecimento tradicional indígena.

Muita gente no estado quer que a natureza volte a ficar mais parecida com ela mesma. Higor Trovo é uma dessas pessoas. Há 10 anos, quando tinha 16, ele foi entrevistado pelo Globo Rural. Tinha feito um projeto e, com a ajuda da escola, reflorestava as margens do rio Queixada, que passava na fazenda do pai dele.

"Criamos uma proteção para os animais e também para a nascente, que é um dos afluentes do Xingu. Vamos proteger a água, que é uma riqueza que nós temos e que a cada dia que passa está se tornando escassa. Se isso acabar, a gente acaba junto", diz Higor.

Para reflorestar a área, Higor e seu pai receberam ajuda do Instituto Socioambiental (ISA), que desde 1994 atua no Brasil. Na propriedade deles, foram plantados 4 hectares de matas ciliares em torno de uma das nascentes do rio Xingu. Existem outras 22 mil nascentes espalhadas pela bacia.

A lei de preservação das matas ciliares ao longo de rios e cursos d’água existe há 40 anos. Mas ela em sempre foi cumprida e, agora, muitos produtores rurais começam a replantar áreas desmatadas ilegalmente.

É um trabalho de formiga. O ISA, em parceria com produtores rurais, organizações de ensino, de pesquisa, pequenos e médios agricultores, indígenas e poder público, conseguiu reflorestar, em 12 anos de trabalho, uma área de 4 mil hectares. Não é nem 2% dos mais de 300 mil hectares de matas ciliares que precisam ser reflorestados na bacia do Xingu.

O instituto refloresta, em média, 150 hectares por ano. "Em vista do que acontece no Brasil, é muito pouco devido ao passivo que se tem", diz Heber Alves, coordenador do ISA Canarana.

Uma floresta demora muito tempo para virar floresta. Em uma fazenda em Vera Cruz do Xingu, no município de Canarana, na terra semeada há um ano há pequenos pés de ipê e paineira, que vão se transformar em grandes árvores, e sementes que ainda nem brotaram.

A fazenda tem 43 mil hectares. Planta soja, cria gado e mantém uma floresta nativa. Ainda assim, foi preciso reflorestar as áreas vizinhas aos cursos d’água. Não basta conservar a mata, é preciso que a floresta esteja no lugar certo, onde ela é fundamental para garantir a continuidade da vida.

"O que a gente está fazendo aqui junto com o ISA é muito importante, porque vai refletir não só aqui, mas na hora que cai no Xingu. E aí a gente pensa: Xingu, Mato Grosso, Pará… É muita responsabilidade cuidar de uma nascente", afirma Henrique Gonçalves, dono da fazenda. "A gente tira o nosso sustento da terra e a gente tem o dever de proteger a terra."

Rede de Sementes e muvuca
Para poder sustentar o reflorestamento nas áreas degradadas do Mato Grosso, o ISA criou em 2007 a Rede de Sementes do Xingu. É de lá que vieram 300 quilos de sementes que serão plantadas na fazenda Vera Cruz.

Misturadas, essas sementes formam a chamada muvuca, prontas para serem lançadas à terra. A técnica criada pelo ISA, inspirada no manejo indígena, reduz o custo do replantio das árvores.

As mesmas máquinas usadas no plantio da soja despejam a muvuca, com sementes de jatobá, carvoeiro, ipê, e outras 80 espécies.

A soja demora no máximo 5 meses para chegar ao ponto de colheita. A floresta precisa de muito mais tempo. Até o jatobá se tornar uma grande árvore, terão se passado pelo menos 30 anos dessa espécie que pode durar alguns séculos. Um dos bichos dispersores da semente dura do jatobá é a anta, um dos muitos mamíferos em extinção.

As árvores, as formigas, as abelhas, as aves, os mamíferos, mesmo sem planejar, trabalham todos juntos na tarefa de replantar a floresta. O homem precisa de estratégias e muitos parceiros para fazer trabalho semelhante. A rede de sementes do Xingu trabalha com mais de 600 coletores, entre indígenas e pequenos produtores rurais. Eles chegam a coletar mais de 150 espécies de sementes.

"Recuperamos 6 mil hectares com mais de 200 toneladas de sementes. Isso é muito pouco perto do que essa região tem para recuperar", diz Bruna de Souza, diretora da Rede de Sementes do Xingu. "A devastação continua aqui na região. No último ano, foram mais de 5 mil hectares abertos."

Sem a floresta, as sementes precisam ser encontradas. E, dependendo da dificuldade do beneficiamento, algumas podem ser muito caras. Como a da sucupira branca, que custa mais de R$ 600 o quilo. "Além de [a semente] ser difícil de achar, a matriz tem dificuldade no beneficiamento, é um trabalho artesanal", justifica Bruna.

O preço das sementes varia de R$ 2 a R$ 600. O olho de boi, custa R$ 6 o quilo; o tento amarelo, R$ 24; a copaíba, R$ 49; o ipê, R$ 155 e o carvoeiro, R$ 200.

O carvoeiro é uma árvore muito comum na região, nasce sozinha na natureza. Mas com a devastação, começa a ficar mais difícil a cada dia encontrar um carvoeiro e coletar a semente para fazer a muvuca. Por isso ela é tão cara.

Fonte: Globo Ru




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